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Inflação, câmbio e PIB não reagem a juro alto, mas mercado descarta “dominância fiscal”

Jiane Carvalho

Felipe Uchida, sócio da Equus Capital
Felipe Uchida, sócio da Equus Capital

O primeiro boletim Focus do Banco Central (BC) publicado após o anúncio do pacote de controle fiscal pelo governo trouxe poucas novidades. E isto é ruim porque um dos efeitos do corte de gastos, em tese, seria a melhora das expectativas do mercado, o que não se materializou. Economistas ouvidos pelo BC seguem elevando a previsão de inflação para este ano e 2025, ajustaram para cima a taxa de câmbio e mantiveram a perspectiva para o crescimento do PIB. É um cenário – juro cada vez maior e efeitos contidos nos indicadores - que sugere um ambiente que economistas chamam der “dominância fiscal” em que a política monetária perde seus efeitos. Por ora, afirmam executivos ouvidos pela Capital Aberto, esta não é uma realidade.

Um cenário de dominância fiscal, na teoria econômica, é caracterizado por uma situação de desequilíbrio na qual a crise fiscal domina a política econômica. Nesse cenário, a política monetária perde eficácia e o governo não consegue controlar a inflação. “Dominância fiscal é uma situação extremada, ainda não vejo desta forma. De qualquer jeito, a deterioração das expectativas vai exigir um ajuste de juros ainda mais forte”, comenta o economista André Perfeito acrescentando que a Selic, neste contexto, deve subir 0,75 pontos base na última reunião do Copom deste ano “pelo menos”.

“Estamos indo para um cenário complexo, desafiador e em que os economistas vão errar para cima o PIB de 2025, que ainda está estável, mas tem que ser menor em uma Selic que fácil chegará a 13% no próximo ano”, comenta Perfeito. “E com um PIB menor a arrecadação sofre. Além disso, o dólar segue em alta frente ao real e a outras moedas, com a alta das projeções de juros americanos. Além dos nossos problemas tem os problemas do mundo também.”

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No boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (02), a previsão do PIB deste ano subiu de 3,17% para 3,22%; as projeções do crescimento da economia em 2025 seguem em 1,95%. Já o IPCA projetado pelos economistas ouvidos pelo BC avançou novamente, de 4,63%, na semana anterior, para 4,71% nesta. Também houve ajuste, para cima, na previsão do IPCA para 2025, saindo de 4,34% para 4,40%.

Na visão do CEO da gestora Multiplike, Volnei Eyng, o Brasil segue distante do cenário de dominância fiscal. “Não acredito que o Brasil segue um caminho desse, de cenário de dominância fiscal, porque o PIB do terceiro trimestre o Brasil vai desacelerar e os efeitos de uma Selic maior demoram um pouco para começar a bater”, justifica Eyng. “O governo, até agora, fez dois reajustes apenas da Selic e deve fazer um mais aprofundado. Não tem a menor dúvida que o Banco Central vai tomar as medidas dentro do que é necessário e isso vai provocar uma desaceleração do crescimento do PIB, acomodando a inflação.”

Para o sócio da Equus Capital Felipe Uchida é preciso atenção para o menor impacto dos juros altos na inflação, que “não cai” e no PIB que permanece forte. “Isto pode indicar que os gastos do governo estão dificultando o controle da inflação. No entanto, não é certo dizer que já estamos em dominância fiscal. O próprio presidente do BC, Campos Neto, reconhece os desafios fiscais, mas não acredita que o país esteja em dominância fiscal”, comenta Uchida.

“O sucesso vai depender de o governo coordenar melhor suas contas públicas com a política de juros, para evitar que um atrapalhe o outro e garantir a estabilidade econômica. A interação entre políticas fiscal e monetária é complexa, e a eficácia da política monetária depende de diversos fatores, incluindo a credibilidade das instituições e as expectativas dos agentes econômicos”, disse.