Dólar cai após “Dia da Libertação” e mercado questiona estabilidade do movimento

Após o tão aguardado “Dia da Liberdade”, realizado nesta quarta-feira (02), em que Donald Trump cumpriu a promessa e anunciou tarifas para diversos países, esta quinta (03) foi marcada por forte repercussão nos mercados. Enquanto para a China o percentual ficou em 34%, para o Brasil a sobretaxa foi a mínima, de 10%, o que fez os investidores reagirem bem em relação aos ativos locais. No dia, o dólar arrefeceu e a bolsa fechou quase estável, no entanto, especialistas estão em dúvida sobre a constância do movimento.
O dólar fechou com queda de 1,23%, negociado a R$ 5,62. Já o Ibovespa encerrou praticamente estável, com queda de 0,06% aos 131.101 pontos. O gatilho do movimento foi o aumento das tensões comerciais entre os EUA e seus principais parceiros, após o anúncio das novas tarifas que reacenderam dúvidas sobre o fôlego da economia americana. “Investidores reduziram exposição à moeda norte-americana, levando o índice DXY a recuar de forma consistente e abrindo espaço para a valorização de outras divisas e o índice de volatilidade VIX, conhecido como o termômetro do medo de Wall Street, disparou mais de 30%, evidenciando o aumento da aversão ao risco”, disse Diego Costa, head de câmbio para o Norte e Nordeste da B&T.
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“Por aqui, o real se valorizou em relação ao dólar, justamente pelo sentimento de que a tarifa norte-americana cobrada em relação ao Brasil (de 10% em seus produtos) foi benéfica, haja vista o que será cobrado de outros parceiros comerciais norte-americanos”, pontua Elson Gusmão, Diretor de Operações da Ourominas. “Nosso diferencial de juros e uma possível redução em relação aos juros nos EUA também têm favorecido o real.”

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Já a bolsa brasileira se manteve estável. “Apesar da queda nas ações de empresas exportadoras de commodities, como Vale e Petrobras, o movimento foi compensado pela alta nas empresas cíclicas e alavancadas, que se beneficiam de um cenário recessivo da economia americana, como reflexo de uma desaceleração do consumo e da queda do preço de commodities como petróleo e minério”, esclarece Ângelo Belitardo, gestor da Hike capital, pontuando também a queda do dólar, que reduz o temor inflacionário no Brasil, favorecendo empresas importadoras.
Movimento será duradouro?
O real, assim como várias moedas emergentes, pegou carona e registrou ganhos frente ao dólar. Costa, da B&T, pontua, no entanto, que o mercado segue atento às falas de Powell, do Federal Reserve, e aos dados do Payroll amanhã, que podem redefinir expectativas para os juros nos EUA e, consequentemente, ditar os próximos passos do câmbio.
“Agora é tudo muito incerto, mas na dúvida, a gente vê os ativos caindo mundo afora. Vimos as bolsas americanas demonstrarem fortes quedas, principalmente o setor de tecnologia. Creio que isso acontece porque com todas essas medidas, o raciocínio é que o mundo vai parar de crescer ou vai crescer menos, ou vai haver uma desaceleração de crescimento”, comenta Alison Correia, analista de investimentos e co-fundador da Dom Investimentos, pontuando que Vale e Petro acompanharam essas quedas das cotações internacionais, pesando no Ibovespa, e citando a própria queda do dólar, com os investidores temendo os desdobramentos das tarifas para a economia dos EUA.
Tal cenário reacende as discussões acerca dos rumos da inflação e juros norte-americanos. Segundo o head de câmbio da B&T, caso o tom amanhã seja mais conciliador, o mercado pode reforçar apostas em uma política monetária mais flexível, pressionando a moeda americana. Por outro lado, qualquer sinalização de maior cautela ou dependência de dados mais robustos pode limitar esse movimento.
Para Gusmão, da Ourominas, este é um movimento pontual, visto que já foi aprovada pelo congresso nacional uma lei que possa "retaliar" aos EUA. “Aí poderemos verificar qual seria a reação norte-americana a uma possível ofensiva brasileira”, diz. A visão é partilhada por Belitardo, da Hike, que pontua ainda que choques inflacionários causados por tarifas geralmente não se sustentam, mas "o risco de retaliações comerciais por parte dos países afetados pode, sim, prolongar a pressão sobre a moeda americana".
Já Costa, da B&T, diz que se a fraqueza do dólar veio para ficar ou se trata apenas de um ajuste temporário, dependerá da evolução do quadro. “Caso as preocupações com o impacto das tarifas persistam e os indicadores econômicos reforcem sinais de desaquecimento, a pressão sobre a moeda americana pode continuar”, diz Castro, ponderando que basta um ajuste de tom do Fed ou uma trégua nas disputas comerciais para que essa narrativa mude rapidamente, “algo que o mercado já aprendeu a precificar”.
