Janela fechada de IPOs traciona 'sponsor to sponsor' em private equity no Brasil

Sem janela de IPOs no horizonte, a saída de fundos de private equity (PE) via venda para outros fundos PE ganhará tração mais rapidamente no Brasil. O potencial das operações ‘sponsor to sponsor’, historicamente o modelo lanterninha entre as alternativas de saída no mercado brasileiro – atrás da bolsa e de venda para outra companhia –acompanha a tendência global. Num clima de aversão a risco mundo afora, essa alternativa de saída para os PEs cresceu globalmente 141% em 2024, para US$ 181bilhões, sobre 2023.
As operações ‘sponsor to sponsor’ foram responsáveis por seis das dez maiores saídas de fundos PE no ano passado, incluindo a aquisição da plataforma de data center asiática AirTrunk pela Blackstone. Se observado um outro recorte de tempo, de cinco anos, houve avanço de 26%. A alternativa foi a única, ademais, que apresentou alta observado o volume financeiro de negócios desde 2019 em comparação às outras duas alternativas, que recuaram 46% (IPO) e 27% (venda para estratégico). Os dados são da Bain & Company.
“Ainda assim, estamos num momento de baixa liquidez. As saídas no ano passado aumentaram lá fora, começaram a se recuperar, mas as distribuições continuam muito baixas”, comenta Luiz Eugenio Junqueira Figueiredo, head de investimentos alternativos da Bradesco Asset.
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Elas cresceram como uma alternativa de saída natural a partir da baixa dos IPOs, um movimento que, lembram as fontes consultadas pela Capital Aberto, ocorre de forma cíclica, de tempos em tempos no mundo. A novidade é que o Brasil, agora, pega carona no movimento devido a uma maturidade estrutural. Primeiro, diz Figueiredo, uma tendência é que as empresas fiquem mais tempo na carteira dos fundos.
Segundo, para o Brasil há o desafio, e oportunidade, de destravar e impulsionar a cadeia. Certamente, continua o executivo da Bradesco Asset, a quantidade de fundos hoje é maior do que a de 3 anos atrás, do que a de 5 anos e muito maior do que havia há dez anos. “Há alguns elos da cadeia mais povoados do que outros, mas a quantidade de gestoras cresce”, diz.
O país tende a repetir, em médio prazo, os passos do mercado americano, onde a saída ‘sponsor to sponsor’ supera historicamente as vias de IPO e estratégicos há quase duas décadas, opina Oswaldo Dalla Torre, sócio do Tozzini Freire. No Brasil, as vias de saída sempre foram IPO e M&A, nessa ordem. Dados da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), evidenciam os volumes. Se em 2020 e 2021 ocorreram 3 operações de saída entre fundos PE a cada ano, o sumiço dos IPOs deu tração à alternativa recentemente.

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Em 2023 foram 9 operações com o perfil e, no ano passado, 6 – mesmo com o recuo em 2024 sobre 2023, trata-se do dobro em comparação aos anos anteriores. Em volume financeiro, as operações somaram R$ 1,6 bilhão no ano passado – em 2023 foram R$ 880 milhões.
“O ‘sponsor to sponsor’ não é um movimento novo no país, embora seja menos utilizado do que a saída via IPO e de comprador estratégico. Mas eu vejo, sim, tendência de alta. Há fundos com dinheiro para alocar e eles estão buscando oportunidades”, reforça Priscila Rodrigues, presidente da Abvcap.
A associação não informa o estoque de capital disponível nos fundos de PE, visto que nem todas as gestoras tornam público onde ou se já alocaram o dinheiro que há em caixa. No mundo, segundo a Bain & Company, 2024 chegou ao fim com um estoque de capital ainda não investido (dry powder) de US$ 1,2 trilhão.
Secundários: cotistas se movimentam
O contexto tem contribuído para dar tração não só às operações entre fundos, mas, também, ao mercado secundário, referente às vendas de cotas por investidores que integram os PEs – ou têm projetos desses fundos em suas carteiras. “As distribuições muito baixas aumentam o movimento no mercado secundário”, continua Figueiredo, da Bradesco Asset.
É neste contexto que, apesar de ainda poucos, vêm ganhando musculatura os Fundos de Fundos (FOFs) que atuam no Brasil, a exemplo do Bradesco Explorer Private Equity, sob gestão da Bradesco Asset, e de estruturas sob o guarda-chuva da Spectra e da Signal Capital, adquirida no ano passado pela BTG Pactual Asset Management.
Há vetores adicionais para explicar o maior número de transações no secundário por aqui em comparação ao mercado internacional. “Não só há o mercado macro impactando, ou seja, você tem menos IPOs, menos vendas e menos distribuições como ocorre lá fora, mas, além disso, há hoje mais investidores no Brasil com carteiras relevantes. E tem mais fundos de fundos também podendo comprar”, continua Figueiredo.
Carteiras de private equity mais maduras, com mais FOFs podendo comprar, é uma realidade de anos recentes no mercado brasileiro. Sem IPOs no horizonte no Brasil, este modelo de negociação no universo PE também deve ganhar agilidade. Em outros países as janelas fecham, mas não “emperram” como no mercado brasileiro, avaliam as fontes. “Aqui emperra e você não consegue abrir durante muito tempo. É como está agora”, diz o head da Bradesco Asset. “Lá fora, dificilmente você tem zero de IPO. Ele cai de forma significativa”. Foi num espaço vazio para bolsas, pós crise de 2008, que operações no secundário de fundos ganharam força no mercado americano, lembra Dalla Torre, do Tozzini Freire.


