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Treasuries pressionam custo de bonds e companhias brasileiras podem segurar captações neste começo de ano

Amanda Meneses

Miguel Diaz, especialista da área de mercado de capitais - Renda Fixa do Santander Brasil
Miguel Diaz, especialista da área de mercado de capitais - Renda Fixa do Santander Brasil

Após um 2024 positivo para o mercado de bonds, os títulos de dívida emitidos no exterior, especialistas acreditam que 2025 reserva boas oportunidades para as empresas brasileiras que decidirem captar, embora haja fatores que dificultem o cenário, como a escalada do dólar. Ainda que, analisando apenas os custos e a cotação, possa ficar mais caro para emitir, o carrego tem compensado para as companhias que se arriscam, que têm optado por prazos mais longos.

O último ano foi muito bom para o mercado offshore, em volume de emissores e emissões, principalmente devido à sua alta consistência e da demanda das companhias brasileiras, segundo Miguel Diaz, diretor do Santander Brasil para a área de renda fixa externa. Este cenário pode se replicar em 2025, passada a agitação do mercado que se intensificou nas últimas semanas de 2024. Segundo Diaz, a demanda dos investidores por bonds brasileiros foi bem maior do que a oferta, chegando a US$ 80 bilhões.

“Não teve um catalisador específico. O que vimos foram as empresas que têm acesso a esse mercado aproveitarem para captar. O mercado local estava muito líquido, mas muitos emissores resolveram aproveitar o offshore que estava bem construtivo”, comenta o executivo do Santander, citando que a reta final do ano foi “mais estressada”. 


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Durante o ano passado, grandes nomes como Banco do Brasil, BTG, Raízen e Braskem se aventuraram nos bonds. Já nos primeiros dias de 2025, quem decidiu inaugurar as emissões externas brasileiras foi a JBS, que anunciou nesta segunda-feira (06) a precificação de emissão de bonds de 10 anos no montante de US$ 1,75 bilhão. 

Para Diaz, embora “o mercado offshore raramente feche”, ou seja, sempre haja demanda, com o stress gerado especialmente no final do ano com o descontentamento com o fiscal e a desvalorização do real, e que se estende aos primeiros dias de 2025, aquelas empresas mais vinculadas ou mais dependentes do macro brasileiro, que prestam serviço e apenas vendem no Brasil, se forem para o mercado offshore, “terão um pouco mais de história para contar”.

“Vão ter que sinalizar que o negócio não é tão sensível à taxa de juros, que é defensivo em relação à flutuação de PIB, que a política fiscal mais agressiva não afeta tanto. Por outro lado, as grandes exportadoras, empresas de papel e celulose, de proteína (carnes e frango), de mineração, todo esse pessoal está um pouquinho mais tranquilo”, diz, comentando que esse segundo grupo tem uma exposição grande ao exterior e o driver do negócio é mais da perspectiva macro, então não estão inseridos no estresse que está ocorrendo no mercado local.

Se essas empresas quiserem acessar o mercado no começo do ano, elas terão um caminho bem mais tranquilo, segundo Diaz. Prova disso foi a largada das emissões ter sido feita pela JBS, grande empresa de proteína animal que possui atuação também fora do país.

Pedro Frade Rodrigues, executivo responsável pela área de Renda Fixa Internacional do Itaú BBA, comenta que, para nomes que estão olhando taxas puramente em dólar e têm flexibilidade de manter o passivo em moeda forte, em dezembro 2024, houve um aumento nas taxas de emissão, porém grande parte desse movimento foi fruto da mudança na precificação dos títulos do tesouro americano.

Pedro Frade Rodrigues, executivo responsável pela área de renda fixa internacional do Itaú BBA
Pedro Frade Rodrigues, executivo responsável pela área de renda fixa internacional do Itaú BBA
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“Em outras palavras, o custo de carrego do caixa em dólar para essas empresas também melhorou. Para emissores que irão fazer o hedge da emissão para real, o cupom cambial tem mostrado uma correlação fortemente positiva com o tesouro americano, o que significa que o custo em reais da emissão pode ficar em patamares potencialmente atrativos”, diz o executivo do Itaú BBA. “Dito isso, assim como em 2024, emissores irão sempre comparar alternativas do mercado externo com o mercado local, bancário (aqui incluindo bancos de desenvolvimento e multilaterais), e outros, para tomar a decisão de onde se financiar.”

Para as empresas internacionalizadas, os custos já são vistos em dólar, sem conversão para o real. Mas, analisando a janela dos últimos três meses do ano das Treasuries dos Estados Unidos, a taxa de retorno livre de risco tem estado bem alta, o que obriga os emissores a pagarem um prêmio maior. “Esse grupo que é exportador e olha para o custo financeiro em dólar pode entender que ficou meio caro. ‘Deixa eu esperar um pouquinho mais, não preciso emitir’”, comenta o executivo do Santander. 

Enquanto isso, para o grupo que pensa em real, o encarecimento ou não da emissão depende muito de onde está o cupom cambial, que pode afetar muito na conversão do custo efetivo em reais. “Além de ter que explicar bem mais a história para o investidor, a hora que ele pega esse custo e faz o swap para reais, em CDI +, nas condições de mercado que vemos agora, esse custo sairia um pouquinho alto”, comenta Diaz, ponderando que esses mecanismos têm “vida própria” e que a decisão vai depender do cenário e de cada empresa.

Segundo o executivo, a lista de interessadas em emissões externas no começo deste ano foi diminuindo conforme as Treasuries subiram, os cupons cambiais caíram e os custos aumentaram. Ainda segundo Diaz, a volatilidade no Brasil pode tirar mais pares da corrida.

Com fatores como Trump nos EUA, um pouso talvez não tão suave do Federal Reserve e, no Brasil, perspectiva de juros a 14%, esse cenário pode não ser dos melhores. O positivo, segundo o head do Itaú BBA, é que ao longo dos anos houve um amadurecimento grande no mercado local em termos de prazo, volume, negociação secundária e aumentos de bolsos. Há opções para se financiar em 2025. Entre elas, os bonds. 

“Observamos um forte apetite pelo risco e uma procura contínua por emissões bancárias na América Latina, dado o desempenho positivo do mercado secundário, particularmente na dívida bancária do Brasil no final de 2024. Se esta tendência persistir, acreditamos que haverá um ambiente de mercado favorável à medida que avançamos em 2025”, disse também o Banco do Brasil, em resposta à Capital Aberto, completando que monitora o mercado de forma contínua, incluindo panda bonds, e avalia oportunidades para emissão conforme as necessidades de funding.

Novos entrantes e panda bonds

Outro destaque do último ano foi a emissão dos primeiros panda bonds, títulos de dívida emitidos no mercado chinês, realizada pela Suzano em novembro, com cupom de 2,8% ao ano e vencimento em novembro de 2027. A companhia captou o equivalente a US$ 167,9 milhões na primeira emissão do tipo em toda a América Latina. 

Embora este seja um mercado a ser olhado, por ora, ele caminha devagar. “Foi ótimo ver a primeira emissão de panda bonds. Esse mercado pode crescer, mas neste momento nos parece que a demanda por lá para nomes brasileiros ainda é predominantemente em opções de curto prazo (o que compete com o mercado bancário) e para nomes muito fortes. Mas será interessante continuar explorando essas alternativas”, opinou Rodrigues, do BBA.

Já o executivo do Santander, que não olha para esse mercado devido a questões regulatórias especialmente, menciona que, do pouco que acompanha, o segmento parece ter uma profundidade interessante e uma boa arbitragem, permitindo uma emissão a níveis bem competitivos. Para ele, embora essa seja uma fonte de funding que exista há muito tempo, agora que ocorreu a primeira emissão de uma empresa brasileira e a barreira foi quebrada, outros emissores têm até o dever de parar para olhar esse negócio de perto e é possível que isso ocorra.

Em relação a novas entrantes no mercado de bonds, em geral, o executivo responsável pela área de renda fixa internacional do Itaú BBA aponta que, em 2024, houve 4 novos entrantes e que pode haver outros em 2025 também, a depender do cenário. “Acreditamos que existe a possibilidade de emissores estrearem no mercado de bonds em 2025, mas será consequência de análise comparativa com os mercados local e bancário”, diz.