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Com fim de intervenções e sem resolução sobre o fiscal, dólar pode chegar a R$ 6,50 no curto prazo

Amanda Meneses

Alexandre Viotto, diretor de mesa de câmbio da EQI Investimentos
Alexandre Viotto, diretor de mesa de câmbio da EQI Investimentos

A escalada do câmbio forçou o Banco Central a intervir nas cotações por meio de leilões desde dezembro e, embora a estratégia pareça não ter surtido efeito, especialistas dizem que, sem as intervenções da autarquia, a moeda poderia continuar subindo a um patamar entre R$ 6,25 e R$ 6,50. Essa cotação para a moeda americana, contudo, ainda é uma possibilidade no curto prazo: analistas de câmbio não descartam oscilação em um intervalo entre R$ 5,90 e R$ 6,50.

No início de dezembro de 2024, o valor das reservas internacionais do Brasil era de US$ 362,737 bilhões. Já em 3 de janeiro de 2025, o total havia caído em US$ 35,1 bilhões, para US$ 327,596 bilhões. O BC realizou diversos leilões no mês passado para conter a alta do dólar, tanto à vista quanto em linha. Estima-se que a autarquia tenha utilizado cerca de 10% das reservas do país nessas intervenções. Ao todo, segundo dados do BC, os 14 leilões de dezembro totalizam US$ 32,574 bilhões.


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Segundo Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas, os leilões do BC não têm surtido o efeito desejado porque o câmbio é influenciado por uma combinação de fatores internos e externos. “No cenário global, o fortalecimento do dólar e a instabilidade econômica em mercados emergentes pressionam a moeda local. Internamente, questões fiscais, políticas e a volatilidade dos juros dificultam a estabilização, limitando o impacto das intervenções cambiais do BC”. 

Além disso, o mercado pode interpretar as intervenções como insuficientes frente à magnitude das incertezas econômicas, especialmente com o foco na questão fiscal. Prova disso é que, além de notícias envolvendo as tarifas nos EUA, após o cancelamento das férias do ministro da Fazenda Fernando Haddad, a moeda deu uma arrefecida nesta segunda-feira (06), chegando a R$ 6,11 após um fechamento de R$ 6,18 na sexta-feira (3). Já nesta terça o dólar encerrou o dia em R$ .

“Um pouco dessa queda que tivemos de segunda para terça é, em parte, esperança do mercado com o cancelamento de férias do Haddad, da Simone Tebet. Tem várias coisas acontecendo, mas o retorno deles pode sinalizar alguma mudança, alguma tentativa de melhorar o fiscal”, comenta Alexandre Viotto, diretor de mesa de câmbio da EQI Investimentos. 

Para o especialista, embora pareça que o BC “enxugou gelo”, se não fossem as intervenções, considerando a preocupação fiscal e o cenário externo, o dólar já poderia ter alcançado patamar perto de R$ 6,50. “Tanto lá fora quanto aqui dentro, os cenários não são nem um pouco favoráveis para a moeda brasileira”. Segundo ele, por mais que o BC tenha gasto perto de US$ 33 bilhões há uma ‘conta de padeiro’ que diz que se gasta em torno de US$ 500 milhões de dólares para movimentar o dólar um centavo. “Para cada US$ 500 milhões, teria um centavo para baixo ou para cima, então se o Banco Central colocou US$ 33 bi ou US$ 34 bi, multiplicando por dois temos o tamanho da volatilidade que ele segurou”, diz.

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Viotto comenta ainda que tem ocorrido um movimento especulativo do mercado e que o receio de o BC entrar e forçar a cotação para baixo tem ajudado a manter a moeda nos patamares atuais. “Porque o especulador sabe que ele não fica batendo mais, apostando numa desvalorização, sendo que tem um outro player na outra ponta que também pode entrar a qualquer momento e baixar esse preço do dólar.”

Reservas internacionais

Sobre o nível de reservas do Brasil, o patamar em que o país está agora, acima de US$ 300 bi, historicamente tem se mostrado um colchão muito confortável, segundo Viotto. A visão é reiterada por Gusmão, da Ourominas, que lembra que o uso excessivo pode comprometer a confiança de investidores estrangeiros.

Segundo os especialistas, o ideal é que um país como o Brasil tenha algo equivalente a 10% ou 15% de seu PIB em reservas cambiais, respaldando assim possíveis choques externos. “Diante do histórico recente, o BC mostrou-se desconfortável com o nível do dólar acima do nível de R$ 6,19. Dessa maneira, caso ele venha a ganhar força e a moeda nacional demonstre disfuncionalidade frente aos seus pares, acredito que o BC vá atuar com o instrumento de leilão de dólar à vista para conter excessos de depreciação, diz Marcio Riauba, head da mesa de operações da StoneX Banco de Câmbio.

Marcio Riauba, head da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio
Marcio Riauba, head da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio

Limite do fôlego

As intervenções, no entanto, levantaram uma questão no mercado sobre até onde vai o fôlego dado pela entidade. Em relação ao quanto o BC deve gastar das reservas e até onde pode ir com os leilões, essa ainda é uma dúvida sem resposta. No entanto, analisando dados recentes, Riauba comenta que não deve extrapolar mais de 10% das reservas, a não ser que de fato a desvalorização do real saia de controle. “O que acho muito difícil de acontecer ao longo do ano”, diz.

Gusmão, da Ourominas, estima que de 10% a 15% das reservas podem ser usadas sem comprometer a credibilidade do país. “Mas o foco deve ser na gestão da volatilidade e não em segurar artificialmente o dólar”, lembra.

Considerando o cenário no país e no exterior, as estimativas dos analistas para o dólar após o término das intervenções do BC variam, mas todos acreditam que a autarquia deve continuar intervindo, se necessário. Para Gusmão, se a confiança no Brasil melhorar e os fatores externos se estabilizarem, o dólar pode recuar, mas em um cenário de incerteza fiscal e política, a pressão de alta pode prevalecer. “Estimo que o dólar poderia oscilar entre R$ 5,90 e R$ 6,20 no curto prazo, dependendo do ritmo das reformas e do cenário externo”, prevê.

Já para Riauba, da StoneX, no curto prazo, o dólar deverá ficar entre o range de R$ 6 a R$ 6,25, com o Banco Central atento a quaisquer disparidades da moeda em relação aos pares e agir caso houver disfuncionalidade ao longo do percurso.

“Diante do cenário de incertezas, me parece que o dólar encontrou o piso na taxa de R$ 6. Sua direção vai depender das próximas ações do governo no que se diz respeito às emendas parlamentares e medidas fiscais que venham a de fato fazer jus ao progresso do país”, comenta. A gestão de Gabriel Galípolo à frente do BC, as políticas comerciais americanas e como o Federal Reserve (FED) vai ser portar na condução da política monetária dos EUA são outros fatores.

Para Viotto, da EQI, é provável que sem as intervenções o câmbio chegue ao patamar de R$ 6,50 e, se nada mudar até o final de 2025, possa alcançar R$ 7. “Não tem nada hoje que indique que a trajetória mude. Tem uma esperança com o fiscal por causa do cancelamento das férias, e tomara que seja justificável, mas acho pouco provável pelo que tenho visto até agora.”