Criptos, urânio e exposição aos EUA: os ETFs que chamam a atenção de investidores
Diante de um momento turbulento para o mercado, em meio a investidores com pouco apetite a risco, os Fundos de Índice (ETFs, na sigla em inglês) surgem como uma alternativa mais segura e garantida para quem, ainda assim, quer alocar em bolsa. Despontam, ademais, modelos de diversificação para o produto, com o desenho de teses diferentes e inovadoras global e localmente.
Neste ano, até setembro, os dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), indicam que os aportes em ETFs aumentaram 42,9% em comparação ao volume investido no final de 2023. Segundo a B3, no mês de outubro, os mais negociados incluem os de teses tradicionais, como exposição ao próprio Ibovespa, ao S&P e à Nasdaq, bem como aqueles com estratégias recentes e inovadoras, a exemplo dos de criptomoedas.
Há mais de 100 ETFs disponíveis para negociação na B3, um mercado de cerca de R$ 51 bilhões de patrimônio líquido, valor que era de R$ 43 bilhões em dezembro de 2023. Há também mais 250 BDRs de ETF, chamados de ETFs Globais.
“Acredito que o principal motivo do crescimento é a exposição que o produto oferece ao mercado americano. Boa parte desse fluxo acaba indo para ETFs de S&P e Nasdaq. Esse é o principal motivo. E tem um segundo, um pouco menos forte, mas também importante, que são as criptomoedas”, aponta Flávio Vegas, especialista de produtos da Global X ETFs Brasil.
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Para Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos, os ETFs acabam servindo como um ponto de fuga para o investidor que quer se manter em renda variável mesmo em meio a um cenário de desempenho fraco das ações no Brasil. “Isso por algumas características que os ETFs, por si só, conseguem oferecer, como, por exemplo, a diversificação, a facilidade do acesso e, principalmente, a questão da dolarização, que recai sobre o desempenho melhor dos ativos lá fora em relação aos mercados brasileiros”, aponta.
O que ocorre é uma combinação de busca por melhores performances, diversificação, dolarização e o acesso a teses que estão com melhores fundamentos neste momento.
Criptos, infraestrutura e urânio
Mas como nem só de teses tradicionais vive o mercado, o especialista de produtos da Global X destaca a aprovação dos ETFs de criptomoedas neste ano e a alta do Bitcoin, que atingiu mais de US$ 100 mil, o que gera atratividade do produto. “É um ativo que está subindo mais de 100%, 150% no ano e têm ganhado bastante tanto em aporte, quanto em notoriedade.”
Thalita Forne, superintendente de produtos listados da B3, argumenta que a indústria de ETFs tem sido um berço para inovações no mercado de capitais brasileiro, proporcionando acesso e exposição a diferentes teses de investimentos. “O portfólio tem se diversificado cada vez mais, principalmente com relação à Criptoativos e Renda Fixa”, comenta.
Este ano a prateleira de cripto iniciou com 13 ETFs disponíveis e a B3 teve 4 novas listagens. Já a prateleira de Renda Fixa conta com 19 ETFs, sendo 6 destes, lançados em 2024. “Por fim, vale ressaltar que em setembro houve a listagem de dois ETFs da criptomoeda Solana, sendo a B3, a primeira bolsa do mundo a ter ETFs de Solana listados”, comenta Thalita.
Os ETFs, inclusive, são vistos pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como o melhor “balão de ensaio” para inovações. “Geralmente, quando você pensa numa estratégia nova para o público de varejo, vai para o ETF primeiro. Foi assim com os ETFs 100% de cripto e com os ETFs 100% índices do exterior, porque conseguimos usá-los como balão de ensaio melhor para inovações”, disse Daniel Maeda, diretor da CVM, durante o Encontro Anual sobre Índices e ETFs no Brasil 2024, promovido pela S&P Dow Jones no início de novembro.
Essa é uma estratégia que a Global X, por exemplo, viu e tem explorado há alguns anos. A gestora globalmente acumula aproximadamente 120 ETFs na parte de renda (com pagamento de dividendos), 124 ETFs chamados “temáticos”, que são o foco da empresa, e alguns ligados a commodities, acesso internacional e outras estratégias.
Entre as outras teses estão a de digital assets, em que entram as criptomoedas, mas com foco em empresas ligadas à blockchain, não necessariamente ao ativo em si e, na grade de ETFs temáticos, há temas como lítio em bateria, hidrogênio, veículos elétricos, de defesa de tecnologia (como criação de drones) e até urânio (mineradoras), que permitem basicamente uma exposição a empresas da cadeia desses produtos.

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“Crescemos com essa mentalidade de oferecer um acesso diferenciado ao investidor. Porque você já tem um mercado de índices amplos quase dominado por grandes players como BlackRock, Vanguard, State Street. Não é um nicho e nem um mercado que quisemos competir”, conta Vegas.
Consequentemente, se a gestora entrasse nesse mercado de índices amplos seria “mais por briga de taxa e não muito por briga de inteligência ou de pesquisa, que é o foco da Global X”, o que fez a casa entrar nesses temas chamados "mudança de paradigma”, que tratam de mudanças estruturais na sociedade e mercado, como transição energética ou uso de tecnologia blockchain.
A estratégia adotada foi oferecer para os clientes exposições a essas grandes tendências. Primeiro, há uma combinação de análise top-down, identificação das grandes tendências, e bottom-up, seleção das empresas que vão se beneficiar dessas tendências.
Antes de lançar ou sugerir algum ETF, a gestora se baseia em três pilares: convicção, estar exposto a um tema de grande convicção e que sejam estruturais; investibilidade, precisa haver empresas listadas e que tenham liquidez para se beneficiar do tema; e time frame, precisam ser teses e temas em que a gestora acredita no longo prazo, ou seja, mais de cinco anos. Outro método adotado pela Global X é o de empresas “pure play”, cuja receita venha majoritariamente do tema escolhido (ao menos 50%).
Do total de estratégias, a Global X optou por trazer 30 delas para o Brasil na forma de BDRs de ETFs. Entre as teses vencedoras estão a de empresas de blockchain, que acumulam retorno de 62,99% no ano até 6 de dezembro; a de empresas de infraestrutura energética, com 47,89%; a de mineradores de prata, com 35,45%; desenvolvimento e infraestrutura dos EUA, com 30,28%; e de inteligência artificial, com 29,27%. No entanto, no quesito captação neste ano, desenvolvimento e infraestrutura, inteligência artificial, urânio e infraestrutura energética se sobressaem, com US$ 1,9 bilhão, US$ 1,2 bilhão, US$ 992 milhões e US$ 802 milhões, respectivamente.
O motivo de apenas 31 deles estarem presentes no Brasil é que existem certos requerimentos que um ETF precisa cumprir para fazer parte do programa de BDR como, por exemplo, negociar, numa janela de quatro meses, mais de US$ 1 milhão, em média, todo dia. Ano passado, a Global X lançou um ETF de renda fixa que comprava títulos americanos de um a três meses. O produto cresceu bastante nos Estados Unidos e, em setembro deste ano, atingiu os requisitos da B3 e veio para o Brasil. Ele, inclusive, já acumula um patrimônio de US$ 801 milhões e um retorno de 4,97% no ano desde junho.
Aos poucos, diferentes formas do produto têm surgido no Brasil. Em setembro do ano passado, por exemplo, a Nu Asset lançou o primeiro ETF com pagamento de dividendos, o Smart Dividendos. Já em novembro, a Buena Vista Capital lançou um ETF de exposição a empresas internacionais oferecendo a possibilidade de receber proventos mensais dolarizados.
Para Villegas, da Genial, a questão do surgimento de teses diferentes e inovadoras acaba sendo uma consequência de demanda. “O mercado sempre vai atrás das melhores temáticas, juntando oferta e demanda. Provavelmente, a procura por esses ativos que estão sendo mais demandados hoje, em algum momento nos últimos anos, já existia”, comenta, afirmando que “sem sombra de dúvida” os investidores também têm olhado para outras teses, além das tradicionais de exposição aos grandes índices.
Embora os ETFs do Ibovespa B3, por exemplo, que acompanham o movimento mais amplo do mercado, atualmente representem grande parte do patrimônio investido neste tipo de produto, por outro lado, nos últimos 5 anos, é possível observar o surgimento de diversas teses, segundo Thalita. “O volume em estoque para os ETFs de renda fixa passou de R$ 1 milhão em 2018 para cerca de R$ 9 milhões em outubro de 2024. Além disso, algumas teses de commodities (como os ETFs de ouro e prata), ganharam grande relevância em volume negociado, diz.
Por fim, segundo a executiva, há uma demanda cada vez maior para teses voltadas à inteligência artificial e tecnologia, e a B3 já disponibiliza mais de 20 ETFs que olham este segmento.
Mais rentáveis da B3
O estrategista da Genial reitera a visão sobre tecnologia e cripto. “Acho que o que temos, principalmente, é a busca por ETFs de criptoativos. Entendemos que o investidor gosta dessa modalidade. É a modalidade que nos últimos anos, apesar da volatilidade, trouxe os maiores retornos”, diz.
Inclusive, segundo dados do Boletim de ETFs da B3 de outubro, sete dos dez produtos mais rentáveis são de exposição a criptomoedas, acumulando retornos de 11,1% a 17,7% ao ano.

Villegas acredita que há espaço para diversificação no país, visto que o mercado brasileiro hoje ainda é muito pequeno se comparado ao retrato do que existe globalmente. “Vejo que existe um gap, um espaço gigantesco para crescimento. Mas a cada dia o brasileiro vai conhecendo essas novas classes, entendendo como funciona, e sem dúvida, acaba sendo um caminho sem volta”, opina.
A B3, inclusive, em janeiro deste ano, lançou um programa de incentivo para corretoras de varejo voltados para ETFs e BDR de ETF, visando fomentar o mercado e aumentar a liquidez destes produtos, visto que boa parte do volume de custódia ainda é de investidores institucionais.
