Sustentabilidade da dívida brasileira preocupa, dizem gestores em evento do Safra
Dívida brasileira e a condução da política monetária, bem como a alocação em cenários interno e externo, integraram um debate entre gestores durante painel de evento promovido pelo Safra nesta segunda-feira (28). Um pensamento comum ali apresentado é o de que o efeito do atual patamar de juros básicos no Brasil, como resultado da atuação do Banco Central (BC), ainda dá sinais muito fracos na economia real – para alguns, inclusive, não é visto. Mais cedo, no mesmo evento, o presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, já havia dito que o impacto ainda é “incipiente”.
“Eu acho a curva a termo juro real e juro nominal muito alta. Não é razoável o patamar que vemos. O BC sinaliza fazer menos do que fez antes [em relação à alta dos juros] e não vejo a economia desacelerar”, disse Carlos Woez, sócio-diretor e gestor da Kapitalo Investimentos. “Todo sujeito de renda fixa, e eu sou um deles, sonha com o ciclo onde o cara põe o juro na lua e você pega a volta, que é onde está o prêmio. E para isso a grande graça é ver a política monetária funcionando”.
“E, funcionando, quer dizer efeito na oferta, demanda e vermos desacelerando o crédito de maneira forte. Eu perguntei hoje num almoço o que está acontecendo com o crédito na ponta, e ouvi que está tudo normal”, continuou. “A gente não está vendo nenhuma ruptura”, disse Woez.
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Bruno Carvalho, CIO J. Safra Asset, disse que a asset enxerga sinais “bastante incipientes” de desaceleração da atividade – “desaceleração que dificilmente trará a inflação para a meta”, opinou. Em sua leitura, o juro real ainda “fará efeito”, contudo, as políticas fiscais e parafiscais, sobretudo relacionadas a crédito, vão suavizar este recuo da atividade econômica.

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Carvalho comentou ainda que a meta de superávit para 2025 é menos desafiadora do que a do ano passado. “A gente acredita que o governo não terá tanta dificuldade para encaixar despesas em cima do que a gente predeterminou como superávit. No entanto, a sustentabilidade da dívida vai passar pela questão eleitoral. Fica difícil falar disso sem saber qual será a condução de governo em 2027”, opina. O CIO da asset do Safra tende a achar que a questão fiscal no Brasil será tema secundário nos próximos meses. “Vamos falar muito do internacional, muito de eleição e acho que a questão da dívida, do fiscal, vai ficar em segundo plano”.
Para Rodrigo Azevedo, CEO e CIO dos fundos macro da Ibiúna Investimentos, nada mudou do ponto de vista de dívida. “A LDO [Lei de Diretrizes Orçamentárias] nos diz que tem um buraco para 2027. Não é o Rodrigo, nem a Ibiúna. A LDO diz isso”, disse. “É uma questão que me preocupa muito”.
Azevedo ainda apontou outra preocupação quando fez análise sobre o fortalecimento do real. Há uma conjuntura “muito favorável” para o câmbio, mas que elenca fatores conjunturais, e não estruturais. “Se voltarmos para um mundo antes de 2 de abril [quando os EUA impuseram tarifas a mais de 50 países], muda tudo de novo. Talvez o dólar volte a se fortalecer. A conjuntura para o real é favorável, mas sem indicação de melhora estrutural do país. Pelo contrário: está maquiando a piora estrutural”, opinou.
Alocação pelo mundo
Os gestores abordaram também o cenário externo, reforçando a leitura de que investidores buscam outras geografias além dos EUA neste momento. Ademais, cenário volátil e incerto amplia incertezas em relação à alocação em bolsas.
Carvalho, da asset do Safra, disse que o cenário para a bolsa americana fica desafiador. “O dinheiro deve sair dos EUA e ir para outras zonas, o europeu deve puxar o dinheiro de volta ou diversificar em outros lugares. E, diante disso, até alocação em equity e bonds vamos ver mudando”, disse o gestor.
Segundo ele, em um cenário de menor crescimento e mais protecionismo nos EUA, o volume direcionado primordialmente para equity vai migrar para bonds. “Num primeiro momento, dado o fiscal, eu tenho preferido alocar em bonds mais curtos, acho que é ali que tem um pouco mais de valor”.
Para Woez, da Kapitalo, os impactos da política conduzida por Donald Trump, presidente dos EUA, para a economia americana serão mais abruptos do que o mercado crê. “A economia americana vai sofrer efeitos inflacionários e de atividade mais rápido do que as pessoas estão estimando”. Contudo, ele avalia que há uma “chance razoável de reversão num prazo médio”. “Me parece difícil a sociedade americana não reagir”, finalizou.


