Após dois anos no vermelho, fundos revertem tendência e captam R$ 61 bi em 2024

A indústria brasileira de fundos de investimentos conseguiu, no ano passado, fechar com ingressos líquidos de recursos, puxados principalmente pelos produtos de renda fixa e pelos FIDCs. O setor vinha de dois anos seguidos de resgates líquidos, somando perda de R$ 235,6 bilhões (2022 e 2023). Os fundos acumularam no ano passado ingressos líquidos de R$ 60,7 bilhões, uma melhora importante mas ainda distante dos R$ 405,7 bilhões registrados em 2021, segundo balanço divulgado nesta terça-feira (07) pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
O patrimônio dos fundos (PL) cresceu 10% em 12 meses, chegando a R$ 9,2 trilhões. O número de fundos avançou um pouco, 2,7% para 31.761; o mesmo ocorreu com o número de gestores, que cresceu 4,4% entre os meses de dezembro de 2023 e de 2024, para 1.037 casas. Por classe de fundos, a melhora do ano passado se explica pela renda fixa, locomotiva do setor com R$ 243 bilhões captados. A continuidade das saídas líquidas dos Multimercados, que perderam R$ 356,7 bilhões no ano, mais resgates de R$ 10 bilhões nos fundos de ações, foram compensadas também pelo bom desempenho dos FIDCs. O produto estruturado captou no ano, em termos líquidos, R$ 113,5 bilhões.
“É basicamente reflexo de uma taxa de juros mais alta, de uma incerteza maior, o que leva os investidores a migrarem seus portfólios para produtos mais conservadores e que estão oferecendo uma rentabilidade bastante atraente dado o nível de juros”, comenta Pedro Rudge, diretor da Anbima.
O cenário descrito por Rudge também refletiu em outro dado apresentado pela Anbima, sobre a maior atratividade dos títulos privados em detrimento de papeis públicos federais. Entre dezembro de 2020 e igual período do ano passado, a participação dos títulos corporativos nos PLs dos fundos saltou de 8,9% para 16,4%; no mesmo período, os papeis públicos federais recuaram de 51,3% para 43,9%. “Fundos de renda fixa crédito privado que mais captaram, perto de R$ 113 bilhões, foram os de carteiras compostas com algo entre 50% e 60% de títulos privados”, comenta Rudge, acrescentando que houve lançamento de mais fundos da categoria. “É um pouco a resposta dos agentes de mercado a esse cenário de juros mais altos atendendo à demanda do investidor. A nossa expectativa é que 2025 continue um pouco nessa direção.”

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Dados da Anbima também mostram o crescimento importante dos fundos de infraestrutura, cujo patrimônio saiu de R$ 68,4 bilhões para R$ 183,4 bilhões.
Captação líquida
Os dados do balanço anual divulgado pela Anbima também mostram a captação líquida por tipo de investidor, porém em uma janela menor de tempo, até novembro de 2024. Na captação líquida acumulada por investidor, o segmento PJ (Corporate e Middle) puxam o movimento com R$ 172,1 bi investidos, seguido por Institucional (previdência, fundos, RPPS, seguradoras) com R$ 63,8 bilhões. Já o poder público e as pessoas físicas navegaram na direção contrária com, respectivamente, saídas de líquidas de R$ 26,5 bi e R$ 18,2 bi.
Agenda Anbima
Entre as propostas de trabalho da Anbima para 2025, informou a entidade, estão ações para fomento de fundos de índices, os ETFs, e os Fiagros, além de outros ativos como cripto e crédito de carbono. Também está na agenda de trabalho melhorar e simplificar a classificação dos fundos, desenvolver uma classificação de FIPs e Fiagros. “Isso para tentar ajudar o investidor a entender e separar cada estratégia e os seus objetivos”, explica Rudge, acrescentando a importância da consulta pública aberta pela CVM no final do ano, sobre FIPs. “Eles já vinham dando indicações de que queriam dar acesso ao investidor de varejo, flexibilizar determinadas regras, que nos parece fazer bastante sentido, e na autorregulação a gente também espera atuar no desenvolvimento de alguns temas.”
Sobre o mercado de ETFs, Rudge comentou a possibilidade de que o regulador autorize produtos de gestão ativa no Brasil, comuns no exterior. “A diversificação é importante, e nos parece que faz sentido termos aqui ETF passivo, ativo, setorial. Por ser um produto um pouquinho diferente dos fundos normais, por serem listados em Bolsa, o ETF guarda mais de similaridade com a ação. Nosso trabalho é o de disseminação do produto, educação do investidor.”
O mercado de ETFs no Brasil é ainda muito distante do americano, o que, na visão de Pedro Rudge, se explica pela fase ainda de amadurecimento local. “É um produto que facilita a vida do investidor, dá acesso a teses em outros mercados, mas precisa amadurecer ainda. Não acho que falta distribuição melhor. Primeiro, o mercado tem que ter bom produto, com boa rentabilidade e irá atrair o investidor, independentemente se o assessor, gerente oferece ou não”, acrescenta.


