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Com desvalorização de 10% em cesta de moedas, dólar perde hegemonia entre ativos seguros

Érica Polo

Os recuos mais recentes do presidente americano Donald Trump – sobre a intenção de demitir o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, e referente ao patamar de tarifas para a China, nesta semana – desenharam um cenário um pouco mais propício para o apetite a risco, disseram agências internacionais. Na esteira, a moeda americana ganhou um pouco de fôlego, sobretudo na quarta-feira (23), considerado o índice DXY, do Fed. O dólar já acumula forte desvalorização desde a posse do republicano, em 20 de janeiro, perto de 10%, se considerado o mesmo indicador. O pano de fundo para isso é conhecido: o contexto de incertezas gerado pela política errática do atual governo dos EUA. Tarefa árdua é projetar o câmbio, já difícil em condições ‘normais’ de temperatura e pressão no mundo. Mas é possível indicar agora, ao menos, uma expectativa de tendência.

Para alguns analistas, 2025 será de um dólar mais fraco em comparação a anos recentes, ao menos enquanto a reconfiguração comercial do mundo for opaca. Outra constatação é a de que o dólar, embora um ativo forte, perdeu a hegemonia (ou preferência) de ativo porto seguro. Ontem, diante do real, fechou com queda de 0,47% a R$ 5,69. Frente ao DXY manteve baixa ao longo desta quinta-feira (24).


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Douglas Ferreira, diretor da mesa de câmbio da Planner Investimentos, avalia que enquanto continuarem as incertezas geradas pela guerra comercial, a tendência é de desvalorização do dólar perante as principais moedas. “Mas o dólar não deixará de ser uma moeda forte e utilizada em transações financeiras, mesmo com desvalorização”, acrescenta. Ele rememora ainda que a perda de valor da moeda já era esperada pelo atual governo americano.

“Não acredito em fortalecimento [do dólar] no curto prazo. O mercado está assustado e levará um tempo para que a moeda recupere a confiança. O que poderia fortalecer o dólar é um aumento da taxa de juros”, opina Julio Ortiz, CEO e co-fundador da CX3 Investimentos, um family office. Contudo ainda é cedo para esperar mudanças na política monetária americana, apesar da revisão para cima da inflação no país feita por analistas, segue Ortiz.

Somente ao longo de abril, entre os dias 02 (quando os EUA divulgaram as tarifas a mais de 50 países) e 22, o dólar acumulou desvalorização de quase 5% em relação às seis moedas que compõem o índice DXY – ou seja, iene, euro, libra esterlina, coroa sueca, franco suíço e dólar canadense. As tarifas que geraram uma guerra comercial, com as taxas por ora adiadas por Trump, potencializaram a perda de valor da moeda no mês, afirmam analistas.

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Observando um período mais longo, desde a posse de Trump em 20 de janeiro e o mesmo 22 de abril, quando feito o levantamento pela Elos Ayta para a Capital Aberto, a moeda americana acumula desvalorização de 9,54% frente a essa mesma cesta de moedas (ver quadro).

“O dólar ainda é um porto seguro, mas deixou de ser o principal”, resumiu Diego Costa, head de câmbio para o Norte e Nordeste da B&T XP. O atual retrato de incertezas da condução política americana evidencia outros ativos como preferência, a exemplo do euro, iene e ouro. Além do cenário interno americano, ajudam a pressionar o dólar decisões tomadas por outros governos.

Entre eles, o japonês e os europeus. A Alemanha, por exemplo, anunciou recentemente a injeção de bilhões de euros em infraestrutura e segurança, atraindo interesse. “A valorização do iene também carrega consigo o contexto do Banco Central do Japão, que voltou a repensar sua política de apertar um pouquinho mais a base monetária, com juros um pouco mais altos, o que termina impactando também nas operações de carry trade”, disse Costa.

Também sobra fatia para as moedas dos emergentes. Mesmo que não haja novidades no cenário brasileiro, o real é um desses exemplos – e há espaço para maior valorização nos próximos meses, opinam os analistas. Desde janeiro, a desvalorização da moeda americana diante do real acumula 4,96%.

As moedas dos emergentes podem ainda se beneficiar da tendência de direcionamento do capital devido às instabilidades nos EUA. “O Brasil pode ser beneficiado por conta de sua taxa de juros elevada, o que atrai capital estrangeiro e contribui para uma tendência de queda no preço da moeda americana em comparação com o real”, diz Ferreira, da Planner.

Guerra comercial: cereja do bolo

A guerra comercial deflagrada por Trump no início de abril agregou elementos de incertezas, o que assustou mercados e piorou o cenário para a moeda americana frente às outras da cesta que compõem o DXY. O cenário ainda é muito incerto e as reações dos países taxados, como a China, influenciam os indicadores.

“Só que a perda de valor da moeda americana já era esperada pelo governo Trump, que desde a sua campanha enfatiza a necessidade de corrigir as disfunções da balança comercial americana”, continua Ferreira, da Planner.

Em anos recentes, os juros americanos atingiram números há muito tempo não vistos, atraindo investidores e fortalecendo a moeda americana. Ao mesmo tempo, as ações, principalmente de tecnologia, se valorizaram muito, chamando investidores de outros países.

“Foi um ciclo muito positivo para ativos americanos e parece que este ciclo terminou. Investidores estão procurando outras alternativas, em outros mercados, vendendo dólar e comprando outras moedas. A valorização da Bolsa brasileira em 2025, e a volta dos investidores estrangeiros, é um sinal da procura por diferentes alternativas”, acrescenta Ortiz, da CX3.