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Ata do Copom prevê estouro da meta de inflação e destaca preocupação com alta de alimentos

Amanda Meneses

O Banco Central divulgou nesta terça-feira (04) a ata da 268ª Reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), ocorrida nos dias 28 e 29 de janeiro. O documento reforça a dificuldade da conjuntura econômica, mas também revela que as expectativas de inflação se elevaram de forma significativa e demonstra preocupação com preços de alimentos, além de possíveis impactos das políticas estadunidenses nos ativos domésticos.

“O ambiente externo permanece desafiador, em função, principalmente, da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, o que suscita mais dúvidas sobre os ritmos da desaceleração, da desinflação e, consequentemente, sobre a postura do Fed”, diz o Comitê, no início da ata.

“Sem grande alteração em relação ao comunicado da semana passada, buscando tom mais neutro ao elaborar sobre o balanço de riscos para atividade doméstica (que ele colocou como risco baixista para a inflação) e do externo (que ele argumenta que as caudas passaram a ter mais peso); de todo modo, ele segue sem guidance para as reuniões depois de março”, comentou Leonardo Costa, economista do ASA, em nota.

Apesar de o conjunto dos indicadores de atividade econômica e do mercado de trabalho terem apresentado dinamismo na economia doméstica, o cenário de inflação segue desafiador em diversas dimensões, segundo o BC. A preocupação é que, caso a inflação persista, o indicador de 12 meses pode ficar novamente acima da meta, como ocorreu em 2024.

“Em se concretizando as projeções do cenário de referência, a inflação acumulada em doze meses permanecerá acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta nos próximos seis meses consecutivos“, destaca a ata da última reunião do comitê.

A ata do Copom destaca a preocupação com um risco à alta da inflação relativo à condução de políticas econômicas interna e externa, com impacto por meio da taxa de câmbio. “O Comitê acompanhou com atenção os movimentos do câmbio, que tem reagido, notadamente, às notícias fiscais domésticas, às notícias da política econômica norte-americana e ao diferencial de juros. A consecução de determinadas políticas nos Estados Unidos pode pressionar os preços de ativos domésticos”, diz o comitê no documento.

Alimentos

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O comitê também ressaltou a alta dos preços de alimentos, que se elevaram de forma significativa, em função, dentre outros fatores, da estiagem observada ao longo do ano e da elevação de preços de carnes, também afetada pelo ciclo do boi. “Esse aumento tende a se propagar para o médio prazo em virtude da presença de importantes mecanismos inerciais da economia brasileira”, aponta a ata. 

Costa, do ASA, diz que o Copom ponderou mais o balanço de riscos, que ainda considera assimétrico e com maior chance de inflação acima do cenário-base. “A desancoragem das expectativas, o aquecimento da economia e a política econômica externa seguem como riscos altistas, especialmente via taxa de câmbio”, comenta.

Por outro lado, diz o economista, os riscos baixistas perderam força, mas há preocupação com uma possível desaceleração da economia doméstica mais intensa, agravada por condições financeiras mais restritivas. “O cenário externo tornou-se mais incerto, aumentando a probabilidade de choques inflacionários em ambas as direções”.

O ponto mais importante da Ata, segundo Luis Cezario, economista-chefe da Asset 1, foi a discussão mais detalhada sobre a avaliação do comitê a respeito da atividade econômica. “Achei a análise ponderada, e com a preocupação de desfazer a percepção de parte do mercado de que a inclusão do risco de uma desaceleração mais acentuada da atividade como um risco baixista para a inflação seria um sinal de que o Copom estaria preparando uma guinada mais dovish para a política monetária”, comenta.

O economista cita que a ata foi bastante clara no diagnóstico que o Copom tem sobre a atividade. Após um período de dados mais fortes, o comitê passou a ver sinais incipientes de desaceleração em setores mais sensíveis ao crédito.

“Mesmo assim, o comitê avaliou que é prematuro ter conclusões com poucos dados e que há fatores atenuantes que devem ser levados em consideração. Além disso, a ata reforçou que o cenário base do Copom contempla uma desaceleração da economia e que isso é necessário para a redução da inflação”, diz.

Outro ponto interessante da ata citado por Cezário é a dedicação de uma parte maior para a discussão dos riscos presentes no cenário externo. “Há o reconhecimento de maior incerteza com a implementação das políticas do governo Trump, sobretudo em relação às tarifas de importação e à imigração, e a avaliação de que poderemos vivenciar um período de maior volatilidade nas taxas de câmbio”.

De fato, a ata indicou que as preocupações com as mudanças nas políticas americanas ganharam relevância nas discussões sobre a política monetária. “E as idas e vindas que o governo Trump teve sobre as tarifas nos últimos dias mostram que o COPOM está correto nesta avaliação”, opina o economista da Asset 1.