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Apetite estrangeiro contribui para ganho do Ibovespa no bimestre, mas efeito Trump eleva incerteza

Érica Polo

Guto Leite, gestor de renda variável da Western Asset
Guto Leite, gestor de renda variável da Western Asset

Com a bolsa brasileira mais barata, houve um movimento de investidores estrangeiros rumo às ações de companhias listadas na B3 no primeiro bimestre do ano. Esse fator, atrelado a um Donald Trump um pouco mais ‘moderado’ nos primeiros 30 dias de governo, reforçou o desempenho do Ibovespa no período entre janeiro e fevereiro, disseram analistas consultados pela Capital Aberto.

A partir de março, contudo, as incertezas do cenário global e a condução da economia no Brasil podem reforçar a volatilidade. Nesta quarta-feira (05), a bolsa voltou a operar às 13h, após o feriado de Carnaval, em meio a um clima agitado nas bolsas internacionais devido à política tarifária dos EUA. Foi um dia com pouca liquidez e bastante volátil na B3, mas com encerramento do índice em alta de 0,20%, a 123.046 pontos. O (novo) recuo de Trump em relação à parte das tarifas comerciais (o republicano adiou em um mês a cobrança das tarifas relacionadas a México e Canadá no setor automotivo) contribuiu positivamente para os ativos domésticos.


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Em janeiro, o Ibovespa partiu de 120.125 pontos, no primeiro pregão do ano, para 122.799 pontos registrados na última sessão de fevereiro (28/02) – alta de 2,22% no bimestre. O índice chegou a superar 128 pontos em meados de fevereiro, mas começou a arrefecer ao final do mesmo mês por alguns fatores, como o prejuízo recente divulgado pela Petrobras. A notícia sobre a liberação do FGTS para quem optou por saque aniversário também respingou na B3, já que o mercado de renda variável local reage mais ao pano de fundo macro do que aos fundamentos de companhias listadas, reforçaram os analistas consultados.

Para os próximos meses, o desempenho é nebuloso. “Há uma conjunção de muitos fatores lá fora e no Brasil que causam incertezas, tem pontos positivos e negativos. Isso dificulta a visibilidade”, comenta Guto Leite, gestor de renda variável da Western Asset. “Por isso seguimos cautelosos”, continua.

No combo de fatores que mexem com o mercado de renda variável está o da aplicação de tarifas, pelos EUA, a parceiros comerciais. Mesmo com idas e vindas de Donald Trump, que tem aberto espaço para alguma flexibilidade, por fim, as tarifas estão sendo aplicadas aos países, um fator que gera instabilidade nos mercados. Foi o que ocorreu nos últimos três pregões nas principais bolsas americanas, nesta semana, após a entrada em vigor das tarifas cobradas ao México, Canadá e China.

Além disso, Trump reforçou a decisão de cobrar tarifas recíprocas de parceiros comerciais a partir de abril (o Brasil foi citado nominalmente). No contexto externo há, ainda, indicadores um pouco mais favoráveis para que o Federal Reserve (Fed) possa cortar juros. Ainda assim, é cedo para esperar como certo esse movimento e, com ele, um potencial redirecionamento de capital dos EUA para os emergentes – fator que beneficiaria a B3, admitem os especialistas.

Leite, da Western, acrescenta um fator ao fazer um paralelo: no primeiro governo do republicano nos EUA, o dólar ganhou força logo no início do mandato, mas recuou cerca de seis meses após a posse de Trump. “Creio que foi um pouco depois da posse que o dólar foi perdendo força. Agora está acontecendo parecido, e isso é bom para os mercados emergentes”, continua.

No Brasil, os juros em patamar mais altos deterioram o cenário econômico e ainda mantém investidores na renda fixa. “Não sabemos como o governo vai conduzir o problema fiscal, então há mais risco no cenário. Mas o que não era esperado no início de 2024 [a deterioração do cenário de juros], já está projetado agora em 2025”, reitera Enrico Cozzolino, sócio e head de análises da Levante Investimentos.

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Para o sócio da Levante, portanto, é possível que a B3 vá melhor em 2025, em comparação a 2024. “Tivemos uma deterioração nos fundamentos (cenário macro), mas, principalmente, um movimento de aversão a risco e perpetuação de um cenário muito ruim que, particularmente, acredito que seja muito difícil de acontecer de novo”, explica Cozzolino.

Em relatório recente, o Inter projeta 143.200 pontos para a B3 ao final de 2025. O retrato é ancorado pelo resultado das companhias, mas um pouco pessimista dado ao múltiplo evidenciado pelo mercado e aos riscos ainda pertinentes, diz o texto do banco. Matheus Amaral, especialista em renda variável do Inter, diz que o valor projetado é uma visão do que seria um preço “justo” para a bolsa brasileira. “Mas o risco fiscal está na mesa e o Ibovespa tende a se prejudicar porque as expectativas de juros são altas e as de inflação também”, acrescenta.

Movimento do bimestre

“O movimento (no bimestre) foi basicamente o investidor estrangeiro chegando à B3. O Brasil ficou muito barato para ignorar”, resume Amaral, do Inter. “Houve fluxo positivo de cerca de R$ 7 bilhões só em janeiro”, continua. Se observado somente no primeiro mês do ano, o Ibovespa avançou 5%, para 126.135 pontos. Em fevereiro os volumes recuaram.

O contexto externo explica boa parte do movimento visto no início deste ano. O quarto trimestre de 2024 foi marcado pelo “Trump Trade”, com o fortalecimento do dólar perante outras moedas, além da leitura, à época, do pouco espaço para o Federal Reserve (Fed) baixar os juros no mercado americano. Isso segurava mais o investidor nos EUA.

Contudo, o cenário se alterou um pouco após a virada do ano e contribuiu para o fortalecimento do Ibovespa brasileiro. A lógica de um Donald Trump mais moderado, que abriu espaço para a negociação da aplicação de tarifas para México e Canadá, por exemplo, e o afrouxamento monetário (os juros de dez anos nos EUA saíram de patamar de 4,53% para 4,26%) levaram o investidor a considerar a diversificação, olhando então para os mercados emergentes.

O evento da chinesa Deep Seek, que esfarelou a americana Nvidia em 27 de janeiro, também ajudou o investidor a pensar que talvez estivesse muito alocado em EUA, acrescenta Leite, da Western Asset. A valorização da B3 contou com a influência de eventos do mercado interno, como o IPCA abaixo do esperado e a queda de popularidade do atual governo de Luis Inácio Lula da Silva.

Baixa na popularidade eleva o otimismo no mercado brasileiro – já que há discordância em relação à condução da economia, principalmente a fiscal, num país onde o cenário macroeconômico afeta mais o desempenho da renda variável do que o micro, ou seja, o desempenho das companhias listadas.

Melhores e piores desempenhos

As companhias que puxaram o Ibovespa no bimestre foram os setores financeiros e de commodities, este último marcado pelo desempenho de Petrobras e Vale no período. A petroleira, contudo, reportou ao final de fevereiro um prejuízo de R$ 17 bilhões no quarto trimestre do ano passado – o que refletiu no Ibovespa na última semana de fevereiro.

“A curva de juros afeta, o risco fiscal também [a economia], mas quando a gente olha para as empresas, o cenário não está tão caótico”, avalia Amaral, do Inter. Além dos setores financeiros e companhias de commodities, as empresas de utilities (energia, saneamento, gás) e do imobiliário também foram bem no bimestre.

O Índice Financeiro (IFNC) avançou 7,6% no bimestre; o das construtoras (IMOB) teve alta de 10,6% (até o dia 27 de fevereiro, dado disponível); e o Índice de Utilidade Pública (UTIL) subiu 9,5%. “Nota-se que os investidores buscaram empresas de maior resiliência aos impactos macroeconômicos, que costumam pagar dividendos e têm liquidez”, observa, ainda, o analista do Inter. Entre as companhias que atraíram menos os investidores no bimestre estão as ligadas a consumo e materiais básicos.