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Alta da Selic lança juro real brasileiro à segunda posição global, atrás apenas da Turquia

Érica Polo

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu parte do mercado financeiro, dividido nos últimos dias sobre as projeções relacionadas à Selic. Elevada em 0,25 ponto percentual, para 15% ao ano, a taxa básica de juros nominal não chegava a esse patamar desde maio de 2006 – e arremessa o Brasil à segunda colocação na lista mundial de juros reais, atrás apenas da Turquia, indica um trabalho do sócio e economista-chefe da Lev Asset Management, Jason Vieira.  

Observados os juros reais, o Brasil marca 9,53%, atrás da Turquia (14,44%) e acima da Rússia (7,63%). Nominalmente, o país mantém a quarta colocação atrás de Turquia, Argentina e Rússia. O comunicado do Copom, divulgado após a reunião desta quarta-feira (18), mostrou, contudo, que o órgão pretende interromper o ciclo de alta e avaliar o efeito do aperto monetário implementado sobre a atividade e a inflação com início em setembro do ano passado.

“Entendemos que os membros do Copom quiseram reforçar a mensagem que não pretendem começar a cortar a taxa de juros nos próximos meses, com o intuito de tentar evitar que o mercado precifique um início prematuro de um ciclo de afrouxamento monetário”, disse Luis Cezario, economista-chefe da Asset 1.

Dado que a projeção do modelo do Banco Central indica uma projeção acima da meta para o IPCA no final do horizonte relevante, continua Cezario, utilizando a trajetória da pesquisa Focus para a Selic, o comitê deixou claro que, nas condições atuais, é improvável que comece a reduzir a taxa de juros neste ano.

A avaliação acrescenta que o comitê aposta numa estratégia de reduzir um risco de interpretação do mercado, ou seja, de que um anúncio de interrupção do ciclo seria um sinal de menor comprometimento em relação ao combate à inflação, acrescentou a Asset1. “Por outro lado, também mostra preocupação com o risco de apertar a política monetária além do necessário”, continua o economista.

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Houve leitura similar por boa parte dos agentes, de que a decisão reforça a credibilidade ao BC. Ademais, espera-se que esse patamar de taxa se mantenha por um período “bastante prolongado”, disse André Muller, economista-chefe da AZ Quest. “Deve contribuir para a queda da inflação e para a continuidade desse movimento de valorização do câmbio”, continuou.

Para Marcelo Bolzan, planejador financeiro CFP e sócio da The Hill Capital, os diretores do Banco Central poderiam ter parado de subir a Selic, “até porque o mercado estava dividido”. “A decisão mostra que eles estão sim comprometidos em fazer essa inflação convergir”. Para Bolzan, é possível que a bolsa sofra um pouco nesta sexta (20). É que todas as vezes que sobe a Selic, há impacto para a renda variável. “Mas como o mercado já vinha dividido, tinha uma probabilidade relativamente grande de isso acontecer, então acho que grande parte já está precificado”, continuou.

No comunicado após a reunião, o Copom informou que o “ambiente externo mantém-se adverso e particularmente incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, principalmente acerca de suas políticas comercial e fiscal e de seus respectivos efeitos”.

Além disso, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos também têm sido afetados, acrescenta o colegiado, com reflexos nas condições financeiras globais. “Tal cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes em ambiente de acirramento da tensão geopolítica.”

Sobre o cenário doméstico, o comitê reforçou que “o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho ainda tem apresentado algum dinamismo, mas observa-se certa moderação no crescimento”. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação.

Segundo o Copom, em se confirmando o cenário esperado, “o comitê antecipa uma interrupção no ciclo de alta da Selic para examinar os impactos acumulados do ajuste já realizado, ainda por serem observados, e então avaliar se o nível corrente da Selic, considerando a sua manutenção por período bastante prolongado, é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta”.