Com dólar em alta, fundos cambiais têm maior captação líquida desde abril de 2023

Com o cenário de forte valorização do dólar diante do real, os fundos cambiais tiveram, em novembro passado, o melhor retrato de captação líquida em um ano e sete meses. Embora, em todo o ano de 2024, a captação desses fundos ainda seja negativa em R$ 52,7 milhões, no recorte do mês passado, as entradas líquidas somaram R$ 421,40 milhões, indica a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). É o melhor desempenho mensal da categoria desde abril de 2023, quando a classe captou R$ 693 milhões. Considerado apenas este ano, novembro foi o mês de melhor desempenho dos fundos cambiais.
O horizonte de curto e médio prazos é favorável para o instrumento, devido ao ritmo do câmbio, mas qualquer projeção é incógnita. A corrida para os fundos cambiais está ligada ao cenário de desvalorização do real - e o câmbio é um universo de estimativas nem sempre muito assertivas. Bancos e gestoras projetam, atualmente, que o dólar poderá ficar em um intervalo de R$ 5,50 a R$ 7 no final de 2025. Vale reiterar que a moeda americana segue em alto patamar – fechou a R$ 6,09 nesta terça (17), mesmo com a injeção de US$ 4,6 bilhões feita pelo Banco Central ontem.
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Dependendo do contexto do câmbio, este poderá sustentar o fluxo positivo de recursos rumo a esses fundos. Muitos nessa corrida atual são investidores de varejo (pessoa física). A Tivio Capital viu clientes pessoa física buscarem proteção no dólar via esses fundos, lembrando que a gestora distribui o produto por dois canais: via plataforma digital e por meio de carteiras de fundos exclusivos destinados ao universo de alta renda. “Ele [investidor] acaba vendo esse movimento de desvalorização do real e quer, de alguma forma, fazer proteção na carteira, algum tipo de hedge, ou de fato pegar algum movimento direcional de moeda forte”, comenta Leticia Albuquerque, head de Investments Solutions da Tivio Capital.

Pedro Rudge, diretor da Anbima, já havia dito, em nota divulgada na semana passada, que os fundos cambiais estão favorecidos pelo panorama econômico, caracterizado por volatilidade doméstica e internacional, visto que são alternativa para mitigar riscos cambiais e preservar o poder de compra fora do país.

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Além dos que buscam algum tipo de proteção, seja diante da desvalorização do real ou da volatilidade global, há a alocação que responde aos investidores “um pouco mais arrojados”, os quais, em momentos de crise e de incertezas, acabam tendo um apetite maior a risco. “Eles acabam vendo os fundos cambiais como uma oportunidade especulativa de capturar esses movimentos de valorização dessas moedas estrangeiras”, afirma Mayara Ranni Sekertzis, head de fundos e previdência da Manchester Investimentos.
Letícia, da Tivio, acrescenta que os investidores mais sofisticados, ou seja, que não compõem a base do varejo, procuram exposição ao exterior por meio de outros instrumentos – não necessariamente só via fundos cambiais, mas considerando outras classes de ativos.
No ano, a moeda brasileira desvalorizou 26% diante do dólar. De outubro para cá, ocorreu em decorrência de dois principais fatores: a eleição de Donald Trump, nos EUA, e a divulgação do pacote de ajuste fiscal pelo governo brasileiro. Inversão a risco global, somando a esse panorama as guerras no Oriente Médio e as incertezas em outras economias desenvolvidas (além dos EUA), contribuem para o fluxo de investimentos a ativos mais fortes, caso do dólar atualmente, complementa Sekertzis, da Manchester.
“Começou a ter um movimento de números um pouco mais fortes da economia americana desde outubro e, aqui [no Brasil], o fiscal [a divulgação do pacote de ajuste fiscal pelo governo]. Então, houve esse fluxo para fundos cambiais em função disso e, também, por conta de um cenário mais difícil para o próximo ano”, complementa Rafael Espinoso, estrategista de investimentos da Tivio Capital.
O estrategista lembra que, do ponto de vista de alocação, o olhar não deve ser o de apenas comprar dólares para proteger posições. “No limite, você compõe o portfólio com dólar e outras classes de ativos”, diz Espinoso. “Se a aposta é aumentar Brasil, se o objetivo é aumentar renda fixa, deixo [parte em] dólar lá para defender. Só que precisa fazer a conta: o dólar tem uma volatilidade hoje de 15%, 20%”.
Há opções de renda fixa com menor volatilidade e retorno esperado muito maior para compor carteiras. Contudo, apesar de volátil, a moeda americana é um recurso para integrá-la, já que amortece a posição de Brasil – “hoje muito premiada” –, continua o estrategista da Tivio.
2025
Para o próximo ano, alguns gestores não se esperam o mesmo nível de desvalorização cambial. “Estamos falando de juros projetados agora, neste momento, de quase 16,5%, 17% na curva de Selic para o final do ano que vem, com uma inflação de 4,5%. É um real absurdamente interessante para quem quer aplicar no Brasil”, opina o estrategista da Tivio.
O ponto que joga contra o país, contudo, é a desconfiança à condução dos gastos pelo governo federal brasileiro, reforçada pela Faria Lima dia sim, dia também.
No momento, o cenário é nublado para projeções sobre o câmbio. Bancos e gestoras consideram intervalo do dólar entre R$ 5,50 a R$ 7 para o final do próximo ano. O BV, por exemplo, projeta dólar a R$ 6,30 no final de 2025 – com o atual cenário, nesta terça (17), o dólar fechou a R$ 6,09.
O Brasil pode atrair recursos, com consequente valorização do real, se a economia americana “abrir espaço” para emergentes (fator que depende do ritmo de cortes de juros pelo FED) e conforme ocorrer a condição das políticas fiscal e monetária, lembram gestores.


