Demanda de alimentos deve elevar apetite do agro por crédito, mesmo com juros altos
Apesar de o grande volume de recursos da atual safra 2024/25, que está em andamento, já ter sido contratado, os gestores da Faria Lima esperam uma elevação de demanda por recursos por parte do agro, ao longo de 2025, em comparação com temporadas recentes. A alta na demanda por alimentos incentiva a produção desta safra corrente (2024/25) e, principalmente, garante a busca por crédito para a compra dos insumos visando o próximo ciclo produtivo no campo (2025/26) – vale ressaltar que as temporadas agrícolas têm início em setembro de cada ano, a partir do cultivo de soja.
Há, contudo, um desafio. O alto patamar de juros para o tomador chega em um timing desfavorável, já que o campo enfrentou desafios recentes de clima (que afetaram a produtividade de culturas) e da queda de preços de commodities, sobretudo de soja, fatores que bateram no caixa. Somente o cultivo de soja da próxima temporada (2025/26) deverá demandar R$ 250 bilhões, de acordo com cálculo feito por um agente do mercado agrícola para a Capital Aberto.
Conheça os impactos das Resoluções CVM 214 e 175, garantindo segurança e conformidade jurídica no curso “Fiagro e a Resolução 214”
Segundo a fonte, cerca de 25% das necessidades de fertilizantes dos produtores do Centro-Oeste para o cultivo do grão no segundo semestre deste ano já foram negociadas. Desse modo, o produtor agrícola ainda precisará equacionar, apenas em soja, um valor de cerca de R$ 187,5 bilhões, ou 75% do volume de recursos. Com a alta no patamar de juros, as compras de insumos para a produção da cultura deverão começar com um pouco de atraso, a partir de maio. Em condições melhores de cenário e caixa, o agricultor faz as compras com uma janela bem maior de antecipação.
“Apesar de o grande volume desta safra corrente (2024/25) já ter sido contratado, o próprio imbróglio causado pela suspensão das contratações de novos financiamentos com subvenção federal expõe a demanda ainda existente por crédito no campo”, comenta Felipe Greco, gestor de Fiagros da Kinea. O imbróglio ao qual Greco se refere elevou a temperatura entre o campo e Brasília nos dez últimos dias de fevereiro. Em 21 deste mês, o Tesouro Nacional suspendeu a subvenção a juros em linhas do Plano Safra, mas o governo federal divulgou Medida Provisória (MP) que, aparentemente, ao menos, parece ter contornado a questão.
O volume liberado, de R$ 4,1 bilhões, garante, de acordo com o governo, juros subsidiados para alavancar um volume de R$ 50 bilhões em empréstimos a partir de agora. O campo está em época de cultivo do milho safrinha, a principal safra do cereal, que, como a soja, é carro-chefe da produção brasileira. É relevante porque também serve de matéria-prima para as rações das cadeias de produção animal – bovinos, suínos e aves. Impacta, inclusive, o preço dos ovos – cujos preços têm sido alvo do discurso do presidente Luis Inácio Lula da Silva.
De acordo com agentes do agro, 60% da área da safrinha de milho já foi cultivada e somente “produtores retardatários” demandarão crédito especificamente para essa cultura a partir de agora. Afora o restante da safrinha de milho a ser plantada, caminham nos próximos meses as outras culturas da safra de inverno e seguem também em curso as atividades em pecuária de corte e de leite, lembra Antonio da Luz, economista-chefe da Ecoagro. “O agro demanda crédito o ano todo”, reforça Luz.
Mais mercado de capitais?

PUBLICIDADE
Greco, da Kinea, diz que a atual situação fiscal aumenta a preocupação do agro em relação ao financiamento da próxima safra. “Entretanto, já vem sendo uma tendência ao longo dos últimos anos a redução dos subsídios explícitos e da ampliação das operações a taxas de mercado, com os recursos públicos sendo mais direcionados aos pequenos e médios produtores”, diz. Mesmo que mais custoso, o mercado de capitais é uma solução estrutural para o setor, reforçam gestores.
“Atualmente, um plano safra distribui 25% de recursos a juros mais acessíveis aos produtores em razão da equalização do Tesouro e, aproximadamente, 75% são recursos livres, ou seja, emprestados a juros de mercado”, diz Luz, da Ecoagro. Ou seja, segundo o economista, para cada R$ 4,00 daqueles recursos, R$ 1,00 é subvencionado – e a maior parte é destinada à agricultura familiar. O plano safra 2024/25 financiou R$ 476 bilhões, sendo R$ 133,6 bilhões desse total financiado com descontos em juros via equalização do Tesouro. Calcula-se, grosso modo, que o agro demande três vezes a soma financiada via linhas do plano safra.
Fiagro-FIDC em alta
Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) indicam que o ano começou em alta na demanda setorial por crédito via mercado de capitais. Em janeiro último, as ofertas de Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagro) totalizaram R$ 1 bilhão, alta de 159,1% na comparação com a média mensal de R$ 403,3 milhões de 2024 – mesmo com os recentes problemas observados em Fiagros devido a agentes que entraram em recuperação judicial. Em janeiro do ano passado, as emissões haviam somado R$ 75,4 milhões.
O último boletim da Companhia de Valores Mobiliários (CVM) sobre o agro reforça o cenário: o volume financeiro do agro obtido via mercado de capitais chegou a R$ 539 bilhões em dezembro de 2024, em comparação a R$ 479 bilhões um ano antes.
Werner Roger, diretor de investimentos da Trigono Capital, pondera que os recursos são obtidos principalmente, ainda, por atores de maior porte. “Esses agentes estudam com seus bancos, com seus gerentes financeiros, os recursos que serão, basicamente, intermediados e usados como capital de giro”, afirma. Os pequenos e médios produtores terão um ano à frente um pouco mais desafiador diante do atual patamar de juros.
“O cara mais articulado vai conseguir, o mais apertado vai ficar muito apertado se ele não negociou o recurso de que precisa na totalidade. Ele vai ter dificuldade em pegar crédito. Muda um pouco de acordo com o nível de governança”, comenta Guilherme Grahl, responsável pela área de agronegócios da Valora.
Os agentes de porte médio a pequeno costumam buscar crédito nas cooperativas ou distribuidoras e indústrias de insumos, que financiam clientes. “Nestas janelas estão as oportunidades de recursos para financiamento de giro”, continua Grahl. Ele lembra que, contudo, essas estruturas também acabam por buscar o mercado de capitais para estruturarem operações de funding.
Observadas as ferramentas disponíveis, o destaque em janeiro (na comparação com igual mês do ano passado) ficou com ofertas de Fiagros-FIDC, com cinco operações, seguida por Fiagro-FII (Fundos de Investimento Imobiliário), com uma operação; e também uma de Fiagro-FIP (Fundo de Investimento em Participações).
“Temos um lema na Ecoagro: primeiro temos que entender o problema, a necessidade e as condições do originador, para somente então estudar quais veículos podem atender de maneira mais eficiente à demanda daquele que bate na porta. Há CRAs, FIDCs, Fiagros, Fiagros-FIDCs e mais uma sopa de letrinhas. O CRA, com certeza, sempre é outra boa alternativa”, finaliza Luz.


