Relatório de política monetária do BC aponta perspectiva menor de crescimento e expectativa maior de inflação para 2025

O Banco Central apresentou nesta quinta-feira (27) o Relatório de Política Monetária do primeiro trimestre de 2025, onde ressaltou alguns dos pontos mencionados na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), como o aumento da volatilidade e incerteza do cenário externo, inflação mais alta mesmo diante da política contracionista e uma piora das perspectivas sobre o crescimento econômico, diante de uma desaceleração da atividade.
Sobre os próximos passos, os representantes da entidade, Gabriel Galípolo, presidente do BC, e Diogo Abry Guillen, diretor de política econômica, deixaram claro que o BC está dependente de dados e não confirmaram as previsões do mercado sobre a magnitude das altas na Selic, que beiram os 0,50 p.p. Os executivos também repetiram o discurso após a reunião de 19 de março que constava na ata, ressaltando a incerteza e a volatilidade do mercado externo, que começa a ter impacto sobre o cenário e afetar o balanço de riscos.
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“Tem o debate, claro, de como vai ser essa dinâmica da desaceleração e da desinflação. Pegando o exemplo de tarifas, como isso vai impactar diferentemente o crescimento e a inflação dos Estados Unidos e como bate no crescimento dos outros países. Na ata, também trouxemos um debate aí sobre a Europa, que também surge com aumento de gastos”, disse Guillen, na coletiva de imprensa.
Durante a apresentação, o diretor da entidade falou de onde vem a inflação mais alta e sobre a expectativa de inflação para emergentes, que piorou, além de citar as dificuldades sobre as expectativas de inflação desancoradas no Brasil. Em relação ao IPCA, Guillen ressaltou o processo de dinâmica inflacionária rodando em níveis elevados, visto que a inflação acumulada em 12 meses aumentou desde o relatório anterior. Um ponto relevante, segundo ele, é que os núcleos também subiram, indicando que não é uma elevação por um componente particular. “É um processo de dinâmica inflacionária rodando em níveis elevados. A diferença até é pequena, se você comparar a inflação cheia e os núcleos. Acho que a interpretação sobre a dinâmica não muda”, disse.
No relatório, foram mencionados os preços dos alimentos, que seguiram altos, especialmente de itens como o café, além da alta do preço do boi gordo, que também tem afetado a inflação. “A conclusão é que os preços das carnes devem continuar pressionados este ano”, disse Guillen. Segundo os dados, o cenário de commodities também foi afetado, devido às tarifas de Trump e ao clima, e à expectativa de ampliação do excesso de oferta, o que pesou no componente de inflação importada.

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Os membros mencionaram as projeções de inflação de curto e médio prazo. No cenário de referência do curto prazo, Guillen citou “uma surpresa para cima no trimestre até fevereiro” em relação ao previsto, mas a composição surpreendeu mais que os números. Olhando para a frente, o executivo reiterou que a inflação vai ficar acima do intervalo de tolerância por 6 meses, exigindo a elaboração da carta pelo BC.
“Colocamos hoje as projeções mensais para os próximos meses e temos complementado isso na ata, falando sobre o ponto de que a inflação vai ficar acima do intervalo de tolerância nas nossas projeções nos próximos seis meses, exigindo escrever uma carta, a carta aberta quando completar seis meses consecutivos de inflação acima do teto”, disse Guillen, citando que isso deve acontecer em junho.
O BC afirmou que, em seu cenário de referência, a inflação deve continuar acima do limite do intervalo de tolerância da meta, começando a cair a partir do terceiro para o quarto trimestre do ano. A meta é de 3%, com teto de 4,5%. A projeção da entidade é que a inflação acumulada em 12 meses fique na faixa de 5,5% e 5,6% nos três primeiros trimestres deste ano, caindo para 5,1% no final de 2025.
Crescimento econômico
Assim como na ata, o relatório menciona que o PIB surpreendeu, mas os executivos ponderam a queda no 4º tri de 2024, especialmente em relação ao consumo das famílias. Os executivos reduziram a projeção do PIB para 2025 de 2,1% para 1,9%, prevendo um crescimento menor. “Olhando para trás, viemos discutindo já há bastante tempo essa resiliência da atividade, dado o grau restritivo de política monetária. Mas começamos a ver já alguma inflexão e, mais ainda, para frente, uma discussão já maior de desaceleração de crescimento”, disse Guillen. O relatório também destaca que o mercado de trabalho se manteve aquecido, mas mostrou um arrefecimento nos últimos meses.
Mais tarde, durante a sessão de perguntas, os executivos do BC afirmaram que, enquanto a liberação do saque aniversário do FGTS e mudanças no salário mínimo, que devem injetar recursos na economia, estão na conta para o fortalecimento do PIB, outras medidas do governo como a isenção do IR e o novo consignado privado ainda não entraram nas projeções - o que também afeta a inflação.
“Ainda não consideramos nas nossas projeções o impacto do consignado privado. Temos visto, desde o lançamento do consignado privado, estimativas que têm variado muito em magnitude, sobre qual deveria ser o impacto, inicialmente estimativas maiores, agora estimativas menores”, disse Galípolo. “Também há muita dúvida sobre o quanto disso representa um fluxo novo e o quanto representa uma substituição de dívida velha por dívida nova, e também como isso vai se desdobrar no tempo. Tem uma série de dúvidas e a resposta é não: não consideramos.” Para o executivo, tanto o consignado privado quanto a isenção do IR ainda são incipientes para terem seus impactos mensurados.


