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M&A em seguros pode ter bom ano, a depender de percepção de valuation

Amanda Meneses

Adam Patterson, sócio da Redirection International

O mercado de seguros passou por um aumento global de operações de fusões e aquisições (M&A, no inglês) ao longo dos últimos cinco anos, movimento que perdeu força recentemente. Agora, especialistas veem o setor voltando a ser palco de transações. As perspectivas incluem a possibilidade de negócios entre empresas internacionais e brasileiras. As operações, contudo, estão condicionadas a uma resolução do descompasso de percepção de valuation das companhias.

O movimento positivo nos últimos anos não ficou restrito ao Brasil, embora no exterior seja um mercado mais consolidado. “Hoje, há várias tendências globais impulsionando o movimento, como tecnologias disruptivas, maior regulamentação, escala operacional, redução de custos e maior market share”, comenta Adam Patterson, sócio da Redirection International, especializada em assessoria de Fusões & Aquisições para empresas locais e internacionais em transações de middle market.


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Globalmente, há uma volta dos mega deals (grandes negócios, em português), tendência que ainda não tem sido tão vista no Brasil, segundo o executivo. “Na parte global, vemos deals mais impulsionados por valor, de maior qualidade do que quantidade, porque já teve bastante consolidação. Aqui, ainda não começou essa onda tão avançada”, diz Patterson. “No Brasil, vejo que estamos passando por um momento de transição, tem uma construção gradual. Mas há muita demanda para produtos-chave.”

Um levantamento da Redirection International sobre os M&A’s em seguros aponta que os players do setor estão cada vez mais focados em estratégias de consolidação, com grandes corretoras e seguradoras buscando negócios para construir plataformas de serviços mais abrangentes e ampliar sua cobertura geográfica. Outro fator impulsionador é a digitalização e a busca por soluções mais eficientes e personalizadas. 

No Brasil, segundo Patterson, entre os principais segmentos alvo das operações estão saúde privada, seguros rurais e seguros de garantia. Houve também um aumento de transações cross border, ou seja, que ultrapassam as fronteiras entre os países. Além de alguma verticalização no segmento, mas ainda não tão forte como a que ocorreu no setor de saúde.

Para o executivo da Redirection, o crescimento do mercado global de seguros ajuda a impulsionar o movimento dessas empresas globais vindo para o Brasil. No ano passado, por exemplo, segundo dados da KPMG, houve 23 operações de M&A em seguros no Brasil envolvendo empresas estrangeiras; 17 do tipo CB1, de empresa estrangeira adquirindo empresa brasileira no Brasil; 3 do tipo CB2, de empresa brasileira adquirindo empresa estrangeira no exterior; e 3 do tipo CB4, de empresa estrangeira adquirindo empresa estrangeira no Brasil. Já em 2023, esse total foi de 15 operações, todas do tipo CB1.

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“O mercado brasileiro é muito grande, sempre teve grandes seguradoras internacionais atuando. Algumas americanas diminuíram a sua participação, a Liberty vendeu, a UnitedHealth vendeu, mas temos certeza de que elas vão voltar a olhar o mercado. Ainda tem grandes seguradoras europeias, orientais, japonesas, principalmente, operando no Brasil. O mercado brasileiro é interessante”, afirma Fernando Mattar, sócio-líder de avaliação e modelagem financeira da KPMG no Brasil.

Fernando Mattar, sócio-líder de avaliação e modelagem financeira da KPMG no Brasil

Mattar comenta que o mercado de seguros esteve bastante aquecido há cerca de 4 ou 5 anos, com grandes transações de consolidação no setor de seguros, citando Allianz, HDI, grandes seguradoras comprando grandes grupos, e fusões como Rede D'Or e SulAmérica. 

Com esse movimento de consolidação que aconteceu há algum tempo, os modelos de negócio ficaram mais rentáveis, o que obviamente é interessante aos investidores. “E esse aumento de Selic acaba ajudando as seguradoras, porque é um modelo de negócio que consome muito caixa, consome muito capital, então tendo uma rentabilidade interessante nesse capital, associada ao ganho de escala, é uma boa operação, torna o mercado brasileiro bem rentável”, comenta o executivo da KPMG.

“Tivemos muitas transações no setor. Essas grandes transações, no último ano, um ano e meio, diminuíram. Muitas tinham ocorrido, quem comprou estava fazendo o trabalho de integração e você já tinha uma quantidade, uma opção de targets ou de empresas para comprar, menor. Isso trouxe uma certa desaceleração no número de transações e agora começou a crescer de novo”, diz.

O ambiente macroeconômico havia afetado as transações. A incerteza sobre a economia e os juros, e a alta do dólar, são alguns dos fatores que complicaram o cenário para todas as operações, não apenas para seguros. No entanto, as oportunidades parecem estar reaparecendo. 

Se por um lado o cenário ainda é um pouco cinzento devido à questão fiscal, dólar ainda alto e juros altos que afetam o custo de financiamento para as empresas, por outro, o crescimento nominal da economia continua crescendo e o emprego segue alto. “Você pode comprar um ativo agora e ele pode ficar mais barato depois. Tem muita volatilidade, muito barulho. Mas diria que tem demanda, conversas que estão em mandato. Ainda tem atividade”, opina Patterson, citando que tem muito risco no horizonte, mas também pontos positivos, principalmente focando em opções internacionais.

Para seguros, o executivo acredita que o momento agora é de reavaliar as oportunidades do mercado e aproveitar os diferentes valuations que continuam atrativos para avaliar o momento da aquisição. “Se fosse chutar, diria que o cenário está começando a ficar um pouquinho mais positivo para transação em seguro. Claro, tem muita oportunidade, mas também tem ainda risco. Acho que deve ficar um pouquinho mais claro a partir do primeiro semestre”, diz Patterson.

Já a KPMG está otimista, mas com ressalvas. Mattar afirma que há um aumento no interesse novamente, com os investidores e as grandes corporações olhando para o mercado. “Acho que um pouco do desafio aqui vai ser achar os targets e, eventualmente, uma questão de valuation. Sentimos que, no passado, algumas das transações não saíram porque ainda existia um descompasso de percepção do empresário ou da companhia em relação aos investidores estrangeiros”, diz. 

“Se a gente conseguir fechar um pouco dessa diferença, a tendência é que o M&A cresça bastante em fechamento. Acho que teremos muita operação de gente olhando, conversando, analisando. O fechamento, em si, dessas operações, vai depender um pouco desse cenário de interesses entre preço das duas partes”, finaliza o executivo da KPMG.