Europa é “Gladiador” e ressurge, diz Kinea em relatório
A inquietação crescente nas capitais europeias relacionada à segurança, à medida que a nova administração de Donald Trump dá sinais de reduzir o compromisso dos EUA com o tema no continente, já resultou em anúncio de redução da austeridade fiscal alemã – e consequente abertura de via para investimentos em companhias e títulos públicos na Europa. Apenas a Alemanha criou, em março, um fundo de 500 bilhões de euros voltado a gastos em infraestrutura e defesa.
Citando o filme “Gladiador” (de 2000, vencedor de cinco Oscars), a Kinea faz análise sobre o retorno da Europa ao protagonismo geopolítico – e o potencial para investimentos no continente – em relatório divulgado nesta quinta-feira (20). “A história de Gladiador mostra como até o império mais poderoso pode se tornar vulnerável quando enfrenta desafios inesperados e uma liderança vacilante. De forma semelhante, a Europa, após décadas de paz no pós-Guerra Fria, foi desperta de sua complacência pela invasão russa na Ucrânia”, diz o texto.
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Os EUA já anunciaram a suspensão de parte da assistência militar à Ucrânia, lembra a gestora, assistência esta que é “bem relevante”, somando mais de 40% dos 170 bilhões de euros destinados à Ucrânia até o momento.
“A guerra na Ucrânia evidenciou que infraestrutura e defesa estão interligadas. Por exemplo, a capacidade de transportar rapidamente tropas e equipamentos através da Europa Oriental depende de ferrovias e rodovias adequadas, pontes reforçadas e coordenação logística eficiente”, diz trecho do relatório. Infraestrutura entrou no pacote anunciado pela Alemanha, já que ao revitalizar suas autoestradas, ampliar ferrovias de alta velocidade e aprimorar portos e aeroportos, o país não apenas impulsiona sua produtividade econômica como também fortalece a resiliência e prontidão militar de toda a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), diz a gestora.
Pacifista desde o pós-guerra, a Alemanha simboliza o novo momento no continente, segundo a Kinea. “Nenhum país simboliza mais essa guinada do que a Alemanha, coração econômico da Europa e tradicional pilar relativamente pacifista desde o pós-Guerra”. Em março, antes da formação do novo gabinete, após as eleições em fevereiro, os partidos rivais alemães chegaram a um acordo histórico para criar um fundo de 500 bilhões de euros voltado à infraestrutura e à retirada de parte do gasto defesa do teto constitucional – o que exigirá rever as rígidas regras fiscais do país, informa o texto.

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Em meio ao cenário, os mercados financeiros já reagiram a essa perspectiva. “O anúncio deste enorme plano de expansão fiscal alemão desencadeou uma venda massiva de títulos em diversos países, elevando os juros das dívidas soberanas na Zona do Euro e valorizando as moedas europeias em relação ao dólar norte-americano”, diz o relatório.
A gestora desenhou três cenários de gastos possíveis no continente. O aumento anual até 2030 seria em torno de 75 bilhões de euros com novas medidas, em caso de corresponder ao gasto de 3.2% do PIB com defesa. “Nossa visão é que o mercado ainda não precificou o cenário de mais de 2.5% do PIB europeu da OTAN gasto em defesa em 2030, o qual, na nossa opinião, tem se tornado cada vez mais provável”, avalia a gestora.
Companhias em alta
Esperamos que cerca 40% do total gasto em defesa anualmente vá para equipamentos. Com isso, assumindo manutenção da participação de mercado, podemos ver a alta magnitude do impacto nas empresas europeias. Para a Rheinmetall, por exemplo, o pacote de gastos é o mais significativo, o que basicamente justifica a sua performance de mais de 120% ao longo desse ano.
Mesmo após essa performance, a Kinea manteve a posição e a visão construtiva na companhia e nas demais europeias, além das americanas responsáveis por produzir as maiores lacunas da Europa. “O processo de reconstrução da defesa europeia será estrutural e duradouro, em todas as áreas. Mas, classificamos como os pontos essenciais e mais imediatos, devido à defasagem tecnológica e baixos estoques, dois segmentos: sistemas de defesa aéreos e sistemas de munições”, diz, ainda, o texto.
Além da questão de infraestrutura, os países europeus têm lacunas em defesa aérea e antimísseis de longo alcance, uma fragilidade que os ataques russos tornaram impossível de ignorar. Os novos pacotes de defesa tentam responder a esses gaps. A Alemanha, por exemplo, já anunciou planos de adquirir sistemas modernos de defesa antiaérea de alto alcance – como o Arrow-3 e unidades adicionais de Patriot – além de investir em drones de combate, helicópteros e comunicações encriptadas.
Segundo a Kinea, o déficit tecnológico do continente deve manter a dependência europeia a empresas americanas como RTX, Lockheed Martin e Northrop Grumman, principais fornecedoras do F-35, que historicamente recebe pedidos do mundo inteiro.
