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B3 recalibra expectativas e vive ambiente “contido” depois de turbulência recente

Érica Polo

Depois da turbulência vivida no ambiente da B3 com o início da guerra tarifária global, em 2 de abril, ao que parece, o mercado de renda variável acomodou-se um pouco. Nesta semana, o comportamento foi “mais contido” (nas palavras de um analista), com agentes buscando assimilar os impactos do contexto externo para as companhias brasileiras. As quedas acentuadas vistas no petróleo e no minério de ferro, além do aumento do estresse na curva de juros, deram lugar a correções pontuais. A bolsa encerrou o pregão desta quinta com ganho de 1,04%, aos 129.650 pontos – na semana, avançou 1,54%.  

“Exemplo claro do ajuste que ocorreu nesta semana está no segmento de óleo e gás: a Brava Energia chegou a recuar com maior intensidade, em função de um beta mais elevado em relação ao brent, enquanto a Petrobras, com sensibilidade menor ao barril, caiu de forma mais moderada”, comentou Felipe Paletta, estrategista da EQI Research. O preço do brent (referência de cotação para Europa e Ásia) voltou ao patamar superior a US$ 65/barril, influenciando para o desempenho semanal. Na semana anterior, vale lembrar, o petróleo chegou a romper piso que não era visto desde 2021, de US$ 60/barril.


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Enrico Cozzolino, sócio e head de análises da Levante Investimentos, reitera que, apesar do fechamento positivo na semana, a B3 em patamar próximo a 125 mil pontos é muito mais comum do que acima dos 130 mil pontos – o que vinha ocorrendo mais recentemente, entre o final de março e início de abril. “Então a gente pode arriscar dizer que não houve impacto direcional e definitivo dos anúncios da guerra comercial no Ibovespa. Teve incerteza e volatilidade”, avaliou Cozzolino.

A B3 teve dia volátil nesta quinta também devido ao vencimento de opções sobre ações, às vésperas dos feriados da Páscoa e de Tiradentes.

Nos EUA, a guerra comercial tem um efeito imediato nas bolsas. No Brasil, o canal de transmissão é mais indireto e ainda é cedo para dizer se, em uma reordenação global, o país ganhará ou perderá participação. O contexto, contudo, reforçou estratégias que favorecem ações de companhias com forte exposição ao mercado doméstico. “Mas entendo que o mercado seguirá reagindo dia a dia ao conflito comercial pelo potencial de impacto de longo prazo das discussões em curso”, disse Paletta, da EQI.

Os cinco melhores retornos positivos desta semana, entre os integrantes do Ibovespa, foram, além de Brava Energia (que ocupava a vice-liderança na tarde desta quinta-feira), Yduqs (educação), Localweb (prestadora de serviço/internet), Marcopolo (indústria/carroceria de ônibus) e Minerva (frigorífico). Ampliada um pouco a lista, os dez mais somam, ainda, MRV (construtora), CCR (infraestrutura), Azzas 2154 (vestuário), JBS (frigorífico) e Tovs (softwares). Foram oscilações positivas em preço entre 5% e quase 12% na semana.

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Já entre os dez retornos negativos em preço, que retrataram entre -1,55% e -4,86%, estão Raia Drogasil (-4,86%), São Martinho (-4,22%) e Automob Participações (-4,17%). A Petrobras registrou recuo semanal de 3,42%.  

Com um certo otimismo em relação às oportunidades que podem surgir no contexto de reorganização de fornecimento global, cenário aliado a uma safra 2025 produtiva, algumas companhias do agro vêm obtendo ganhos. O debate sobre as oportunidades na China, para milho e algodão, por exemplo, contribuiu para o avanço de SLC Agrícola e 3tentos, com altas, nessa ordem, de 8,16% e 11,24% desde o anúncio das tarifas dos EUA no dia 2 de abril até o dia 16. No mesmo período, o Iagro (índice que reúne as companhias do setor listadas na B3), subiu 2,16%. Os dados são da consultoria Elos Ayta.

Se a guerra tarifária dos EUA prosseguir, as companhias brasileiras poderão garimpar oportunidades em mais segmentos – e em outros mercados. Ainda no agro, mas em outro segmento, estão possíveis oportunidades de expansão em proteínas, comentou recentemente o ex-Secretário de Comércio Exterior, do governo federal, Welber Barral, sócio da BMJ Consultores em entrevista à Capital Aberto. Barral também cita o café, um substituto do chá entre os jovens chineses.

Não só a China tem potencial para novos negócios. O Japão, por exemplo, sempre importou carne bovina dos EUA, e esteve fechado para os frigoríficos brasileiros. Mas se as negociações com Trump não caminharem bem, e o Japão for, de fato, taxado em 24%, é possível que o Brasil ganhe espaço no jogo de forças.

Nesse contexto, não apenas empresas de grãos ou frigoríficos estão sob atenção, mas também logística. A Rumo vem se beneficiando da leitura de que a queda de braço entre EUA e China torna o Brasil mais competitivo. “Rumo porque é o principal canal de logística de grãos, monopolista na rota de transporte ferroviário [das principais regiões produtoras] até o porto de Santos”, disse Paletta, da EQI.

“Ainda vemos empresas como a Boa Safra, que trabalha com a venda de sementes e grãos, apresentando um desempenho mais tímido do que os outros de grãos [como SLC e 3tentos], talvez como uma preferência dos investidores por nomes maiores, mais líquidos e que possam se aproveitar de maneira mais direta do conflito comercial em 2025”, continua o analista da EQI.

Barral, ex-MDIC, contudo, faz ressalva sobre expectativas nestes casos: há de se considerar, ainda, que o Brasil tem um limite para a oferta. A produção não se eleva da noite para o dia, e o país tem um mercado interno para abastecer. 

Cozzolino, da Levante, reforça que a reação nos papéis do agro é pontual. “Não acho que a tarifa beneficia. É algo positivo para o setor, mas não tem infraestrutura para escoar. Não tem capacidade produtiva para abraçar uma expansão. Então não vejo benefício, mas seria a ausência de um prejuízo”, disse. “O impacto acaba sendo menor, há um hedge em um cenário de maior incerteza”, finalizou.