Super Quarta elevará o diferencial de juros entre Brasil e EUA, mas sem efeito no fluxo de recursos

A taxa Selic em 12,25% ao ano, nível considerado bastante restritivo, até aqui não tem surtido o efeito desejado de reprimir a demanda, desacelerando a economia e conduzindo a inflação oficial para o centro da meta de 3% - com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. A única variável que recentemente mostrou algum arrefecimento foi o câmbio, rodando abaixo de R$ 6,00. No pacote de fatores macroeconômicos do momento, não há motivos para surpresas na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) desta semana, que também terá a primeira reunião do Fed na gestão de Donald Trump – primeira Super Quarta do ano. Não há consenso sobre a decisão do Fed a respeito da taxa de juros americana, hoje entre 4,25% e 4,50% ao ano. Já o Copom deve elevar a Selic em um ponto percentual, a 13,25%, na quarta-feira (29).
Caso a taxa americana seja mantida, o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos subirá para 8,75 ponto percentual, nível que em outros tempos atrairia capital estrangeiro para o Brasil, melhorando o câmbio e o controle inflacionário. Operações de carry trade – com investidores tomando dinheiro a taxas menores em uma economia e emprestando a juros maiores em outra – sempre ganharam peso com diferenciais relevantes nas taxas, o que não ocorre neste momento.
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“Ainda não parece que vai entrar dinheiro. O argumento do diferencial de juros é válido, mas em situações de maior normalidade, falando da percepção de risco do Brasil”, comenta Marco Caruso, economista do Santander. “Os Estados Unidos ainda são um grande atrator de capital. Fora o diferencial de juros, nada mais ajuda, a percepção de risco do Brasil não colabora para atrair recursos.”
Marcelo Toledo, economista-chefe da Bradesco Asset, tem visão semelhante e lembra que, ao longo de 2024, havia a tese de que o efeito de atração de capitais seria menor do que historicamente. “Ainda assim, o que a gente viu no segundo semestre, que surpreendeu os modelos, foi um efeito ainda menor do que a gente imaginava”, comenta Toledo, acrescentando dois fatores que impedem um fluxo maior de dinheiro para o país. O primeiro é a excepcionalidade da economia americana, com juros altos e bom desempenho dos mercados acionários. “Investidores têm baixo interesse por emergentes. O segundo motivo é a pouca atratividade do Brasil ou uma aversão com um movimento de saída de investidores. O risco fiscal e esta conexão com expectativas de inflação alta não ajudam.”

Só em dezembro de 2024, a saída de dólares foi especialmente intensa na conta financeira, com US$ 28,8 bilhões deixando o país — o maior para um único mês da série histórica do BC, iniciada em setembro de 2008 — em plena crise financeira global das hipotecas subprimes. No ano, foram retirados do Brasil US$ 87,2 bilhões na conta financeira. Este ano, até o dia 22, o saldo financeiro segue negativo em US$ 7,07 bilhões. O dólar, que iniciou 2025 em alta, após a posse de Trump e de um movimento tarifário mais brando do que se esperava, vem caindo mundo afora. No Brasil, fechou sexta-feira (24) cotado a R$ 5,91.

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O arrefecimento do câmbio, praticamente a única das variáveis analisadas pelo Copom que sugere melhora, é insuficiente para mudar o rumo das projeções para a Selic – dois aumentos de um ponto percentual nas reuniões desta semana e de março. “No encontro de dezembro, a sinalização do Copom foi bastante firme, sugerindo duas altas de 100 pontos, o que deixa pouco espaço para alterar essa sinalização. O próprio Galípolo afirmou que a barra era muito alta para alterar essa decisão, esse guidance”, explica Toledo, da Bradesco, acrescentando que as expectativas de inflação seguem se deteriorando.
No boletim Focus de 10 de janeiro, a previsão era de um IPCA neste ano de 5%, ultrapassando a meta de inflação que é de 3% com 1,5 pp de margem de tolerância - há quatro semanas a estimativa era de 4,60% para o IPCA. Nos últimos cinco anos, o IPCA superou o centro da meta em todos os anos e só ficou dentro da banda superior tolerada nos anos de 2023 e em 2020. No ano passado, a inflação foi de 4,83%, acima do teto da meta. Um dos principais componentes da alta deriva dos preços dos alimentos. O grupo “Alimentos e Bebidas” do IPCA subiu 7,69% em 2024, após alta de apenas 1,03% no ano anterior. A alimentação no domicílio, especificamente, saltou 8,23%, após registrar deflação em 2023, de 0,52%.

Na visão dos economistas, uma melhora no cenário inflacionário e com arrefecimento na economia só virá a partir do segundo trimestre. “Continuamos com uma desancoragem das expectativas de inflação expressiva que pode ainda piorar, mas por agora não muda o guidance de um ponto percentual de alta”, comenta Caruso, do Santander, acrescentando que mesmo comunicações sobre outros movimentos mais à frente, após março, não devem ser feitas agora. Na visão do economista, as duas guidances já fornecidas pelo Copom dão tempo para que algum efeito dos juros e do câmbio se materialize, incluindo com um PIB mais fraco. “Mas antes disto precisamos de uma sequência de dados que favoreça, e não um ponto apenas.”
Este começo de 2025, na visão dos economistas, deve ser novamente de alta do PIB, pelo carrego do ano passado e pela perspectiva do bom desempenho do agronegócio. Na previsão do Santander, algum arrefecimento virá a partir do segundo trimestre, com PIB subindo perto de 0,2%. A asset também estima uma Selic encerrando o atual ciclo de alta em 15,5%, nível a ser atingido em junho. “Próximos movimentos dependerão do quão entupidos estão os canais de transmissão dos juros altos, dado que você tem uma política fiscal que sistematicamente pisa no acelerador, ainda que você pise no freio”, comenta Caruso.
Nas estimativas da Bradesco Asset, o Banco Central deve interromper a alta qundo a Selic chegar a 15%, aguardando novos sinais da economia. “Já vimos uma virada importante nos últimos meses, do crédito como um todo, em níveis mais condizentes com a política monetária. E que tende a desacelerar ainda mais” comenta Toledo, acrescentando que sinais da política monetária para além da reunião de março não devem ser dados tão cedo. “O juro vai a 14,25% e já é bastante restritivo, funcionou em outras oportunidades. Depois disto, sinalizações apenas se o Banco Central tiver uma convicção maior sobre a trajetória inflacionária.”
Sobre o risco de uma desaceleração mais forte do PIB, fruto de um erro na dose do aperto monetário pelo BC, até pelos efeitos defasados da política monetária, Toledo lembra que a maior parte do juro restritivo chega à economia entre 12 e 15 meses, e com os primeiros reflexos já a partir de seis meses. “É um risco que o Banco Central tem, todos os bancos centrais sempre enfrentam esse dilema, pode subir pouco e deixar a inflação alta ou subir muito o juro e, eventualmente, prejudicar além do necessário a atividade econômica”, explica o economista. Na visão de Toledo, o fato de a economia estar superaquecida reduz o risco de um desaquecimento maior do que o desejado. “Mas sempre existe.” No ano passado, o PIBencerrou o terceiro trimestre com crescimento de 3,1% anualizado, maior do que o primeiro e o segundo trimestre (1,4% e 3%, respectivamente).


