Gestores veem cenário ainda incerto mesmo com politica tarifária light dos EUA

O ano de 2024 começou para os mercados melhor do que se imaginava, com uma política tarifária mais light do governo de Donald Trump nos EUA em relação ao esperado, mas o impacto ao longo do ano na economia americana e no mundo ainda divide opiniões. Um dos painéis durante o CEO Conference 2025, promovido pelo BTG Pactual, reuniu CIOs das gestoras Absolute, Kapitalo, Legacy e Clave para debaterem a visão macro para o ano de 2025 e reflexos nas estratégias de alocação. Há, na visão dos executivos, dúvidas importantes tanto na direção da economia global quanto na doméstica, cujos rumos não são claros.
Na abertura do painel, o CEO do BTG Pactual e moderador do debate, Roberto Sallouti, lembrou os últimos anos desafiadores para o Brasil e o mundo, pontuando a mudança de expectativa após a eleição de Trump. “Viramos o ano com Trump eleito, preocupação com juro americano, com o fiscal e a inflação dos EUA, e uma guerra fiscal, mas após a posse, as tarifas viraram mais uma ferramenta de negociação, o que acalmou o mercado como um todo. Além disso, a chegada do DeepSeek mudou um pouco o cenário, aquele ‘sugador de recurso’ dos EUA se espalhando pelo mundo, o que é positivo”, descreveu Sallouti se referindo ao cenário atual. O executivo do BTG acrescentou, como pano de fundo para a visão macro de 2025, a iniciativa do DOGE (Departamento de Eficiência Governamental), que “ninguém entende ainda qual efeito vai ter”, mas que pode ter efeito na economia americana.
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O CIO da Legacy Capital, Felipe Guerra, está otimista em relação ao cenário global e acredita que os EUA vão caminhar na direção correta, após “anos de governo de esquerda, intervencionista”. Animado também com os efeitos do DeepSeek, Guerra projeta inflação global e juros em redução ao longo do ano. “De forma geral, é um pano de fundo otimista com global. Economia terá crescimento mais soft, o que será bom para todos. Afasta a possibilidade de o FED ter que debater alta do juro.” A Legacy Capital, neste momento, tem posições táticas aplicadas em juro, mas de curto prazo.

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Sobre o evento do Saque Aniversário do FTGS, com o presidente Lula prometendo liberar recursos do fundo para os trabalhadores, Guerra reforçou a dificuldade na condução monetária versus econômica. “Se o governo pisar no acelerador (liberando recursos), o Banco Central não pode parar de subir juros. Começa a bater a popularidade com inflação alta, carnes, agora ovo, e o governo está procurando reverter, isto é perigoso”, afirma o executivo. “A gente usa aquela expressão que é meio que o macaco no Airbus. Você coloca o macaco no Airbus e ele começa a apertar todos os botões ali, o avião vai a qualquer lugar e não sabe onde vai parar.” Sobre as posições da Legacy Capital, o executivo destacou comprada em bolsa e aplicado em juros, pelo crescimento mais soft na economia americana.
O CIO da Absolute Investimentos, Fabiano Rios, é cauteloso na análise global por “percepções e assimetrias do que estão por vir”. “Na Absolute, ganhamos comprado em bolsa americana, no call do excepcionalismo da economia. Agora, vejo preços diferentes da época, o S&P com múltiplos altos, margem de segurança menor, dólar valorizado”, comenta Rios, que considera incerto o cenário para bolsa. “Não questiono a excepcionalidade da economia americana, mas a margem de segurança com múltiplos tão altos está menor.”
Sobre as posições no mercado investidas pela Absolute, Rios lembrou que o Brasil pode ficar para trás se “fizer o que parece que vai fazer”. “É uma situação difícil e, em vez de fazer uma posição de Brasil, preferimos espalhar posições. Gosto de aplicar juros lá fora. O ponto de entrada é bom, as vals estão muito baixas tanto para juros como moedas, e acho que você consegue ter uma alavancagem grande.” A casa tem posições contra o dólar frente ao iene, ao dólar australiano e um pouco em euro. “Na outra ponta, acreditamos em dólar forte frente à rúpia indiana.”
Na Kapitalo Investimentos, há posições compradas em inflação e, na parte externa, aplicada em EUA, porém com mais cautela. “Eu tenho mais medo de tarifa e um pouquinho mais de medo das consequências, não consigo ter tanta convicção”, comenta o sócio fundador da casa, Carlos Woelz. Sobre Brasil, o executivo lembra que a Kapitalo carrega pouco risco na carteira, citando moedas.” Esta parte de tarifas globais é muito importante. Vejo tanto a possibilidade de fechar um deal com China, cenário otimista, quanto de criar um bloco anti-China. Tudo pode ter um impacto gigante na moeda brasileira e tenho menos segurança do que os meus colegas e prefiro esperar.”
Na Clave Capital, destaca o sócio fundador Rodrigo Carvalho, o “top trader é relativo” porque o risco que a casa assume neste momento é baixo. “Na parte global, tem esta tendência desinflacionária apesar dos ruídos causados pela questão tarifária. No Brasil, estamos começando a nos expor aplicados em algumas regiões e o tema que a gente está olhando com carinho para se expor mais é explorar esse movimento da curva de juro real, tentando neutralizar o beta. Não é momento de estar comprado de peito aberto no Brasil”, comenta Carvalho.
