Campos Neto diz que impacto das tarifas nos ativos depende da intenção dos EUA

O Brasil precisaria de reajustes das contas públicas para haver margem para cortar a taxa básica de juros, segundo o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto. O cenário externo, por si só, não seria o bastante para justificar uma postura menos rígida da entidade. O executivo ainda acredita que os impactos das tarifas de Trump para as economias dos países e no mercado de capitais dependem da intenção do Republicano com as políticas tarifárias.
“O Brasil tem uma dívida muito alta para padrões de mundo emergente. Tem um crescimento e dívida esperado muito alto. E como os juros são altos, o que acontece é que eu tenho um déficit nominal muito alto. Então, precisaria ter um primário muito positivo para produzir uma trajetória de dívida mais razoável”, disse Roberto Campos Neto durante o Advance 2025, evento promovido pela Fami Capital na sexta-feira (11).
O déficit nominal, que representa tudo que o governo gasta, incluindo os juros da dívida, está quase acima de 9%, e na média dos últimos anos foi 8,5%. “Isso é muito alto. Se eu falo que tenho um déficit nominal de 9%, se eu falo que o meu juro não vai poder ser muito baixo durante muito tempo, se colocamos essas duas coisas no mesmo cenário, basicamente, se a gente produz um primário, ou seja, uma economia sem contar os juros, que é muito baixo, a nossa dívida vai subindo. É um pouco disso que está acontecendo hoje no mercado”, comentou, complementando ainda que nessa perspectiva de ter uma ajuda do cenário externo, para haver uma queda estrutural de taxa, é preciso ter uma percepção de ajuste de contas.

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Campos Neto não citou prazos para essa queda de juros e opinou ainda que “o Banco Central está fazendo um trabalho correto, no curto prazo, com as variáveis que tem, com os instrumentos que tem na mão, que eu diria que é o que se precisa fazer”, disse.
Já sobre as tarifas de Trump, o economista procurou entender os motivos por trás das políticas e afirmou que, na literatura, dos 3R’s, dois deles revenue (arrecadar impostos) e restrict (proteger a indústria local) não surtiram os efeitos esperados, enquanto a estratégia mais estudada, a reciprocity (reciprocidade de tarifas), foi a única que funcionou.
“Se a gente descer a tarifa, o benefício é igual para os dois, eu cobro o mesmo que você. Por outro lado, se eu subo, é igualmente prejudicial. Essa era a esperança de quem estava entendendo esse debate”, disse Campos Neto, citando que existe ainda uma guerra entre os Estados Unidos e a China que vai muito além das tarifas e que, o país norte-americano tenta provocar um isolamento do rival. “Se isso vai funcionar ou não, ainda teremos cenas dos próximos capítulos”.
Já no caso do Brasil, o país possui uma postura construtiva, positiva e tem negociado com os EUA. Para precisar os impactos, Campos Neto reafirmou ainda que é necessário entender qual o objetivo final das tarifas. “Se a gente entender que é isso, voltar à reciprocidade, o Brasil tem feito um trabalho bom e acho que não é foco do problema que os Estados Unidos enxergam onde há um tratamento assimétrico”.
