Tarifaço de Trump 2.0 deve afetar siderúrgicas brasileiras com mais força que no primeiro mandato

Em seu segundo mandato no comando da Casa Branca, Donald Trump tem reforçado sua política de tarifas à importação de produtos estrangeiros, o que incluirá também o aço e o alumínio. As tarifas, de 25%, indicam postura similar à adotada em 2018 por Trump. Os impactos, no entanto, podem ser mais intensos considerando as atuais condições econômicas e o maior ímpeto do presidente dos EUA por tarifas, afetando negativamente companhias como CSN, Usiminas e CBA, enquanto Gerdau deve se beneficiar.
Em março de 2018, o Republicano anunciou tarifas de 25% sobre a importação de aço e de 10% sobre a de alumínio. Desta vez, haverá uma aplicação de taxas de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio para os Estados Unidos, a partir de 4 de março. A medida é relativamente similar ao que foi aplicado em seu primeiro governo, mas Trump permitiu em 2018 que os países solicitassem inclusão em uma lista de exceção, como foi o caso do Brasil, que se beneficiou de um esquema de cotas de exportação, o que não se sabe ainda se haverá agora.
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Especialistas dizem, no entanto, que o republicano está ancorando a negociação em um patamar bem acima do que ele realmente espera e que deve haver negociações. A taxação deve afetar o Brasil, já que boa parte das exportações de aço do país vão para os EUA, tendo o Brasil sido o segundo maior fornecedor do produto para o país em 2024, conforme a Administração de Comércio Internacional do governo dos EUA.
Ainda é cedo, no entanto, para mensurar os impactos, e é possível que ele esteja aberto a negociações que sejam mais benéficas aos EUA, como o que ocorreu com México e Canadá, em que a taxação foi adiada por acordos feitos com os países, segundo especialistas.
De imediato, antes da comunicação oficial, a possibilidade de tarifação destes metais que vão em direção ao país norte-americano afetou as ações das siderúrgicas brasileiras no começo desta segunda-feira (10), mas voltaram a subir no decorrer do dia. “Podemos observar pressão nas margens destes negócios que já haviam enfrentado um cenário difícil nos últimos meses”, lembra João Abdouni, analista da Levante Inside Corp.
Para Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos da Star Desk, em um primeiro momento, com a taxação, papéis como Vale, Gerdau, Usiminas e CSN devem sofrer um impacto direto com a queda das ações até que os cálculos definitivos sejam feitos. “Vendemos para os Estados Unidos, mas temos outros mercados.”
A Vale, que já vem com bastante dificuldade de melhorar seu desempenho na bolsa e deve tomar o primeiro "susto", também pode ser afetada indiretamente pelas tarifas, visto que o principal destino dos embarques de minério de ferro é a China, principal alvo dos EUA nas taxações. No entanto, os efeitos na mineradora, segundo Igor Guedes, analista de mineração da Genial Investimentos, são maiores em relação à taxação direta dos produtos chineses do que do aço e do alumínio.
“Se olharmos a reação dos papéis na Bolsa, a Vale, a qual é a empresa mais exposta ao cenário macroeconômico chinês, não caiu. Entendemos que o que dificultaria a vida dela é a primeira medida que Trump já fez, a taxação de 10% para quaisquer produtos chineses. Agora, o mercado esperava bem pior”, comenta o analista da Genial, citando que o Brasil exporta mais aço bruto do que a própria China, consequentemente, o que impactaria muito mais as siderúrgicas chinesas, e tão logo, a demanda por minério de ferro da Vale, seria justamente taxar o produto chinês.
Em contrapartida às siderúrgicas que devem sofrer, aponta Abdouni, da Levante, a Gerdau, que tem cerca de 50% dos seus resultados vindo das operações dentro dos EUA, poderá se beneficiar das políticas de Trump com um crescimento de suas operações por lá.
Trump 1.0 versus Trump 2.0

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O cenário espelha parte do que houve no primeiro mandato de Trump, mas o chamado “Trump 2.0” promete vir com mais força em alguns quesitos, entre eles, a taxação, ainda que o republicano seja citado como instável e tenha voltado atrás em decisões de tarifas ao México e Canadá, por exemplo.
No primeiro mandato, quando anunciou as tarifas, em março de 2018, as siderúrgicas brasileiras caíram. A GGBR3, ação ordinária da Gerdau Metalúrgica, holding que controla a Gerdau S.A, caiu 2,66% no mês, enquanto CSNA3 despencou 13,30%, USIM3 desvalorizou 5,96% e Vale perdeu 5,24%.

Guedes, da Genial, lembra que em 2018 Trump anunciou a tarifa para todo mundo e pouco depois revogou para alguns países. Inclusive, justamente para aqueles com posição no top 5 dos maiores exportadores, lista que inclui Canadá, Brasil, México, Coreia do Sul e China.
Em 2018, a Vale fechou o ano com ganhos, assim como a Gerdau, enquanto Usiminas fechou praticamente no 0x0, diz Sant'Anna, da Star Desk. "Os impactos são sentidos pontualmente, depois as empresas se ajustam. Nossas empresas, em especial a Gerdau, que tem fábricas de aço nos EUA, conseguem se proteger dessas tarifas ou ajustar a rota", opina.
Embora a mesma medida seja replicada este ano e boa parte da demanda das siderúrgicas seja interna, dadas as condições econômicas e a pressão que o setor vem sofrendo, as tarifas de Trump 2.0 prometem pressionar mais que da última vez.
“Dessa vez, parece que o Trump vem com uma vontade, um ímpeto maior por tarifas. Ele coloca as tarifas como um diferencial competitivo para os EUA, no sentido de que vai forçar os países a virem para a mesa de negociação por acordos melhores para os EUA”, comenta Hudson Bessa, professor de Mercado Financeiro e economista na Fipecafi.
“É possível que seja pior desta vez, porque a rentabilidade, hoje, do setor, dentro do Brasil, está pior do que no primeiro mandato. As movimentações que vemos dos players nacionais é realmente uma tendência maior de exportação do que vimos há cinco, seis anos. Quando olhamos essa disposição, faz uma diferença”, aponta Guedes, da Genial.
O consumo doméstico, segundo o analista, é muito mais relevante do que as exportações para a grande maioria das usinas, no entanto, essas vendas externas eram uma válvula de escape para escoar o volume que a demanda interna não absorvia, o que pode ser dificultado agora.
Mas os efeitos negativos não devem ficar apenas nas brasileiras. O próprio EUA pode sofrer com as medidas por dois motivos: pode ter algum efeito nas exportações de carvão, utilizado por siderúrgicas brasileiras, e pela pressão na inflação do país.
Com as tarifas para quem está exportando para os EUA, os produtos vão entrar no país mais caros. No caso do aço, por exemplo, obviamente, vai refletir no preço da produção, encarecendo os carros e outros produtos, o que vai ter impacto na inflação. Essa inflação pode, inclusive, forçar o Fed a rever sua política monetária e voltar a aumentar os juros, revisitando o risco de recessão, lembra Bessa, da Fipecafi.
Já em relação ao mineral, a importação de carvão dos EUA pelo Brasil não é muito grande e há outras opções interessantes, mas olhando pelo lado norte-americano, o impacto é mediano, segundo Sant’Anna, da Star Desk.
Parceiro chinês
Segundo os especialistas, ainda que o país asiático seja o foco principal das tarifas dos EUA, a China deve seguir sendo um parceiro importante para o minério de ferro brasileiro.
Sant’Anna, da Star Desk, também afirma que o Brasil não tem condições de mudar a rota das commodities tão rápido, visto que há contratos, obrigações e entregas comprometidas, portanto, a China deve seguir como parceira, inclusive das siderúrgicas. “A proximidade dos governos também dificultaria um plano B, já que o Brasil é um dos principais parceiros do BRICS. Trump está certamente de olho nisso e vai tentar reduzir os planos da China com o Brasil, pois fortalecer e abastecer o dragão asiático é péssimo para os planos americanos de manter sua hegemonia comercial”, lembra.
A China pode, ainda, ser uma grande beneficiária ao acolher mercados que hoje estão se direcionando para os EUA. “A China também tem reservas trilionárias de dólares, então abre um espaço para ela até usar esses recursos para costurar novas parcerias”, opina Bessa, da Fipecafi, dizendo que o mundo é dinâmico e que, nas novas alianças vão surgir, a China se coloca aqui como um player que tem muito a ganhar.
Outro fator importante a ser monitorado, lembra Guedes, da Genial, é que Trump já havia anunciado a tarifa de 10% a todos os produtos chineses. Ainda não se sabe, no entanto, se os 25% sobre o aço vai se somar aos 10% ou se haverá um abatimento da alíquota.
*Esta matéria foi atualizada terça-feira (11) às 9h com a informação do decreto oficial da tarifa ao aço e ao alumínio importados


