BC deve concluir entrega de Selic a 14,25% a.a. e sinalizar ritmo menor de aperto, prevê mercado

Com o fim do guidance do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que previa dois aumentos da Selic em 100 basis points (1 p.p), previsto para a próxima reunião nos dias 18 e 19 de março, o mercado se volta para possíveis pistas no comunicado da entidade. Na reunião desta quarta-feira (19), o BC deve entregar o juro “contratado” e levar a Selic de 13,25% ao ano para 14,25%. Se por um lado as pressões inflacionárias persistem e o cenário externo aperta, por outro, o fiscal tem se mantido sem grandes alterações, o dólar tem caído ante o real e a atividade econômica tem desacelerado, fortalecendo a visão de economistas que o BC deve adotar um tom de aperto menos severo nas outras reuniões.
Para o Copom da próxima semana, em relação à decisão do comitê, o mercado não espera muitas surpresas, uma vez que a alta de um ponto percentual já havia sido comunicada pelo BC e precificada pelos agentes. As expectativas, no entanto, recaem sobre a comunicação da entidade a respeito dos próximos passos, que pode mostrar uma inclinação da entidade sobre reduzir o ritmo das altas.
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“Tenho dois grandes interesses nesse comunicado: primeiro, o menos interessante, mas importante para economistas, é sobre quanto vai aparecer de inflação projetada no horizonte relevante. Isso abre espaço para a segunda parte, que é interessante, de qual vai ser a sinalização para as próximas, o quão claro ele vai ser”, comenta Marco Antonio Caruso, economista do Santander.

Na última ata, o BC relembrou o guidance, mas deixou em aberto o que aconteceria depois, o que o mercado espera ter ao menos uma pequena mudança neste comunicado. “Este deverá ser o último aumento de um ponto na taxa básica de juros no atual ciclo de aperto monetário, sobretudo em virtude do estágio do ciclo e do orçamento total que projetamos. Contudo, espero que o comunicado traga a necessidade de continuidade do movimento de elevação da Selic, mas em menor magnitude”, opina Marcelo Rebelo, economista-chefe do Banco do Brasil.
Desde a última reunião, temos um cenário que não melhorou muito, mas também parou de piorar. “Se compararmos a velocidade de deterioração que vimos nas reuniões de novembro para dezembro, depois ainda de dezembro para janeiro, foi um movimento super forte, além de piorar as expectativas de inflação, até o câmbio continuava relativamente depreciado. Tinha realmente uma assimetria grande para o balanço de riscos”, ressalta Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG.
Para o BB, o destaque entre as reuniões de janeiro e março é certamente a evolução do ambiente internacional, que vem se tornando cada vez mais complexo em virtude das incertezas geopolíticas. “Dentre estes, destaco as discussões sobre a possibilidade de fim do conflito entre Rússia e Ucrânia, a iminente ampliação com gastos militares na Europa e as políticas tarifárias ainda muito incertas por parte dos EUA”, diz Rebelo.
Se por um lado o cenário externo continua incerto, ressalta Serrano, do BMG, diante do Fed adotando uma pausa dos cortes de juros, de pressões inflacionárias nos EUA e das políticas tarifárias de Trump, além de um ambiente interno difícil com inflação alta e expectativas desancoradas, por outro, há uma melhora do câmbio e a atividade econômica começou a mostrar sinais de arrefecimento com PIB menor, que podem abrir espaço para uma postura de menor aperto.
“Tivemos PIB quase de lado no fim do ano, o que é uma surpresa. Os dados de janeiro de atividade não são bons também. Pegando produção industrial, serviços, queda de novo. Serviços prestados às famílias, praticamente de lado, e no mercado de trabalho, teve aumento na taxa de desemprego e redução absoluta no nível de emprego, que talvez seja a mais importante”, ressalta José Francisco Lima Gonçalves, professor de economia da FEA USP e ex-economista chefe do Banco Fator.

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Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nos últimos dias mostram que a economia do Brasil teve um crescimento anual de 3,4% em 2024, no entanto, o crescimento do PIB no último trimestre do ano, de 0,2%, ficou aquém da mediana das expectativas. Além disso, mais recentemente, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 1,31% em fevereiro, maior IPCA para um mês de fevereiro desde 2003 (1,57%), que embora seja resultado de ajustes pontuais e represente um percentual esperado pelo mercado, mostrou uma alíquota “salgada” e pressões inflacionárias persistentes. Já Serviços apresentou variação negativa de 0,2% e varejo caiu 0,1% em janeiro.
Gonçalves ressalta que a massa de renda real continua crescendo, mas a cada mês mais devagar. “Tem um conjunto de indicadores que apontam realmente para o cenário do Copom de desaceleração da atividade com algum efeito sobre a inflação mais adiante”, diz, citando o dado de inflação que foi ruim, não pelo número, mas pela composição, visto que preços de serviços seguem pressionados. “Acho que não tem novidade na análise deles. O que pode ter é alguma coisa do lado fiscal, que parou de piorar.”
Outros fatores importantes que se alteraram desde a última reunião foram o câmbio, que saiu da casa dos R$ 6 desde janeiro, e agora opera por volta de R$ 5,73, além de uma discussão sobre o possível efeito bumerangue das tarifas de Trump para os EUA, lembra Caruso, do Santander. “Acho que o BC vai continuar dizendo que o externo está desafiador para uma economia emergente como o Brasil. Ele não vai dizer, mas há o ‘vai e vem’ das tarifas. Foi ponto para ele a questão de que podemos estar vivendo num mundo de menos atividade por conta delas e das incertezas que geram”, aponta, dizendo também que a atividade econômica do Brasil começou a dar sinais sutis de desaceleração com indicador de serviços em janeiro e PIB do 4º tri mais fracos. “Essa é uma consideração que vai ser interessante na ata.”
Embora provavelmente o BC não se comprometa com mais altas de grande magnitude e um novo guidance explícito, ele deve dizer que os próximos passos vão depender das expectativas e do hiato do produto. Valores dificilmente serão citados, mas pistas poderão ser dadas.
Previsões de economistas
Dado esse conjunto de fatores, os economistas consultados não acreditam que há espaço para novas altas de 1 ponto percentual (p.p.) após o fim do guidance, por ser uma medida mais agressiva. O cenário, por ora, deve ser ainda de alta, mas em menor magnitude.
O cenário mais provável do Banco do Brasil contempla duas altas adicionais, em maio e junho, de 50 pontos-base em cada uma, o que levará a Selic para o patamar de 15,25% neste ano, iniciando um corte brando de 25 bps apenas em janeiro de 2026.
“Não parece ser o caso (novas altas de 100 bps). Apesar de as expectativas de inflação não terem cedido, você começa a ter os pronunciamentos de uma resposta da atividade, é um aperto monetário. E, em teoria, já está com um juro real super alto, de forma que não precisaria manter o ritmo”, comenta o economista do Santander, que prevê um IPCA de 6% ao final do ano, Selic de 14,5% e câmbio de R$ 6.
“Faz sentido tirar o pé até entender se, de fato, a atividade está perdendo esse fôlego, porque tudo começa nela. O câmbio começou a responder, parte também do juro alto, a atividade começou a responder, será que a inflação também vai responder?”, indaga Caruso, acreditando que, embora não veja uma inflação convergindo para a meta, talvez não precise de uma carga de juros reais tão alta no país e haja espaço para um corte de 100 bps no último trimestre do ano.
O BMG, por sua vez, acredita que, após a alta deste mês, “ainda falta alguma coisa para ser feita”. “Achamos que acaba em maio, mas eventualmente pode ter um último aumento em junho. Acredito que ainda falta alguma coisa para o BC fazer para melhorar esse balanço de riscos do cenário inflacionário”, diz o economista. “Ele pode vir nessa reunião de março e dar ainda um guidance para a próxima. Em vez de deixar em aberto, falaria que antevê, se o cenário transcorrer do jeito que esperam, um ajuste de menor magnitude na próxima reunião. Isso pode ser utilizado, mas é uma dúvida”, opina Serrano, que espera aumentos até menores que 75 bps, vê uma inflação acima de 5% no final do ano, Selic a 14,75% e dólar a R$ 5,70.
“Até enxergamos espaço para cortes, pensando mais para o final do ano ou começo do próximo ano, quando deve ter a janela, mas depende muito dessa confirmação do processo de desaceleração da atividade econômica ficar mais claro”, complementa o economista-chefe do BMG.
Já Gonçalves, da FEA-USP, também vê uma inflação acima de 5% no final do ano, e acredita numa queda mais para o final do ano, resultando em 14,50% e dólar a R$ 6. Para o economista, o importante é se a inflação vai ficar seis meses acima de 4,5% e o que o Copom vai dizer a respeito. “Isso deve acontecer no meio do ano, para junho ou julho. E aí o Copom vai ter que se manifestar e lá pode ter alguma novidade”, opina.
“A política fiscal confirmando que o gasto cresce menos, ou melhor, mais devagar do que no ano passado, ou seja, vai crescer menos que 2,5%, ajuda tanto do lado da atividade quanto das expectativas, da ancoragem”, diz o economista. “Lá fora, acredito que Trump vai quebrar a cara e vai ter uma recessão no primeiro trimestre nos EUA, e no segundo recupera um pouco, mas o dólar volta a caminhar para baixo, o que também ajuda o mundo inteiro.”


