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Setores mais (e menos) arriscados para alocar recursos em 2025

Érica Polo

João Piccioni, diretor de investimentos da Empiricus Gestão
João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão

De que forma a conjuntura atual, que mescla alto patamar de juros (e do dólar) em cenário de economia aquecida, vai ‘bater’ na receita e no fluxo de caixa das companhias – que ampliaram significativamente a captação de recursos junto ao mercado de capitais em 2024 – é pergunta que não quer calar. E ganhou cores após a divulgação do pacote de ajuste fiscal do governo.

O conjunto de medidas, ainda não aprovado pelo Congresso Nacional, mexeu com os cenários futuros de curto prazo e reforçou a necessidade de olhar com lupa para a alocação de recursos nos universos de crédito privado e ações. Há muitas incertezas, mas o cenário poderá afetar companhias, seja em encarecimento de dívida, necessidade de novos recursos e/ou ambos.

“A gente ainda não tem clareza em relação ao cenário de 2025. Vai depender muito de que patamar essa taxa vai e quanto tempo ela fica [Selic]”, disse Ricardo Carvalho, diretor da Fitch Ratings recentemente em conversa com a Capital Aberto. Na ocasião, Carvalho abordou cenário e efeitos para concessão de nota (up grade e down grade) a empresas não ligadas à infraestrutura, em contexto de emissão de debêntures, área pela qual responde na agência.

Para 2025, a projeção de alguns analistas indica que as companhias aéreas, REITs (Real Estate Investment Trust americanos) e setores como o de construção civil, bens de consumo duráveis e varejo são alguns dos que se destacam entre os de “alto risco”. Por outro lado, seja para investir em ações ou títulos de companhias, os bancos, as seguradoras – incluindo quem atua em saúde – e as companhias de ‘utilities’ (água, gás, saneamento, eletricidade, telecomunicações) estão na lista de segmentos “menos arriscados”, se considerada a dinâmica atual do mercado brasileiro.


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“O setor financeiro brasileiro deve continuar sendo um dos destaques. Os principais bancos devem continuar mostrando retornos acima da média do mercado como um todo, em especial, Itaú, BTG e vale a pena prestar atenção no Nubank”, comenta João Piccioni, CIO da Empiricus Gestão. Apesar de atuar em um nicho de mercado, continua o gestor, o banco digital segue crescendo em velocidade “espantosa”.

Segundo o gestor, a captação está tão pujante na renda fixa que acaba minando os prêmios. “Então a gente está vendo os bancos conseguindo fazer captação de longo prazo com prêmios muito baixos em relação ao CDI, o que é positivo quando considerada a ótica do spread bancário”, disse. Boa parte das empresas não financeiras, contudo, recuaram em emissões de títulos em 2024 porque esperavam que os juros fossem baixar – mas agora o fôlego está acabando. Para o ano que vem, muito provavelmente essas empresas precisarão vir para o mercado e vão precisar voltar a captar.

Do ponto de vista de segmentos “interessantes” para alocar, Piccioni destaca as seguradoras de automóveis e não deixa de lado as companhias que atuam em saúde, onde ele vê, apesar dos desafios, um bom espaço para crescer. As seguradoras de veículos devem continuar entregando bons números, continua. “Os juros mais elevados ajudam o float das empresas, ou seja, faz com que consigam manter um ROI mais elevado”, conclui.

Saneamento e energia

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Utilities podem trazer bom retorno. Em saneamento, o gestor da Empiricus cita como um “case” a Sabesp, com a recente aquisição de fatia do controle pela Equatorial. Vale lembrar, ainda, que o setor de energia pode ser boa alternativa, visto que é um foco da agenda do atual governo federal.

Relatório de novembro da Moody’s avalia que a agenda de transição energética do governo focada no investimento privado “torna o país mais atrativo como local de produção, ao mesmo tempo em que melhora a competitividade e reduz sua vulnerabilidade aos choques climáticos”.

A agência acrescenta, ainda, que as medidas governamentais anunciadas em 2023 – que incluíram novos impostos sobre a exportação de petróleo e o fim da isenção fiscal federal sobre a gasolina e o etanol –, não deterioraram a qualidade do perfil de crédito da Petrobras até o final de 2024. Mas, os analistas opinam que isso criou incertezas sobre a futura interferência do governo na companhia e no setor de petróleo e gás de forma mais ampla.

Os investimentos em infraestrutura, incluindo saneamento e energia, têm contribuído para o impulsionamento do Produto Interno Bruto (PIB), cujo ritmo caminha firmemente, mesmo com o alto patamar de juros. Nesta terça-feira (03), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou crescimento de 0,9% no terceiro trimestre, um pouco acima do esperado, impulsionado por consumo do governo, famílias, serviços e indústria.

“O que está carregando o PIB? O que a gente consegue ver? Essa é uma boa pergunta. Tem várias teses. A tese que eu acho que todo mundo concorda é que, na verdade, desde a pandemia, salvo momentos muito pontuais e curtos, a gente tem ficado com a política fiscal mais expansionista”, resume Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV Ibre). “Está empurrando o PIB e isso não reage muito a juros”, continua.

Para Pires, uma boa pergunta agora é a razão do aumento de investimentos em vários segmentos econômicos mesmo com o atual patamar de juros. Ele pontua que, em meio ao movimento de demanda com baixo nível de desemprego (fator que atrai aportes), a infraestrutura ganhou força. Além de privatizações em áreas como o saneamento, há um avanço de projetos de hidrogênio verde, o qual vive uma expansão relevante.

Alto risco

Sob mais incertezas em meio ao cenário macro estão as companhias de bens de consumo duráveis e varejo, além da construção civil. “Há exceções entre os setores com mais risco, a exemplo do Mercado Livre [no varejo] que pode continuar desempenhando dada a ligação com mercados internacionais”, opina Puccioni, da Empiricus.

Mesmo com demanda alta na ponta por conta do baixo emprego, há um limite para a expansão dos negócios dependendo do público-alvo das companhias. Desse modo, o varejo – com destaque para vestuário e shoppings – podem “sofrer” mais em cenário de juros em alta, caso alcancem de fato patamar de 14%, continua o gestor.

As construtoras que atendem patamar de renda média, não necessariamente a popular, também pode “patinar” um pouco mais. “Muito provavelmente a gente vai ver os bancos mexendo um pouco nas taxas de juros para financiamento imobiliário”, opina Puccioni.

Debêntures

Para classificação de risco em debêntures, especificamente as não ligadas à infraestrutura, 2024 foi um ano “equilibrado” se observados os últimos cinco a dez anos, segundo a Fitch Ratings. “Está longe de ser um ano ruim em relação a down grade”, disse Carvalho, diretor da agência. Até 30 de setembro, a agência marcou 11 upgrades e 14 downgrades.

Para efeito de comparação no curtíssimo prazo, em 2023 foram 16 up grades e 45 down grades. Segundo Carvalho, que conversou com a Capital Aberto em outubro, portanto antes do anúncio do governo federal sobre ajuste fiscal, há atualmente um maior grau de incerteza.

“Toda vez que muda o patamar de juros é ruim para o crédito de forma geral: quanto mais endividada a empresa, maior a pressão no fluxo de caixa em função da taxa de juros. Então [o cenário] trará reflexo para as empresas que estão mais endividadas e vai ter efeito para o ambiente de negócios em 2025, que talvez fique menos favorável se comparado a este ano”, avalia o executivo da Fitch.