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Efeito positivo da reserva cripto de Trump nas moedas digitais é incerto

Amanda Meneses

Axel Blikstad, CEO da B2V Crypto
Axel Blikstad, CEO da B2V Crypto

Em mais um capítulo das políticas de Trump, que têm gerado volatilidade no mercado em geral, o político anunciou uma reserva estratégica nacional de criptomoedas. Contrariando expectativas do mercado, inicialmente, segundo Trump, além do Bitcoin, a reserva deve incluir ativos de menor capitalização como XRP, Cardano e Solana, o que foi visto de maneira negativa. Embora gere uma alta nas criptos citadas, a duração do movimento é incerta. Já na noite desta quinta-feira (06), Trump assinou um decreto para a criação de uma reserva estratégica de bitcoin, mas que será financiada exclusivamente com bitcoins apreendidos em processos criminais, bem como outros ativos apreendidos. Mais detalhes ainda não foram dados sobre quais são eles.

As expectativas agora estão no Crypto Summit, evento que pode fornecer pistas sobre os próximos passos de Trump a respeito do tema e pode definir um ciclo de alta para os ativos.

Inicialmente, no domingo (02), o presidente dos EUA Donald Trump anunciou que criaria uma reserva estratégica nacional de criptomoedas. Primeiro, o republicano citou a inclusão da XRP, Solana e Cardano e, posteriormente, fez um novo post em sua rede social citando Bitcoin e Ethereum. Após o ocorrido, o Bitcoin chegou a subir 9% e ultrapassar US$ 94 mil, enquanto as outras da cesta tiveram altas entre 10% e 35%. 

Mas na noite de quinta-feira, Trump assinou uma ordem executiva para criação de reserva estratégica de bitcoin nos EUA. Em um post no X, David Sacks, chefe de Cripto e IA da Casa Branca, afirmou que a reserva será capitalizada com Bitcoin de propriedade do governo federal confiscado como parte de procedimentos criminais ou civis de confisco de ativos. "Isso significa que não custará um centavo aos contribuintes", disse.

Além disso, segundo a comunicação, os Secretários do Tesouro e do Comércio estão autorizados a desenvolver estratégias neutras em termos de orçamento para adquirir bitcoins adicionais, "desde que essas estratégias não tenham custos incrementais para os contribuintes americanos". A ordem também inclui estabelece um "estoque de ativos digitais dos EUA", consistindo em ativos digitais que não sejam bitcoins confiscados em processos criminais ou civis.


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Se por um lado a inclusão de criptos “menores” sinaliza uma maior abertura do governo para o setor como um todo, reconhecendo a importância de projetos de outras redes, além do Bitcoin, que impulsionam a inovação blockchain, por outro, traz incertezas, analisa Israel Buzaym, especialista cripto do Bitybank, banco cripto.

A iniciativa tem gerado dúvidas no mercado, que questiona a entrada das outras criptomoedas que não o Bitcoin na reserva. “Em um fundo soberano, a princípio, são coisas realmente mais estratégicas. Em termos de reserva de valor, o único ativo que eu vejo que merece efetivamente estar dentro de um fundo desse, da forma que ocorre com ouro ou petróleo, é o Bitcoin, o ouro digital”, comenta o fundador e CEO da B2V Crypto, Axel Blikstad.

“Este, inclusive, já é um momento em que o mercado de risco norte-americano, de forma geral, está altamente volátil e o mercado cripto segue com uma correlação elevada com índices como o NDQ (Nasdaq)”, ressalta Murilo Cortina, diretor comercial da QR Asset Management. Ou seja, o mercado de ativos digitais já está sendo afetado. “Neste contexto, a insistência em tarifar diversos mercados é um dos principais fatores que geram receio nos investidores”, diz.

Com a imposição das tarifas, há um cenário potencial em que a inflação nos EUA aumente para produtos e serviços, enquanto o crescimento do país fique abaixo do esperado antes dessas medidas, podendo impactar diretamente as políticas de consumo e a trajetória da taxa de juros nos EUA, pressionando as bolsas para baixo. Somado a isso, o mercado de cripto tem um fato adicional a considerar: o anúncio da reserva cripto, que também incluiu ativos de menor capitalização, principal ponto de crítica.

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A inclusão dessas três altcoins - XRP, SOL e ADA - como parte das reservas nacionais, conforme publicado por Trump, é algo sem precedentes no setor, lembra Cortina, da QR Asset. “Afinal, uma coisa é reconhecer o Bitcoin como reserva nacional, um ativo cuja tese como reserva de valor já está consolidada devido à sua rede proof-of-work. Outra coisa é incluir moedas que operam em redes proof-of-stake e que ainda estão sob debate regulatório, especialmente quanto ao seu enquadramento como valores mobiliários. Com isso, Trump praticamente impulsiona uma altseason no mercado.”

O executivo ressalta que a confluência de um cenário macro incerto, combinada com uma perspectiva extremamente positiva do lado regulatório para o mercado cripto, cria uma situação de altíssima volatilidade, exatamente o que estamos observando agora.

O anúncio sobre a reserva cripto impulsionou as moedas digitais esta semana, com o Bitcoin voltando a testar US$ 90 mil e outras moedas também subindo. Agora, o mercado avalia se o anúncio de Trump tem fundamento real. Após a alta inicial, as criptomoedas devolveram boa parte dos ganhos, enquanto os investidores digeriam as notícias. 

Cortina, da QR Asset, pondera que a recente queda do mercado foi amplificada pelo movimento de investidores institucionais, especialmente devido à influência dos ETFs de BTC e ETH, que tiveram saídas significativas, acompanhando a queda das principais bolsas norte-americanas. 

Dadas as informações até agora, Blikstad, da B2V Crypto, acredita que “todas elas (criptomoedas envolvidas) sobem”, e que há uma valorização razoável a caminho. “Não duvido que o BTC volte a testar os US$ 100 mil. A menos que ele (Trump) venha com algum valor baixo (de reserva), algo como colocar US$ 100 milhões em Bitcoin, aí o mercado cai. Tem que ser algum valor relevante”.

A expectativa dos especialistas é que as criptos experimentem um ciclo de alta, especialmente as “menores”, visto que são mais centralizadas e estão na mão de menos investidores, caso as notícias por Trump se confirmem, ou seja, a reserva cripto inclua, além do Bitcoin, outras moedas digitais.

“É mais fácil puxar esses ativos menores do que o Bitcoin fazer com 50% no dia. Não acredito que vai acontecer. Com essas outras, pode acontecer qualquer coisa”, diz Blikstad.

O CEO da B2V Crypto lembra ainda que essas criptos podem subir muito mais no curto prazo, mas não significa que elas “ficarão seguradas nesses valores no médio prazo”. “Pode ser um exagero de curto prazo”, alega.

Embora a tendência seja uma alta, se ela será duradoura é uma incógnita. Para Buzaym, do banco cripto, a resposta para isso depende de três fatores, sendo o detalhamento do plano da reserva cripto, o ciclo do Bitcoin e a adoção e regulação. “Se houver avanços concretos e claros (sobre a reserva), o mercado pode continuar precificando positivamente. Se houver incertezas ou mudanças, a volatilidade pode aumentar”, diz.

Além disso, lembra o especialista, o BTC já vinha em tendência de alta, impulsionado pelo halving e pelo fluxo institucional, ou seja, esse movimento de valorização também depende do ciclo da moeda digital. “Se a liquidez global continuar favorável, a alta pode ser sustentada.”

O executivo cita ainda que a adoção e a regulação também são importantes para a definição da alta. Segundo ele, um movimento positivo dos EUA pode incentivar outros países a seguirem um caminho semelhante, ampliando a legitimidade dos criptoativos como classe de ativos, o que sustentaria o crescimento no longo prazo. “A curto prazo, o mercado pode realizar lucros após essa alta expressiva, mas, no longo prazo, uma postura mais pró-cripto dos EUA tende a fortalecer o setor”, diz.

De olho no Crypto Summit

Os olhos do mercado agora se voltam a um evento que pode mudar os rumos dos planos de Trump. Nesta sexta-feira (07) ocorrerá o Crypto Summit na própria Casa Branca, reunindo diversos representantes do lobby cripto com membros do alto escalão do governo. “Esse evento pode sinalizar grandes mudanças para o setor no curto prazo”, acredita Cortina, da QR Asset.

O Crypto Summit deve contar com fundadores de empresas cripto, líderes da indústria e outros participantes desse mercado. Um dos tópicos será como vai ocorrer o financiamento da reserva cripto dos EUA, mas também deve abordar questões como a proposta para eliminar impostos sobre ganhos de capital nas vendas de criptomoedas. 

A expectativa é que o evento, que reunirá diversos nomes do mercado de criptomoedas, traga atualizações dos planos de Trump para a reserva dos ativos digitais. “Estou bastante entusiasmado com o que sai nesta sexta-feira. Acho que para a Crypto vai ser bom, de alguma forma ou outra. Se ele anuncia um valor [para a reserva], seria excelente”, diz Blikstad, da B2V. “Acho que não teremos todas as cartas na mesa nesse dia, mas acho que um norte a gente terá.”

Para o executivo do BityBank, ainda é possível haver uma mudança de planos em relação à reserva. “O mercado esperava um alinhamento com a tese de reserva de valor baseada no Bitcoin, e a reação mista pode levar a ajustes na proposta. Além disso, uma reserva exclusivamente em BTC se alinharia mais com a postura de outros países e instituições que consideram o Bitcoin um ativo estratégico, como El Salvador e algumas empresas que já o adotam em seus balanços”, opina.