Câmbio pode arrefecer em janeiro, mas fica próximo a R$ 6, avaliam analistas

Agentes do mercado financeiro, consultados pela Capital Aberto, projetam o dólar em um intervalo de R$ 6 a R$ 6,20 para as próximas semanas – com possibilidade de recuo para R$ 5,80 em janeiro. As turbulências no mercado de câmbio seguiram nesta semana, mesmo com os diversos leilões de venda de dólares pelo Banco Central, desenhando turvo cenário de médio prazo para o ativo.
Diante da volatilidade, mais difícil é projetar o câmbio para o ano de 2025. Para se ter ideia do quão nublado está o panorama, até a metade da semana o intervalo de projeções ia de R$ 5,50 a R$ 7,00. O último relatório do Itaú, divulgado em 13 de dezembro, projeta R$ 5,70 para o ano que vem (o próximo documento deverá sair em janeiro). Já o BV indica R$ 6,30. O Santander, por sua vez, possivelmente divulgará um relatório macroeconômico nesta sexta (19).
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Para tentar conter a desvalorização do real, o BC leiloou, apenas nesta quinta, R$ 8 bilhões. Na semana, ocorreram leilões na segunda e terça, além de outro na sexta passada. Ontem, a moeda americana cedeu mais de 2% e encerrou o pregão a R$ 6,12.
Apesar da força da economia americana, o câmbio é pressionado hoje sobretudo pelo retrato fiscal no Brasil, dizem analistas. O fator mais recente foi a desidratação de parte da proposta do governo federal pelo Congresso Nacional, onde passa por votações nesta semana. A avaliação do mercado é a de que o governo terá de realizar mais ajustes para compensar as perdas no texto enviado. Desde quarta (18), houve afrouxamento do corte dos supersalários e um pedido que altera o trecho que põe limite às emendas parlamentares, por exemplo.
“Os leilões do Banco Central ajudam a suavizar a volatilidade, mas o impacto na cotação do dólar é limitado quando os fundamentos macroeconômicos ainda sustentam a pressão cambial. A questão fiscal é o que mais tem pesado”, resume Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas.
A projeção do câmbio para o curtíssimo prazo, feita pelos agentes consultados, considera um cenário de moderação na aversão ao risco, mas ainda sujeito a volatilidade, sobretudo devido às questões fiscais. Analistas consideram que a moeda americana recue um pouco em janeiro por ser um período em que as empresas e fundos estrangeiros trazem dólares para realizar seus investimentos.
Eurico Ribeiro, gerente comercial da B&T Câmbio, não vê espaço para o dólar ficar onde está por muito mais tempo. É que alguns fatores técnicos estão “bem esticados”, disse. "Existe uma ferramenta chamada IFR, que diz quando um ativo está sobrecomprado e sobrevendido. E o dólar chegou em uma região de preço que está extremamente sobrecomprada. Isso me diz que, naquela faixa de preço, os compradores dos ativos estão sumindo, e o preço precisa baixar para uma nova região de preço para que compradores voltem a entrar”, avalia Ribeiro.

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O Congresso dá início ao recesso na próxima semana, com previsão de retorno apenas em fevereiro, e, além disso, o ministro Fernando Haddad anunciou que entrará de férias em janeiro. Na visão do gerente da B&T são fatores que reforçam a dificuldade em “resolver o cenário que afeta o câmbio” ainda neste ano. Ele lembra que o mercado é dinâmico e pode mudar a qualquer momento. “Mas, até fevereiro, enquanto o Legislativo não voltar, tudo deve continuar do mesmo jeito”, comenta Ribeiro.
Fluxo de saída
Em dezembro costuma ocorrer o oposto do retrato esperado para janeiro: há volume de remessas de lucros e dividendos para fora do país, quando normalmente o fluxo de saída sobe. Os dados divulgados na quarta (18) pelo BC, contudo, sugerem que há fluxo “acima da média”, avaliou Roberto Campos Neto, presidente do BC. No ano, até 13 de dezembro, as saídas totalizaram R$ 6,7 bilhões – somados os canais financeiro e comercial.
Em entrevista coletiva sobre o Relatório Trimestral de Inflação, nesta quinta (19), Campos Neto respondeu a questionamentos sobre monitoramento do fluxo cambial. Ele reiterou que a autoridade monetária não anuncia se e quando fará novas intervenções. “Entendemos que, neste momento, com um fluxo acima da média, o BC vai atuar da forma como estamos atuando. Não dá para falar de futuro, mas vamos [ainda] monitorar [o fluxo] e atuar da forma como sempre fizemos.”
Campos Neto e Gabriel Galípolo, que assume a presidência do BC em breve, fizeram dobradinha ao responder perguntas de jornalistas. O movimento visto no mercado cambial resulta não apenas de ação da “Faria Lima”, mas de grandes empresas que buscam estabilidade em instrumentos como o hedge, reiteraram. Pessoas físicas também têm adquirido dólares e o BC, ao monitorar o fluxo, deverá agir utilizando venda no “spot” ou por meio de swap cambial, a depender do perfil que demanda a moeda americana. Serão utilizados “os instrumentos disponíveis” para atuar novamente se houver necessidade, reforçou o atual presidente da autoridade monetária.
Galípolo, por sua vez, disse que a materialização de alguns riscos tirou incertezas sobre os juros e permitiu que o Comitê de Política Monetária (Copom) entregasse um ‘guidance’ – o qual pretende seguir. Para ele, a “barra é alta para fazer qualquer tipo de mudança” (no guidance) e a direção é de caminhar para uma taxa de juros em “patamar restritivo com alguma segurança”. Sobre o fiscal, ele disse que há problemas, mas que estão endereçados e nenhum programa apresentado será “bala de prata”. “Mas é preciso debater com a sociedade”, continuou Galípolo.
EUA
No cenário externo, os dados econômicos mais fortes nos EUA também têm impulsionado o dólar, globalmente, com a expectativa de manutenção de juros elevados por mais tempo. Ontem, o Federal Reserve (Fed) reduziu juros em 0,25 ponto, para faixa de 4,25% a 4,50%. Era esperado, mas a expectativa ocorria em torno da quantidade de cortes para 2025. Com a expectativa de inflação de longo prazo ancorada, o Fed prevê mais dois cortes da mesma magnitude no ano que vem.
“A previsão de menos cortes do Fed em 2025 poderia piorar a perspectiva para o câmbio no Brasil, mas na atual circunstância, boa parte disso já estava precificado: seja pela inflação ainda fora da meta e as perspectivas de aumentos de tarifas de Donald Trump, que podem elevar a inflação americana; ou seja, principalmente, pelo fato que a recente perda de valor do real se deve majoritariamente aos fatores internos no Brasil”, disse Plínio Zanini, diretor de Risco da Ciano Investimentos.
Em suma, continua Zanini, a política fiscal no Brasil, junto aos demais fatores internos, deve afetar “muito mais o câmbio do que o corte já precificado” feito pelo Fed, opinou.


