Bitcoin vence volatilidade dos mercados e deve ter ano positivo, dizem especialistas
Em meio à crescente volatilidade nos mercados globais, impulsionada pelas políticas tarifárias e recentes declarações de Donald Trump, o bitcoin (BTC) tem demonstrado resiliência e iniciou uma trajetória de alta, inclusive chegando ao patamar de US$ 95 mil recentemente. Especialistas do setor projetam um ano promissor para a criptomoeda, que se firma como ativo de refúgio em tempos de incerteza e ganha cada vez mais espaço como reserva de valor.
O bitcoin voltou a ser centro das atenções nos mercados globais ao superar a marca de US$ 95 mil — seu maior valor desde fevereiro. Embora tenha recuado levemente no início desta terça-feira (29), a criptomoeda mantém uma trajetória de força diante de um cenário global de incertezas e voltou a subir acima deste marco ao longo do dia.
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“O Bitcoin volta a se destacar em um momento em que o investidor global está procurando segurança fora do sistema financeiro tradicional. A crítica de Trump ao presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, acendeu um alerta, e o BTC, por sua natureza descentralizada, tem se beneficiado desse cenário”, explica Rony Szuster, head da área de Research do MB, em nota.
A última semana, inclusive, foi muito positiva para o mercado, impulsionada pela temporada de resultados nos EUA e pela crescente expectativa de que as tarifas propostas por Trump possam não ser implementadas integralmente, ou até mesmo suspensas temporariamente. Essa percepção ganhou força após declarações recentes indicando uma postura mais flexível do governo norte-americano quanto à guerra tarifária, além de um posicionamento importante do presidente Trump reafirmando que não tem planos de demitir Powell. Já nesta semana, o movimento teve continuidade, mas o mercado passou a se perguntar sobre a sua duração.
“O Bitcoin continuou a destacar sua posição como ativo descorrelacionado do mercado tradicional, registrando alta acima de 9% na última semana, reforçando um movimento positivo iniciado já na semana anterior, período em que os índices tradicionais ainda enfrentavam quedas. Ainda assim, é essencial notar que, apesar da reação positiva dos mercados, o ambiente econômico segue desafiador”, comenta Murilo Cortina, diretor de novos negócios da QR asset.
O executivo enfatiza que, apesar do cenário macroeconômico complexo, citando a preocupação do mercado com a combinação de menor crescimento econômico e potencial inflação elevada, o mercado de criptomoedas segue demonstrando força e atratividade como instrumento de diversificação e proteção contra riscos específicos do mercado tradicional.
Desta vez, lembra Cortina, não apenas o bitcoin mostrou força como as altcoins tiveram um desempenho ainda mais expressivo, indicando um ambiente de maior apetite a risco dentro do setor. Protocolos ligados à inteligência artificial, como Virtuals, se destacaram com alta de mais de 119% nos últimos sete dias, enquanto memecoins como GOAT e POPCAT valorizaram cerca de 61% no mesmo período. Até mesmo o Ethereum, que historicamente apresenta uma correlação alta com o Bitcoin, conseguiu superar o desempenho da principal criptomoeda, subindo mais de 14%, enquanto Solana avançou 10%.
“Esse movimento pode sugerir uma ‘altseason relâmpago’, onde ativos alternativos ao Bitcoin passam a ter performances superiores. Pelo atual estado do mercado, essa tendência pode ser volátil e de curta duração, mas o fato é que esta já é a quarta semana consecutiva em que o mercado cripto demonstra força, mesmo em momentos de maior fragilidade das bolsas tradicionais”, disse o executivo da QR Asset, que não citou previsões ou valores sobre as cotações ao longo do ano, ou ao final dele.
Um dos principais fatores positivos que contribuiu e deve seguir impulsionando o sentimento positivo no mercado de criptoativos é a sinalização do governo norte-americano em favor de uma maior institucionalização do setor.

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“Nunca estive tão otimista como estou agora, por algumas razões. Toda a parte regulatória nos Estados Unidos está caminhando muito bem. Até agosto devemos ter muitas novidades. Paul Atkins, da SEC, acabou de entrar e, no primeiro dia, o discurso foi que os criptoativos são sua prioridade, de uma forma saudável, não como foi feito no passado, ‘by enforcement’”, citou Axel Blikstad, CEO da B2V Crypto, citando Scott Bessent, secretário do Tesouro, também favorável ao movimento cripto. “Essa parte regulatória evoluiu muito.”
Isso, para o CEO, deve “dar um gás” para instituições, países e estados comprarem mais bitcoin. O Arizona, por exemplo, aprovou nas duas casas (câmara e senado) a estratégia de Bitcoin Reserve nesta segunda-feira (28), o primeiro estado a realizar o feito, faltando apenas a assinatura da governadora. “Eles têm US$ 31 bilhões e investiriam até 10% em Bitcoin, então é outro cheque grande”, aponta o executivo.
Na visão do head da área de research do MB, Szuster, o fato de um governo como o dos EUA considerar o Bitcoin como parte de uma estratégia de reserva de valor mostra como o jogo mudou. “Trata-se de uma peça legítima no tabuleiro macroeconômico”, opina.
Perspectivas otimistas
Embora as políticas e declarações de Trump, e especialmente o embate com a China, provoquem uma alta volatilidade que se assemelha à vista durante a pandemia de Covid-19, em 2020, a volatilidade em ativos como bitcoin não necessariamente é ruim.
O S&P, que tem uma volatilidade baixa ao redor de 15%, por exemplo, atingiu a mesma volatilidade que o BTC nesse mês, de mais ou menos 50%, algo impressionante, visto que os investidores que carregam cripto no portfólio têm a porção de 1% a 5%, mas nos EUA o portfólio clássico é composto 60% por ações e 40% renda fixa, lembra Blikstad, da B2V. “Aquele que tinha 60% de ações e, de repente, tem essa volatilidade absurda, se machuca muito, porque a porção dele é muito maior do que tem em equilíbrio de ativo. Então a volatilidade é uma qualidade do ativo e não uma coisa ruim.”
A volatilidade do S&P igualar à volatilidade do Bitcoin essa semana é algo inusitado, segundo o executivo, assim como a de várias ações de tecnologia, a exemplo das “Magnificent 7”, que até ultrapassaram a volatilidade do próprio BTC. “Com cripto, cujos investidores têm uma posição pequena, essa volatilidade não nos afeta muito. Em termos de previsão, mantenho a do começo do ano, de US$ 175 mil para BTC, sem uma estratégia de reserva estratégica de Bitcoin nos Estados Unidos, e US$ 225 mil se houver uma estratégia”, aponta o CEO.
Na crise das tarifas, o único ativo que performou de verdade foi o ouro, que segue como reserva de valor, e chegou a bater US$ 3.500 semana passada, “mas as pessoas estão vendo o bitcoin como uma alternativa de ouro, como outra reserva de valor”, diz Blikstad, lembrando que, historicamente, o ouro sempre sai na frente nesses ralis e depois o BTC faz um catch up e obtém valorização bem maior à do ouro porque é um ativo muito menor, representando menos de 10% do market cap de ouro, outro fator que sustenta o otimismo.
A visão positiva é compartilhada pelo MB. A casa lembra, inclusive, que dados recentes apontam que grandes investidores institucionais, conhecidos como "baleias", retomaram a acumulação de BTC, fortalecendo a percepção de que o ativo pode seguir em alta nos próximos meses. Nos últimos 45 dias, o Bitcoin demonstrou resiliência, registrando uma valorização de aproximadamente 15,7%, mesmo diante de um cenário de forte volatilidade nos mercados financeiros. Nos últimos 10 anos, o BTC valorizou mais de 14.741,2% contra 160% do S&P 500 e 55% do ouro, segundo dados compilados pelo site The Blockchain Digital.
“A expectativa é que supere os U$ 120 mil até o fim de 2025, impulsionado pelo aumento do interesse institucional e pela maturação do mercado. Com a consolidação de ETFs, a entrada de novos players regulados e a adoção crescente por governos e empresas, acreditamos que o BTC tem espaço para alcançar novos patamares ainda neste ciclo”, diz Szuster, do MB.
Além da movimentação dos estados, há outros exemplos, como a formação da Capital 21, fundada com um pouco mais de US$ 3 bilhões pela SoftBank, em parceria com o cantor Fitzgerald e a Tether, empresa que vai comprar bitcoins e realizar a mesma estratégia da Strategy, de Michael Saylor, de comprar bitcoin e depois alavancar a empresa para comprar mais, emitindo diversos instrumentos financeiros de dívida.
“No Brasil até tem outra fazendo o mesmo, a Méliuz, que já comprou um pouquinho de BTC há uns meses e, no dia 5 ou 6 de maio, vai levar para o conselho para mudar o estatuto da empresa para poder comprar uma porção grande do caixa dela em bitcoin”, aponta Blikstad citando outra empresa a ser lançada no Brasil esta semana, que está tentando levantar US$ 200 milhões só para comprar bitcoin. “É uma dinâmica muito forte de novos compradores, compradores já antigos continuando comprando, compradores novos como estados, empresas, todos entrando nesse ecossistema.”


