Dólar acumula queda superior a 11% no ano, com horizonte fraco
Apesar de um cenário fiscal delicado e incertezas na política econômica brasileira, o real tem demonstrado notável resiliência frente ao dólar em 2025. Esse comportamento é impulsionado por um crescente diferencial de juros, fluxo comercial positivo e a fraqueza global da moeda americana. No ano, até 19 de junho, a moeda americana acumula queda de 11,38%, segundo a Elos Ayta Consultoria. Embora especialistas evitem precificar o câmbio este ano, a visão de dólar mais fraco é unanimidade – mesmo com os conflitos no Oriente Médio, que poderiam gerar uma fuga para a moeda porto seguro do mundo. É que o mercado, ao menos por ora, não aposta numa escalada dos embates suficiente para mudar a tendência da moeda americana.
“O patamar atual do câmbio ainda está em patamar abaixo do que seria o equilíbrio de longo prazo, o que também favorece entradas pontuais de recursos”, disse Elson Gusmão, diretor de Operações da Ourominas. O executivo destaca que o diferencial de juros segue sendo um fator-chave para o comportamento do real. “Com a Selic ainda em patamar elevado e o mercado precificando cortes nas taxas dos EUA nos próximos meses, o Brasil mantém uma atratividade relativa para investidores em busca de rendimento, principalmente no mercado de renda fixa. Isso favorece a entrada de capital estrangeiro e sustenta o real”.
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Historicamente, o carrego, ou diferencial de juros entre Brasil e EUA, é de aproximadamente 6,8%. Atualmente, ele está acima dessa “linha d'água”, o que torna o país ainda mais atrativo aos investidores estrangeiros, disse Alexandre Viotto, head de banking da EQI Investimentos. “Entre os principais motivos, no lado interno, destaco a volta do investidor estrangeiro e a diminuição da posição comprada em dólares na B3”, continua, explicando a alta do real.
Em outras palavras, o mercado está “apostando” em um real mais valorizado quando comparado a outros períodos do ano passado, por exemplo. Para o executivo da EQI, este movimento é explicado, em parte, por um fiscal relativamente equilibrado (em comparação ao ano passado), apesar do governo seguir apostando no aumento de impostos e não no corte de despesas para atingir as metas.
Outro fator não menos importante é a sequência de pesquisas de aprovação das eleições presidenciais de 2026, que apontam um enfraquecimento da popularidade do presidente Luis Inácio Lula da Silva. “Seria o chamado ‘trading da eleição’, fazendo com que os ativos brasileiros se valorizem na expectativa de uma mudança de governo na próxima eleição”, aponta Viotto. Ademais, os ativos brasileiros estão em um patamar considerado barato, o que atrai o fluxo de capital para a bolsa.
Se observado o fluxo cambial, até 6 de junho, está negativo em cerca de US$ 10,3 bilhões, segundo dados do Banco Central. “Apesar do saldo negativo no total, o forte fluxo comercial tem ajudado a limitar a pressão sobre o câmbio”, pontua Gusmão. No canal financeiro, houve saída líquida de aproximadamente US$ 32,1 bilhões no acumulado do ano. “Esse número reflete principalmente a saída de investimentos estrangeiros e remessas ao exterior”, explica o especialista da Ourominas. Já no fluxo comercial, houve entrada líquida de cerca de US$ 22,4 bilhões, puxada principalmente pelo bom desempenho das exportações brasileiras.

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Em relação ao fluxo Ibovespa, o saldo acumulado no ano já soma aproximadamente R$ 24,9 bilhões, segundo dados da B3, até o dia 17 deste mês, sendo quase metade desse montante registrado apenas em maio, lembra Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad. Na visão do especialista, o fluxo estrangeiro para o Ibovespa pode atingir entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões em 2025, em contraste com o ano anterior, quando o saldo foi negativo em cerca de R$ 24 bilhões. “Assim, 2025 tem sido marcado por um novo ciclo de otimismo com os mercados emergentes, dos quais o Brasil tem se beneficiado”, diz.
Fragilidades americanas
Diante de uma combinação de fatores externos e internos, o dólar tem perdido força mundialmente. A incerteza em torno das políticas econômicas adotadas pelo presidente Trump, que levou o mercado a reprecificar os ativos americanos, além das tarifas impostas pelos Estados Unidos - as quais impulsionaram uma reorganização dos fluxos comerciais e beneficiaram países exportadores de commodities, como o Brasil, fortalecendo o real -, além da busca por diversificação geográfica e a atratividade de ativos brasileiros ao investidor são alguns dos fatores, segundo Shahini, que explicam a fraqueza do dólar, em particular, diante da moeda brasileira.
Do lado externo, destaca Elson Gusmão, o dólar tem mostrado fraqueza global, refletida na queda do índice DXY, pressionado por preocupações fiscais nos EUA, incluindo o aumento da dívida pública, debates sobre teto de gastos e até rebaixamento de rating pela Moody’s. Conflitos geopolíticos, que em outros momentos elevam a cotação global do dólar por ser considerado um ativo de proteção, também são lembrados pelo executivo da Ourominas.
“Neste momento, fatores estruturais pesam mais. As preocupações fiscais com os EUA, o debate sobre a trajetória futura dos juros americanos e a expectativa de cortes nas taxas globais têm mantido o dólar sob pressão”, afirma Gusmão, acrescentando que o “impacto econômico direto do conflito no Oriente Médio ainda não foi considerado relevante o suficiente para provocar uma grande fuga global para o dólar”.
A visão de Shahini é similar. Apesar do conflito entre Irã e Israel, os mercados globais reagiram de forma relativamente contida, com impactos concentrados principalmente na alta do preço do petróleo e em um leve aumento na demanda por ativos de proteção, como o ouro. Ainda assim, o movimento não foi suficiente para desencadear uma onda generalizada de aversão ao risco.
“O agravamento do conflito no Oriente Médio pode aumentar a busca por ativos considerados porto seguro, entre eles, o dólar, e diminuir o apetite a risco dos mercados, tendo, portanto, potencial para reverter o movimento de apreciação da nossa moeda”, aponta o especialista da Nomad, ponderando que, por ora, a percepção predominante é de que se trata de um conflito regional, com baixa probabilidade de escalada envolvendo as principais potências militares.
Gusmão, da Ourominas, não descarta, contudo, que, se houver uma escalada significativa do conflito, trazendo impactos mais profundos para os preços do petróleo ou riscos maiores de contaminação para outras regiões, o movimento de aversão ao risco pode ganhar força e, nestes casos, o padrão histórico de valorização de ativos considerados seguros, como o dólar, tende a se repetir. Nas projeções da casa, dadas as atuais condições macroeconômicas, o dólar deve encerrar 2025 próximo de R$ 5,80.
Shahini, da Nomad, lembra que estimar o comportamento do dólar no curto prazo é sempre um desafio, mas que é possível analisar os fundamentos que vêm influenciando a moeda, citados anteriormente. O índice DXY, inclusive, atingiu na última semana o menor nível desde outubro de 2022. “Caso o cenário se mantenha, é possível que o dólar apresente uma trajetória relativamente estável até o fim do ano. No entanto, os riscos persistem”, diz, citando o cenário fiscal.
Já para a EQI, ainda que a mesa de câmbio não tenha um valor para o final do ano, mantidas as condições atuais e “sem surpresas no front”, Viotto imagina um dólar ainda oscilando ao redor de R$ 5,50 “até segunda ordem”.
