$TRUMP perde fôlego, mas atrai investidores para o sistema e finca espaço no universo cripto

$TRUMP, a criptomoeda lançada em 17 de janeiro pelo presidente americano Donald Trump, chegou a valer pouco mais de US$ 70 na semana passada – mas, desde então, despencou. Nesta segunda-feira (27), valia pouco mais de US$ 27 ao final da tarde. Apesar disso, para uma memecoin (como são chamadas as criptomoedas inspiradas em memes ou piadas que circulam nas redes sociais), a ascensão do ativo foi meteórica: considerada a cotação de ontem, os 200 milhões de $TRUMP disponíveis representavam cerca de US$ 5,5 bilhões em valor de mercado. No preço auge, a moeda captou US$ 14 bilhões.
Mesmo arrefecendo dez dias depois de lançada, contudo, a moeda digital do republicano ainda ocupava nesta segunda-feira (27) o 26º lugar no top 100 do ecossistema das criptomoedas – o qual inclui o Bitcoin (benchmark), outcoins (como Ethereum e Solana), stablecoins (as quais têm lastro em ativos da economia real, como dólar e ouro) e outras memecoins. “Isso é muito para uma memecoin, sobretudo para uma que tem só duas semanas. É um grande feito porque é popular. O mercado a conhece”, resume Matheus Gutierrez, analista da Levante Crypto.

Analistas consultados pela Capital Aberto destacaram que é preciso ter “visão aberta” diante do feito, considerado um fenômeno de captação por gestores ouvidos. “A memecoin dele até pode não ter muita utilidade, mas isso é agora. Trump pode dar benefícios para quem é detentor dessa moeda, por exemplo. Não é possível saber o que vai acontecer porque vivemos um nível absurdo de inovação no universo dos tokens”, opina Marcello Cestari, especialista em fundos de criptoativos da Empiricus Gestão.
A próxima leva de tokens $TRUMP será “despejada” no mercado três meses após o lançamento, portanto, em abril desembarcarão mais 360 milhões de moedas digitais com a imagem do republicano no universo de moedas digitais. Posteriormente, e de forma gradual, a cada três meses serão lançados mais lotes, até totalizar 1 bilhão de moedas. Hoje circulam 20% do total dos ativos.
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Os 80% restantes estão nas mãos da CIC Digital, uma afiliada da Trump Organization, e de uma companhia co-proprietária da CIC, batizada Fight Fight Fight. Quando foram lançadas, as moedas valiam US$ 0,18 em corretoras descentralizadas e US$ 7 nas tradicionais, segundo a Levante.
“O que Trump fez foi monetizar o poder midiático dele”, avalia Alexandre Vasarhelyi, sócio fundador e CIO da B2V Crypto. Mais: com o ativo, Donald Trump acabou por empacotar não apenas a sua imagem, mas, junto dela, o poder da maior economia do mundo, em um formato de figurinhas – fato que gerou (e ainda gera) um extenso debate ético. Embora a cotação esteja em baixa desde o seu lançamento, contudo, o comportamento do ativo estará atrelado à popularidade do republicano – um fator nada previsível.
“A meu ver não é uma moeda consistente. Mas chegou a um patamar que moedas digitais com mais fundamento não conseguiram”, pondera Gutierrez, da Levante. Ele diz ainda que, caso Trump ponha em prática alguma política que venha a beneficiar o mercado, por exemplo, a moeda tende a flutuar e fazer preço de maneira tempestiva e pontual.
No longo prazo, como o republicano não pode ser reeleito, a imagem dele deverá esvair-se (refletindo no preço do ativo), opinam gestores. Não é possível avaliar agora como a marca de Trump para o universo das criptos ficará retratada. O fato é que se trata do primeiro presidente a abraçar o segmento. Um passo importante já foi dado na semana passada. No dia 23, o republicano apresentou o decreto de regulamentação das moedas – uma de suas primeiras medidas como presidente. O documento sugere, ainda, criar uma reserva nacional para os EUA em ativos digitais.

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“Para mim, o impacto que esse evento [lançamento de $TRUMP] tem no mercado de criptos ainda não está mensurado. É histórico porque, basicamente, o presidente dos Estados Unidos deu um aval para qualquer pessoa lançar um token”, continua Cestari, da Empiricus. “O governo poderá ter seu próprio token, os estados e as empresas de capital aberto também”.
Efeito FED
Por ora, contudo, o token $TRUMP teve um segundo grande recuo neste início de semana. O primeiro movimento que levou a uma queda significativa do ativo ocorreu poucas horas após o lançamento, quando lançadas $MELANIA e outros tokens representativos dos filhos do republicano. Segundo Gutierrez, da Levante, esse movimento levou capital para outras moedas da árvore genealógica da família, e deixou “nítido” para o mercado a “manipulação e especulação por parte da equipe” que lançou os ativos.
O segundo fato digno de nota, que ocasionou mais uma baixa significativa, ocorreu nesta segunda-feira. “Houve reação mercadológica geral de ativos, acompanhando a tensão pré-reunião do FED [Federal Reserve]”, disse o analista. Investidores saíram de ativos mais arriscados, o que inclui as criptos, e migraram para os de renda fixa às vésperas da definição da autoridade monetária americana.
Um milhão de investidores
Os investidores interessados em comprar a moeda estão plugados na plataforma da Solana, onde $TRUMP foi lançada. “Se vai ser bom ou não [para o investidor] a médio prazo não se sabe. Mas o lançamento dessa moeda trouxe gente para o ecossistema das criptos. Isso foi um impacto muito positivo para esse universo”, opina Axel Blikstad, CEO da B2V Crypto.
Vinícius Bazan, CEO da Underblock, casa de análise especializada em criptoativos, conta que nunca havia concedido tantas entrevistas como nos últimos dez dias. “Uma figura como a do Trump traz atenção para o mercado. Quanto mais pessoas relevantes falam sobre o tema, mais pessoas leigas vão querer conhecer daquilo”, comenta.
Um termômetro a observar é a base de endereços ativos da Solana – os endereços representam carteiras ou contas de usuários que realizaram pelo menos uma transação na blockchain. Entre 12 e 19 de janeiro (a moeda foi lançada em 17/01), a base da Solana saiu de 5,2 milhões de endereços ativos para 7,6 milhões, com uma alta de 46%.
Para a companhia, afora a valorização que ocorreu em sua própria moeda digital – a quinta colocada no top 100 de criptos –, houve um ganho em taxas pagas por transação (o que de fato remunera a rede). No mesmo período, a captação da rede saiu de US$ 4,6 milhões para US$ 31,3 milhões, um salto de 580%.
Ontem, o volume de endereços ativos na Solana era de 6,3 milhões, uma redução se comparado ao registro do dia 19, mas ainda superior ao período pré-$TRUMP em 1,1 milhão de endereços ativos – nem todos com $TRUMP no bolso necessariamente, vale dizer, já que a blockchain comercializa outros ativos.
Segundo a B2V Crypto, os investidores específicos em $Trump nesta segunda eram pouco mais de 720 mil pessoas. Via de regra são investidores pessoa física.
A movimentação na base da blockchain da Solana representou tanto os novos investidores em criptomoedas como, também, aqueles que já investiam em outras criptos e migraram capital para a memecoin.
Tanto Ethereum (a segunda no ranking das criptomoedas) como outras moedas consolidadas sofreram esse efeito, dizem as fontes consultadas. O reflexo sobre Bitcoin, a líder entre todas, é mais difícil de avaliar devido à quantidade de fatores que afetam a cotação da moeda benchmark.
“Houve aumento absurdo de capital para a blockchain da Solana e isso significa mais dinheiro circulando nesse ambiente. É mais dinheiro que pode ser investido em outros tokens ou em estratégias para produtos e serviços para nesse ambiente”, destaca Bazan, da Underblock.


