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Com Selic a 14,75%, Brasil já é o terceiro maior juro real do mundo

Érica Polo

Como esperava o mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa de juros em 0,50 p.p. na reunião desta quarta-feira (07). Com isso, a Selic alcança 14,75% ao ano – em patamar que não se via desde 2006. É, ainda, o terceiro maior patamar de juros reais do mundo (8,65%), calcula Jason Vieira, sócio e economista-chefe da Lev Asset Management, somente abaixo de Turquia e Rússia (ver quadro). O cálculo dele traz a taxa de juros atual descontada a inflação e projetada para os próximos doze meses.

Em comunicado, os diretores do Copom afirmam que a decisão sobre a Selic “é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”. O documento afirma, ainda, que o cenário demanda “cautela adicional” para a próxima reunião. “O cenário de elevada incerteza, aliado ao estágio avançado do ciclo de ajuste e seus impactos acumulados ainda por serem observados, demanda cautela adicional na atuação da política monetária”.

O Comitê afirma que segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal impactam a política monetária e os ativos financeiros. O cenário marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, resiliência na atividade econômica e pressões no mercado de trabalho “prescreve uma política monetária em patamar significativamente contracionista por período prolongado para assegurar a convergência da inflação à meta”, diz a nota.


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Diante disso, o Copom afirma que “se manterá vigilante” e a calibragem do aperto monetário apropriado seguirá guiada pelo objetivo de trazer a inflação à meta no horizonte relevante, o que dependerá da evolução da dinâmica da inflação.

O texto detalha, ainda, que o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho ainda tem apresentado dinamismo, mas observa-se uma incipiente moderação no crescimento. “Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes mantiveram-se acima da meta para a inflação”, afirma o comunicado referente à Selic.

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“O comunicado foi neutro, levemente dove, e apostamos em encerramento de ciclo nessa reunião, sem altas adicionais ao longo do ano e Selic terminal em 14,75%”, opina Leonardo Costa, economista do ASA. É a aposta de boa parte do mercado no Brasil, conforme apurou a Capital Aberto junto a alguns gestores no início da semana.

O economista André Perfeito classifica a decisão do Copom como “acertada”. “Contudo vejo um mercado ainda muito desconfiado com a dinâmica inflacionária, logo não há garantia alguma que a Faria Lima não vá ver, já em junho, motivos para mais uma alta da taxa. Desta vez levando para 15%”, opina.

“Mais um ponto que vi como importante é que eles não trouxeram guidance, ou seja, eles não sinalizaram aqui as próximas reuniões. Entendo que é positivo porque o Banco Central vai ganhar flexibilidade”, comenta Marcelo Bolzan, sócio da The Hill Capital.

As expectativas de inflação para 2025 e 2026 apuradas pela pesquisa Focus, do BC, permanecem em valores acima da meta, em 5,5% e 4,5%, nessa ordem. A projeção de inflação do Copom para o ano de 2026, atual horizonte relevante de política monetária, está em 3,6% no cenário de referência, diz a nota, que acrescenta que os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, estão mais elevados do que o usual.

Felipe Uchida, sócio e head do departamento de análises quantitativas da Equus Capital, acrescenta que, para investidores internacionais, o diferencial de juros em relação aos EUA torna o Brasil um destino atrativo para operações de arbitragem de taxa de juros, desde que os riscos fiscais e políticos se mantenham controlados. “No entanto, a alta dos juros também sinaliza um crescimento econômico mais fraco, o que pode restringir investimentos produtivos no país e limitar o desenvolvimento de setores estratégicos", continua Uchida.

Adversidade externa alimenta incertezas

Já o ambiente externo segue adverso e particularmente incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, principalmente acerca de sua política comercial e de seus efeitos, segue o texto do Copom.

“A política comercial alimenta incertezas sobre a economia global, notadamente acerca da m​agnitude da desaceleração econômica e sobre o efeito heterogêneo no cenário inflacionário entre os países, com repercussões relevantes sobre a condução da política monetária”, dizem os diretores do Comitê.

Além disso, o comportamento e a volatilidade de diferentes classes de ativos também têm sido afetados, com fortes reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário segue exigindo cautela por parte de países emergentes em ambiente de maior tensão geopolítica.