Mercados têm dia volátil em meio a preocupações com economia dos EUA
Os mercados enfrentaram nesta quarta-feira (30) uma agenda carregada, tanto aqui quanto no exterior, às vésperas do feriado desta quinta-feira (01). Dados de emprego no Brasil, o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos do primeiro trimestre e o índice de preços (PCE) norte-americano tomaram a atenção do mercado, especialmente diante da proximidade das reuniões de política monetária aqui e no exterior, fazendo investidores montarem suas apostas sobre o ritmo dos juros. Os indicadores reforçaram, inclusive, o temor sobre uma recessão na economia dos EUA em breve, mas reacenderam as discussões sobre o corte das taxas.
Nesta quarta, o Ibovespa fechou quase estável com -0,01%, aos 135.066 pontos. Já o dólar subiu 0,83% ante o real, negociado a R$ 5,67. Os principais índices norte-americanos, por sua vez, operaram em queda, mas foram atenuando ao longo do pregão e reverteram o movimento. O S&P 500 fechou com alta de 0,15%, a 5.569 pontos, o Dow Jones subiu 0,35%, a 40.669 pontos, e o Nasdaq Composite fechou quase estável com -0,09%, a 17.446 pontos.
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“Dia volátil para o mercado de juros local. O começo da sessão, baixista para as taxas foi impactado pela alta na taxa de desemprego da Pnad-Contínua, sinalizando um Caged mais fraco, e pelo ADP americano abaixo do consenso”, disse Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, apontando que, em seguida, a combinação dos dados de inflação e PIB americano impactou o câmbio, com o dólar indo acima de R$ 5,70, o que pressionou as taxas de juros locais para cima. “De resto, o mercado tem operado sem direcional claro, à espera dos números do Caged."
As bolsas de valores ao redor do mundo operaram operaram boa parte do dia no negativo como reflexo dos dados divulgados, especialmente pela economia americana. Na visão de Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, por mais que os sinais de inflação nos Estados Unidos tenham apresentado uma melhora, a desaceleração da economia assustou os mercados e o mercado teve como reflexo uma queda das ações de commodities, “o que liderou a queda na bolsa de valores no Brasil”, explicou o gestor, ressaltando que Petrobras e Vale seguiram em terreno negativo, enquanto bancos amorteciam essa queda, liderados por Banco do Brasil e Itaú, que zerou perdas.
A maioria dos papéis no mercado internacional operou em terreno negativo forte, especialmente bancos e empresas de tecnologia, ainda como reflexo da guerra comercial e somou-se a isso os dados divulgados sobre a economia. Belitardo enfatizou que economistas esperam uma desaceleração mais forte na economia americana, e isso deve refletir de forma negativa nos papéis. “Os juros aqui no Brasil ainda recuam, mesmo assim estamos observando uma queda nos papéis, especialmente das empresas alavancadas e cíclicas, como um movimento de correção aos fortes ganhos ao longo dos últimos meses”, comenta o gestor, dizendo que a casa segue otimista com o comportamento da bolsa de valores aqui no Brasil devido ao comportamento do dólar e da curva de juros aqui.
Agenda econômica e impactos
Por aqui, o primeiro dado a entrar no radar do mercado foi o de emprego. A taxa de desocupação brasileira no trimestre de janeiro a março de 2025, que atingiu 7,0%, cresceu 0,8 ponto percentual (p.p.) frente ao trimestre anterior (6,2%) e caiu 0,9 p.p. ante o mesmo trimestre móvel de 2024 (7,9%). Apesar da alta na comparação trimestral, esta foi a menor taxa de desocupação para um trimestre encerrado em março em toda a série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012.
“Pnad teve um resultado dentro das expectativas. Copo meio vazio é aumento da taxa de desemprego e uma projeção de piora, na minha opinião, pensando em um cenário de juros altos e desaceleração da atividade. Copo meio cheio é que o ganho real cresce acima da inflação, pela sexta vez consecutiva na margem”, aponta Enrico Cozzolino, sócio e head de análises da Levante Investimentos.
Os dados revelam que o mercado de trabalho continua resiliente mesmo diante de uma atividade dando sinais de desaceleração, mas os números da população ocupada e dos empregados no setor privado mostraram sinais de arrefecimento desde o início do ano.

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“Os salários puxaram o crescimento da renda pessoal em março, enquanto as transferências caíram. Ajuste fiscal? Assim, a renda disponível cresceu menos, mas o consumo pessoal acelerou de alta de 0,5% para 0,7%. A alta se deu em bens (de 0,7% para 0,9%) e serviços (0,5% para 0,6%). Tudo sugere claramente antecipação de compras, apesar de restrição da renda”, disse José Francisco de Lima Gonçalves, economista Mestre e Doutor em Economia pela Unicamp, professor da FEA-USP, em relatório.
Pouco depois, foi a vez de a inflação dos EUA e o PIB da economia norte-americana dividirem as atenções do mercado. Se por um lado a inflação mostrou alguma trégua, por outro, o crescimento econômico menor preocupou o mercado. “A inflação nos EUA veio em linha com o esperado pelos economistas e, adicionalmente, a desaceleração na economia acima do previsto aumentam as probabilidades de cortes nas taxas de juros. Acreditamos que o Fed deve considerar um aumento nas apostas de corte de juros por conta do cenário, ainda com uma melhor relação entre EUA Unidos e China, como temos visto ao longo desses dias. Isso melhora a situação da economia por lá e abre espaço para maiores cortes de juros”, opinou Belitardo, da Hike Capital.
O PIB desta quarta foi uma avaliação da economia no início da presidência de Trump, mostrando o impacto inicial de suas tarifas e mensagens de política comercial antes de impostos mais abrangentes anunciados em 2 de abril.
Segundo informações do Bureau of Economic Analysis (BEA), divulgadas nesta quarta-feira (30), o índice de preços (PCE) caiu para menos de 0,1% em março, praticamente estável. Em 12 meses, no entanto, o indicador foi a 2,3%, seguindo acima da meta de 2% estabelecida pelo Federal Reserve (Fed). Enquanto no Brasil os sinais ainda são mistos, “já o PCE (deflator do consumo pessoal) mostra mais claramente o que aconteceu no mês: zero de alta no índice e no núcleo, com deflação em bens e desaceleração em serviços (serviços de energia incluídos). A forte queda em energia vem da queda do petróleo em função do tarifaço de Trump”, disse Gonçalves.
O economista cita que, nas variações em 12 meses, o aspecto é melhor ainda, com o índice cheio, puxado por energia, abaixo dos 2,5%. “Ocorre que a queda nos preços dos bens será revertida assim que os preços das importações da China mostrarem o efeito das tarifas. Não há muito a comemorar. Ou melhor, mais incerteza sobre o efeito das tarifas sobre custos e atividade.”
Para Cozzolino, da Levante, o PCE teve como surpresa positiva a queda, contudo não representa uma melhora estrutura de inflação por lá e já é possível ver, apesar do cenário de expectativa de corte de juros nos EUA, uma diminuição da velocidade e do nível de juro, uma vez que a surpresa de uma inflação caindo no curto prazo não deveria se repetir””.
Mas a prévia do PIB dos EUA, que mostrou um arrefecimento da economia norte-americana, foi o dado que preocupou e mais mexeu com o mercado. A primeira estimativa do PIB do primeiro trimestre de 2025 do país registrou uma queda de 0,3% na comparação com o trimestre anterior em taxas anualizadas. Os gastos do consumidor recuaram de 4% no último trimestre para 1,8%.
Esta foi a primeira vez desde 2022 que a economia americana contraiu no início do ano, devido a um aumento monumental nas importações pré-tarifárias e aos gastos mais fracos do consumidor. “PIB dos EUA cai e minha expectativa e que o consenso seja frustrado na análise de expansão anualizada cada vez mais. A própria incerteza tarifária, ainda que seja aplicada uma tarifa nula, o impacto já está acontecendo”, aponta o analista da Levante.
O relatório do Departamento de Comércio continha "sinais claros de que a economia já estava desacelerando fundamentalmente" no último trimestre, segundo economistas da Pantheon Macro. "Um período de estagnação provavelmente se avizinha se o conjunto atual de tarifas for mantido, sendo a recessão o resultado mais provável se as tarifas recíprocas adicionais forem impostas integralmente em julho."
Os contratos futuros que se estabilizam na taxa básica de juros do Fed continuaram apontando para o início dos cortes nas taxas do Fed em junho, com um total provável de quatro reduções de um quarto de ponto percentual, elevando a taxa para a faixa de 3,25% a 3,5% até o final do ano.
O colegiado do Fed se reúne na próxima semana e a expectativa é que mantenha as taxas na faixa atual de 4,25% a 4,5%. Os banqueiros centrais afirmam esperar que as tarifas impulsionem os preços e desacelerem o mercado de trabalho, uma combinação complexa, pois o Fed não consegue combater os dois problemas ao mesmo tempo.
*Com informações de Bloomberg e Reuters


