Crédito privado avança e nova demanda é por aprimoramento na governança
O ano de 2024 é um dos mais robustos para o crédito privado, mesmo vindo de um 2023 marcado por desafios importantes com os episódios de Americanas e Light. A necessidade de avanço nas melhores práticas do mercado foi tema central de painel durante evento promovido pela CVM nesta quarta-feira (11). A ideia defendida é que rearranjos no mercado, nas regras e nas melhores práticas de assembleia e transparência, por exemplo, são importantes e pavimentam a próxima fase de avanços dos instrumentos de dívida.
Fayga Czerniakowski, head de crédito na Itaú Asset, fez um panorama sobre o desenvolvimento recente deste mercado, com fundos de crédito responsáveis por R$ 300 bilhões alocados. “A gente viu um importante movimento de fechamento de spread de crédito, valorização dos ativos. Isso tudo associado a um ambiente de taxa de juros alta, onde a renda fixa já é muito atrativa. Foi um ano em que o crédito privado se consolidou como uma classe de ativos que definitivamente compõe a carteira do investidor em diferentes ciclos econômicos”, comenta a executiva do Itaú.
Por outro lado, Fayga ponderou que se há avanços em crédito, há também desafios para que essa classe, de fato, se consolide cada vez mais e ganhe ainda mais maturidade. “Para quem observa o mercado há 15 anos, a gente chegou num ponto de profundidade de mercado de crédito muito importante. Liquidez no secundário, diferentes emissores, gestão ativa nos portfólios, players diferentes operando. É preciso olhar para frente e garantir que o mercado de crédito siga avançando de forma sustentável.”
Os eventos do início de 2023, com a fraude na Americanas e falhas na governança da Light, foram lembradas por Adriano Casarotto, portfolio manager na Western Asset Management. “A varejista podemos dizer que foi fraude, agora na distribuidora de energia elétrica, foi governança ruim opondo dois tipos de investidores, de ações e de dívida. O investidor concedeu um plano de remuneração aos administradores da empresa, e que tinha como meta cortar a dívida. Claro conflito de interesse, de governança”, comenta Casarotto. “Felizmente eram problemas pontuais, e não sistêmicos, causou dificuldade, mas o mercado se ajustou.”
Entre os avanços dos últimos anos, executivos citaram as assembleias gerais, como a AGD, de debenturistas, que deixaram se ser apenas presenciais, no período de pré-pandemia, e hoje podem ser virtuais.

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Na visão de Casarotto, apesar do sucesso junto ao investidor e aos emissores, as debêntures são um instrumento menos protegido do que outros do mercado, como CRI e CRA, mencionando que estes têm conta reserva para situações atípicas. “A debênture não tem isso. Quando a empresa tem um problema, você tem que fazer um AGD e nem sempre consegue. Se forem muito pulverizadas é mais difícil ainda”, afirma o executivo, citando como exemplo conflito entre gestores e o administradores de fundo. “A convocação precisa ser feita em um jornal. E muitos administradores do fundo se negaram a apoiar a publicação, alegando que a verba não existe. Nos momentos de crescimento do mercado, é onde surgem problemas, quando é testado.”
Vivian Murakoshi, CFA da Ibiúna Investimentos, destaca o valor da desintermediação financeira, fruto do avanço do mercado de capitais. “Tem muito dinheiro para alocar, de investidores, de fundos. Do outro lado, tem que ter empresas com governança, que tem o framework regulatório”, afirma Vivian, acrescentando que cada vez mais o desenvolvimento do mercado secundário compõe parte do alfa dos fundos. Na visão da executiva da Ibiúna, o mercado precisa avançar em mais transparência nos preços, nas informações dos papéis.
O sócio e gestor de renda fixa da Sparta Fundos de Investimentos, Artur Nehmi, elogiou, ao falar sobre transparência, o fato de os fundos terem de abrir a carteira, mostrando os papéis adquiridos, com defasagem de 90 dias. Mas fez uma ponderação: “Quando a gente olha o estoque de debêntures do mercado, da ordem de R$1,2 tri, os fundos têm torno de R$ 600 bi. O restante está na mão de quem não se sabe, são investidores desconhecidos”. Ele lembrou que nos Estados Unidos a transparência é maior, pega todos os investidores.
“Uma situação que a gente considera assimétrica, se eventualmente houvesse uma abertura de detentores de ativos, sempre que um investidor adquire determinado volume do papel, mesmo com defasagem, deveria dar publicidade”, exemplifica. “A verdade é que já evoluiu bastante e, cada vez mais, o regulatório e as boas práticas vão definir como vamos lidar com essa composição de mercado que tem players muito distintos, assets que são muito ativas na compra de ativos e investidores pessoas físicas.”
Fayga, da Itaú Asset, acrescentou outro avanço no mercado de títulos com o fim do lock-up que proibia, em ofertas públicas, a venda do papel no secundário em menos de 90 dias. “Claramente, isso ajudou muito na evolução do mercado e você tira uma simetria, uma restrição de negociação por 90 dias. Nesse sentido a instrução CVM 60, a mudança da 476, foi algo fundamental e, inclusive, ajuda a dar liquidez no mercado secundário.”


