Captação de fundos começa ano mal, mas volatilidade global pode contribuir com fluxo
A indústria de fundos teve um começo de ano marcante, com um retrato negativo de captação. Mudança em ‘come cotas’ realizada no início do ano passado e a forte atratividade dos ativos isentos, como as debêntures incentivadas, explicam, em parte, o retrato deste primeiro trimestre de 2025. Questão comum agora é o que poderá ocorrer com o fluxo nos próximos meses. Em abril, segundo um gestor, a captação deu sinais de melhoria.
A volatilidade do cenário econômico global tem favorecido o Brasil, dizem analistas, e pode trazer aos fundos uma parte do quinhão. É que investidores mundo afora têm buscado alternativas aos EUA, sobretudo a partir de abril (quando teve início a guerra comercial), também em meio aos ativos de países emergentes. A Capital Aberto buscou bancos e gestores, mas muitos declinaram entrevistas sobre projeção para essa indústria.
Nos primeiros três meses do ano, retrato mais atual fornecido pela Anbima, os fundos perderam, ao todo (considerando renda fixa, ações, multimercados e outros), R$ 39,8 bilhões. O retrato difere muito do visto no mesmo período de 2024, quando houve captação foi positiva de R$ 119,2 bilhões. Neste começo de 2025, nem os fundos de categoria renda fixa – em cenário de juros altos – avançaram na comparação entre iguais períodos (ver quadro).

A captação em renda fixa foi positiva em R$ 43,2 bilhões, mas o volume é três vezes menor do que o observado no primeiro trimestre do ano passado, quando o ingresso líquido somou R$ 134,4 bilhões.
Parte da explicação para o retrato dessa indústria é o reflexo do ‘come cotas’, que passou a incidir no começo do ano passado sobre fundos exclusivos – resultando em uma migração de classe, para fundos isentos. Em paralelo, surgiu forte concorrência entre alocar em fundos isentos ou diretamente em ativos, como é o caso das debêntures, sobretudo as incentivadas. Os ativos têm ganho a queda de braço. O período do recorte de dados precisa ser considerado também. Em abril, a captação da indústria já cresceu, disse Marcelo Mattos, CIO da Inter Asset.
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À época da divulgação dos números, em 10 de abril, o diretor da Anbima Pedro Rudge admitiu ser difícil “responder com sinceridade” se o ano poderia ser marcado por resgates líquidos. Mas o executivo afirmou ver espaço para captação líquida positiva dos fundos no ano. Rudge reitera que a concorrência dos fundos com alguns outros produtos isentos torna a competitividade do produto fundo mais difícil. Pedro Rudge avaliou que o desempenho do primeiro trimestre pode ser algo temporário, embora a fotografia dos próximos meses seja difícil de ver.

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Em meio aos ativos que têm atraído apostas diretas, destacam-se as debêntures, tanto no primário como no secundário. Mais um dado da Anbima, referente agora às ofertas no mercado de capitais também no trimestre, mostrou que somente as debêntures, corporativas e incentivadas, somaram R$ 103 bilhões entre janeiro e março deste ano, distribuídas em 126 operações.
É alta de 43% em comparação ao registrado no mesmo trimestre de 2024, quando houve 103 operações de debêntures que captaram R$ 72 bilhões. Do total emitido neste ano, 45% corresponderam às incentivadas (destinadas em sua maioria à infraestrutura), as quais puxam operações indexadas ao IPCA.
O mercado secundário de debêntures teve alta média de 34,2% no primeiro trimestre deste ano, somando R$ 196 bilhões em negociações de títulos incentivados ou não. A variação comparativa considera igual período de 2024. A maior alta, de quase 40%, ocorreu na negociação de incentivadas, que alcançaram R$ 77,6 bilhões. Já os negócios com debêntures ‘corporativas’ somaram R$ 119 bilhões, com alta de 31%.
Embora seja mais desafiador analisar os volumes do secundário no mês a mês, a expectativa é que o segmento se mantenha mais relevante do que foi em 2024. Sami Karlik, gestor de crédito privado da Tivio Capital disse em entrevista recente à Capital Aberto que espera menos emissões no primário e via, ao final de março, melhoria no fluxo dos fundos.
Classes de fundos
O melhor desempenho ainda é o de fundos de renda fixa, apesar da forte queda observada entre os iguais períodos de 2024 e 2025. Entre janeiro e março deste ano, a captação líquida da classe foi de R$ 43,2 bilhões, ante os R$ 134,4 bilhões em igual período de 2024. Os piores retratos são de fundos de ações e os multimercados.
São dois universos que não entregaram uma performance satisfatória em anos recentes, avalia Mattos, da Inter Asset. “Atrelado a esse fator há o cenário de juros em momento de fuga de risco”, disse. Nos últimos quatro anos, as duas indústrias tiveram, no máximo, seis meses de boa performance.
Em ações, a maior parte dos fundos perdem para o Ibovespa desde julho de 2021. “Lógico, tem um fundo ou outro com melhor desempenho. Mas como a indústria está performando mal, o cliente vai cansando”, reflete o gestor.
Os fundos multimercados perderam R$ 43,8 bilhões até março deste ano. No mesmo período de 2024, a captação deles foi negativa em R$ 27,2 bilhões, segundo a Anbima. Em ações, os fundos saíram de captação positiva de R$ 600 milhões entre janeiro e março de 2024 para saída de R$ 27,3 bilhões no primeiro trimestre deste ano.
Entre as baixas em captação estão os fundos de previdência: perderam em termos líquidos R$ 2,9 bilhões até março deste ano. Nos três primeiros meses do ano passado houve captação de R$ 11,5 bilhões.
Para Mattos, não há evidência que ligue o retrato de saída dos fundos a um processo de deterioração na economia. “Eu não consigo dar uma resposta conclusiva. Mas o desemprego está em nível baixo, o nível de renda das pessoas está historicamente alto, o consumo é ainda forte. Não há evidências que reflitam isso [uma deterioração econômica]”.
Existe um ambiente de “medo” sobre o que poderá acontecer com a economia, com o efeito dos juros altos. “Mas o mercado reflete expectativas que nem sempre se concretizam”, finalizou.


