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Mudança de regras e oportunidades via guerra comercial podem dar novo gás aos Fiagros

Érica Polo

Um cenário externo carimbado por possível reorganização das cadeias globais, a maior necessidade de crédito no agro e o novo regramento para os Fundos de Investimentos em Cadeias Agroindustriais (Fiagro), em vigor desde o início de março deste ano, ajudam a compor um retrato que pode voltar a atrair o mercado de capitais para esse tipo de fundo. A próxima safra poderá demandar, por baixo, R$ 20 bilhões, calculam agentes do agro – vale lembrar que o cobertor do governo federal está, possivelmente, mais curto para a necessidade do campo.

Os Fiagros ganharam etiqueta de alerta após problemas em 2024. Houve inadimplência de agentes tomadores de crédito, que enfrentaram dificuldades por conta de quebra de safra. O cenário deixou investidores ressabiados com o produto. Mas isso pode mudar neste ano. Em parte, porque as novas regras estabelecidas pela Resolução 214 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para esse tipo de fundo permitem que o instrumento fique menos engessado em relação ao ativo que costuma integrá-lo, contribuindo para o risco.


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O primeiro trimestre de 2025 evidencia alguma recuperação para esses fundos, segundo uma divulgação feita nesta segunda-feira (14) pela Associação Brasileira dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Entre janeiro e março deste ano foram 11 operações de captação (o mesmo número registrado em igual período de 2024). Mas o volume de recursos cresceu de R$ 430 milhões, no primeiro trimestre de 2024, para R$ 1,62 bilhão em igual período de 2025.

Especialistas fazem ressalva sobre a necessidade de as gestoras reforçarem a interação com o campo para ampliarem o conhecimento dos negócios do agro – e seus riscos. Safras recentes sofreram com o clima, mas o país registra um crescente potencial produtivo. Ademais, se a guerra tarifária dos EUA prosseguir, o país poderá garimpar oportunidades. Uma delas está no mercado de proteínas, comenta o ex-Secretário de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Welber Barral, atual sócio da BMJ Consultores. Café, substituto do chá entre os jovens chineses, é outra.

O Valor Bruto de Produção (VBP) da agricultura e da pecuária, ou seja, o faturamento bruto dentro das porteiras, cresceu 9% em 2025 sobre 2024 (safra já financiada), e é orçado em R$ 1,4 trilhão, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Estima-se, por baixo, que a próxima temporada possa demandar ao menos R$ 20 bilhões em financiamento, sendo que o cobertor do governo federal está mais curto. O setor ainda debate a demanda financeira.

Diversificação de ativos e segurança

Até que a regra estruturada pela CVM entrasse em vigor, em 03 de março deste ano, o Fiagro permitia agregar basicamente só um tipo de ativo: os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA). Trata-se de uma ferramenta “interessante”, dizem gestores, contudo um pouco mais cara em relação ao custo-base estrutural da operação. A Resolução 214 abre a possibilidade de os Fiagros incorporarem uma gama maior de ativos.

A partir da nova regra, os Fiagros poderão operar como uma espécie de fundo multimercado do agronegócio, tendo política de investimento que envolva a exposição a diferentes fatores de risco, sem o compromisso de concentração de investimentos em nenhum fator em específico.

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Bruno Gomes, superintendente de securitização e agronegócio (SSE) da CVM, explicou em ocasião recente que a nova norma permite ampliar a capacidade de investimentos desses veículos, sendo possível a aquisição, no mesmo fundo, de todos os ativos listados na Lei 8.668, tais como a operação com CPR física e financeira, exploração de imóveis rurais e aquisição de participações em sociedades da cadeia produtiva do agronegócio. 

A permissão para diversificar a alocação acaba por reforçar segurança jurídica. Segundo gestores já ouvidos pela Capital Aberto, o momento agora é de “tatear” o mercado e ir testando o novo funcionamento, que permite uma mistura de renda fixa e variável, incluindo créditos de carbono, na composição dos Fiagros.

“O atual cenário de financiamento no agro é de baixa liquidez em função da aversão a risco devido às perdas recentes [em safras], mesmo com uma safra vigente recorde em volume”, comenta Guilherme Grahl, responsável pela área de agronegócios da Valora. Mas, o gestor cita a CVM 214 como um fator que “traz mais segurança ao veículo [Fiagro]”.

“Entendo que houve melhoria dos principais bolsos pulverizados/listados na B3 hoje, quais sejam no modelo de FII, na medida em que flexibiliza os ativos disponíveis para aquisição, principalmente relacionados aos créditos, considerando estruturas melhores, e possivelmente mais baratas, adaptadas à realidade operacional do agro”, opina. “Porém, essa flexibilização pode trazer alguns riscos, como por exemplo em ativos CPR-F (as quais, neste caso, anteriormente serviam como lastro de emissão de CRAs) investidos diretamente pelo fundo, trazendo o monitoramento de obrigações (pecuniárias ou não) para dentro da estrutura da gestão”, disse.

Ou seja, além da gestão de crédito, é importante considerar esta especialidade quando da escolha dos veículos pelo investidor, continua Grahl. “Portanto, como tudo em crédito, o crivo das casas que gerenciaram esses riscos é de suma importância em um processo mais flexível operacionalmente.”

Guerra comercial como oportunidade

Ademais, uma guerra comercial que envolva os principais players globais, tanto na produção como no consumo de alimentos no mundo, provavelmente gerará impactos econômicos na cadeia, através do rebalanceamento das dinâmicas comerciais.

Nesse cenário, o Brasil poderá se beneficiar do redesenho e, também, do aumento no preço das commodities agrícolas, com destaque para grãos, o que poderá gerar um incremento tanto da demanda como das margens. “O cenário macro do agro atual já é de melhoria em relação às safras anteriores, com forte necessidade de financiamento no campo e redução dos riscos em função da melhoria das margens dos produtores”, diz o gestor da Valora.

Welber Barral, sócio da BMJ Consultores, rememora que a retaliação chinesa contra medidas americanas durante o primeiro governo de Donald Trump nos EUA ajudaram o Brasil à época.

“O Brasil aumentou muito a exportação de soja, de milho e de carnes. Na época, a China certificou um monte de frigoríficos brasileiros. Pode haver algum aproveitamento para o agro brasileiro, mas há ressalvas”, disse Barral. A primeira delas é que o Brasil já ganhou espaço significativo no mercado chinês. Em partes de frangos, por exemplo, o Brasil envia 90% da importação da China; em soja, 70%.

Outros países, fora o da China, podem trazer oportunidades agora, a exemplo de proteína bovina no Japão. Barral rememora que o Japão, por exemplo, é um mercado que os frigoríficos brasileiros buscam abrir, e sempre esteve sobre forte influência americana – que é o grande fornecedor. Se o Japão for, de fato, taxado em 24%, é possível que o Brasil ganhe espaço no jogo de forças.

Há oportunidade para crescer em outros mercados, com a oferta de outros produtos, a exemplo de algodão e café (este, cada vez mais consumido pelas gerações jovens chinesas). Contudo, destaca o ex-Secretário do MDIC, há de se considerar, ainda, que há um limite para a oferta brasileira. A produção não se eleva da noite para o dia, e o país tem o seu próprio mercado interno para abastecer.