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Vitória de Trump pesa sobre emergentes e indica dólar forte e juro maior nas economias

Amanda Meneses

Victor Uébe, gestor de Renda Variável da EQI Asset
Victor Uébe, gestor de Renda Variável da EQI Asset

A vitória de Donald Trump nas eleições americanas pode ter reflexos negativos no mercado brasileiro. A política protecionista defendida pelo presidente eleito é sinal de alerta para gestores globais que buscam posicionar seus ativos na renda fixa ou variável. A primeira leitura que ganha destaque nas análises é de que há uma tendência de aumento inflacionário nos Estados Unidos e de valorização do dólar. Para os emergentes, a tendência é um menor fluxo da moeda entrando nos países, afetando ativos como um todo. A eleição de Trump pega o cenário global de juros em momento de corte nas taxas, à exceção do Brasil, que nesta quarta-feira (06) subiu novamente a Selic em 0,50 ponto percentual, a 11,25% ao ano. A decisão do Copom foi unânime.

O recém-eleito candidato dos Republicanos é conhecido por levantar a bandeira de barrar imigrantes ilegais nos Estados Unidos, prometendo fechar as fronteiras, uma medida de protecionismo para o mercado de trabalho local. A estratégia pode criar uma falta de mão de obra barata e gerar uma pressão inflacionária adicional, assim como a promessa de Trump de elevar tarifas para importações de outros países, em especial da China. Na pauta da campanha também está a redução de tributos para atrair investimentos para o país, sugerindo baixar de 21% para 15% para empresas que fabriquem seus produtos nos EUA. “Esse corte de imposto prometido teria que ser de grande proporção, talvez até o maior já executado na história recente dos Estados Unidos. Consequentemente, vai atrair capital para lá”, comenta George Sales, coordenador do Mestrado Profissional em Controladoria e Finanças da Faculdade FIPECAFI. “Isto pode valorizar o dólar, como já ocorreu nesta quarta. A moeda atingiu patamares bem elevados, o que pode atrapalhar internamente porque importamos alguns produtos.”


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O dólar chegou a bater R$ 5,86 frente ao real, em alta de 1,90% sobre o dia anterior. Um movimento de realização ao fim do dia fez a moeda perder força e fechar com queda de 1,20%, a R$ 5,8604. A moeda norte-americana subiu contra a maioria das moedas dos emergentes exportadores de commodities, refletindo a vitória de Donald Trump, que sugere um retorno ao protecionismo econômico e a uma política que favorece a sua valorização. 

“Esse posicionamento tende a atrair capital para os EUA, o que fortalece a moeda e gera uma expectativa de alta no câmbio. Para mercados emergentes, isso representa uma pressão de custo, devido ao encarecimento de importações e financiamentos em dólar, além de aumentar a volatilidade cambial global”, aponta Elson Gusmão, diretor de Câmbio da Ourominas.

A vitória de Trump fortaleceu a moeda americana, mas esse cenário já estava precificado, segundo Diego Costa, head de câmbio para o Norte e nordeste da B&T Câmbio. “O que realmente continua pesando é o risco fiscal interno no Brasil”, diz o especialista, mencionando que o relatório Focus projeta um dólar em R$ 5,50 e que o real pode ganhar terreno até o final do ano se houver progresso concreto nas medidas fiscais e uma sinalização mais clara de compromisso com a estabilidade econômica. “Considero as projeções em linha com as do Focus, mas é importante lembrar que essa trajetória no curto prazo pode ter oscilações. A alta recente foi muito influenciada pela percepção de inação do governo e pela expectativa de políticas monetárias aqui e nos Estados Unidos, além da precificação dos riscos já acumulados.”

A vitória de Trump também pode significar alta de juros no Brasil. Como o país importa produtos, consequentemente, isso pode alterar a inflação interna, justamente com a adequação dos preços. “Isso também atrapalha o regime de metas de inflação e o Banco Central, no que diz respeito à taxa básica de juros, a Selic. O BC é obrigado a subir a taxa para poder manter o regime de metas de inflação dentro da banda que lhe foi confiada. E já estamos na banda mais alta do regime de metas de inflação, que é 4,5%”, menciona Sales, da FIPECAFI, citando que isso força o Banco Central a subir a taxa de juros. 

Nesta quarta-feira, inclusive, o BC acelerou o passo e elevou a taxa de juros em 0,5 p.p, para 11,25%, na contramão dos juros mundiais, citando que o "ambiente externo permanece desafiador, em função, principalmente, da conjuntura econômica incerta nos Estados Unidos, o que suscita maiores dúvidas sobre os ritmos da desaceleração, da desinflação e, consequentemente, sobre a postura do Fed."

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Em comunicado, o comitê mencionou ainda que tem acompanhado com atenção como os desenvolvimentos recentes da política fiscal impactam a política monetária e os ativos financeiros. "A percepção dos agentes econômicos sobre o cenário fiscal tem afetado, de forma relevante, os preços de ativos e as expectativas dos agentes, especialmente o prêmio de risco e a taxa de câmbio."

Renda fixa e variável

O primeiro reflexo da vitória de Trump nos títulos públicos americanos foi uma alta nos vencimentos de 10 anos. Caio Tonet, diretor de Operações da W1 Capital, comenta que também houve valorização das bolsas no mercado futuro os índices acionários, que subiam de 1,5% a 3,5% no dia - com destaque para o segmento de pequenas empresas, que subiu mais de 6%. 

O fator que refletiu nos mercados nesta quarta foi essa abertura da curva de juros americanos, o que, em geral, tende a trazer uma expansão de múltiplo do setor financeiro. “Estamos vendo isso nos bancos americanos. JP Morgan subindo 10%, Goldman Sachs subindo 12%. Está tendo uma reprecificação bem forte. Essa é a primeira leitura que temos em relação aos impactos da eleição”, aponta Victor Uébe, gestor de Renda Variável da EQI Asset. Para a Bolsa americana, o que a EQI tem visto é um possível benefício do setor financeiro, devido a esse aumento na curva de juros, e também de petróleo e de energia como um todo.

“A vitória de Trump na eleição presidencial dos EUA não mudou nossa posição positiva sobre ações globais, com uma preferência por ações dos EUA. Em sua administração anterior, Donald Trump estava focado no Dow Jones como um barômetro de seu sucesso”, afirmou Johanna Kyrklund, diretora de Investimentos da Schroders, em nota. O grupo, no entanto, continua defendendo a posse de títulos para gerar renda. “O papel dos títulos como diversificadores continua a ser desafiado pela probabilidade de políticas fiscais expansionistas.”

Já no Brasil, há um impacto positivo nas empresas que produzem em solo americano, como frigoríficos, WEG e Suzano, e empresas de aço como a Gerdau. “Você vê os frigoríficos, que já estão muito fortes nesta quarta. JBS tem mais ou menos 80% da geração de caixa já lá fora. E a Gerdau, potenciais aumentos adicionais de tarifa de importação em cima de aço, porque desde o último governo Trump, houve essa mudança, que representou uma mudança estrutural no preço do aço nos EUA, isso beneficiou muito as margens dela até hoje. A questão da cota de aço tem ajudado também a margem brasileira”, diz Uébe. As ações da Gerdau fecharam com alta de 9,61%.

A EQI, que já estava posicionada para a eleição e diz focar muito mais nas questões dentro das empresas do que em eventos macro, olhando um horizonte de 2 a 5 anos, tem preferido alocar em empresas que conseguem navegar independente do cenário. “Se a gente dependesse de juros para comprar ação em empresa no mercado brasileiro, estaria passando fome há algum tempo já. Vendo essa perspectiva, não mudamos nossa carteira, continuamos com uma alocação relevante, por exemplo, no setor elétrico brasileiro, em que somos bastante otimista, porque é um setor que cresce, com relativa estabilidade de receita, de geração de caixa, atrelada à isolação e no ambiente dessas incertezas”, diz.

Uébe comenta que o prêmio de risco para negócios no Brasil está muito alto e o balanço das empresas está muito mais saudável do que, por exemplo, na época do pré-impeachment de 2016. Dessa forma, veem com muito otimismo o nível de preço das empresas, que está muito atrativo. A EQI tem preferido alocar em setores, além do elétrico, financeiro, e a algumas empresas com “vocação brasileira” de lidar com commodities, ligadas ao agro, que estão na cadeia de consumo, como de celulose, por exemplo.

Aqui, a alta na taxa de juros americana tira liquidez do mercado local, refletida na desvalorização do real frente ao dólar e, por outro lado, pressiona a curva de juros exigindo a manutenção do Spread Over Treasury, prêmio de risco exigido pelo investidor ao deixar investimentos que rendem em moeda forte para obter ganhos em moedas locais como a brasileira, destaca Tonet. 

Nesta quarta, o mercado precificou esses fatores após os resultados da eleição e as Treasuries de 10, 15 e de 5 anos estavam todas abrindo, gerando consequências ao Brasil e à renda fixa aqui também. “Temos que manter uma paridade de juros, uma diferença de juros mais alta, justamente por ser um país emergente com mais riscos. A ideia é que justamente após a vitória do Trump, os nossos DI's também já abriram, chegaram a bater seus 13%, 12,90%”, comenta Vitor Oliveira, sócio da One Investimentos.

Consequentemente, todos os DI's que já estavam estressados acabaram abrindo mais. Ou seja, a perspectiva de juros no Brasil, dado esse cenário Trump, é de um CDI mais alto durante esse período. “Temos que seguir essa mesma linha de juros altos para não perder, principalmente, o poder de moeda. Esses DI já estão precificando seus 12,90%, 13%, 13% e pouco, o que traz oportunidades para renda fixa, mais de 1% ao mês sem tomar muito risco”, diz Oliveira.

Dessa maneira, os ativos de renda fixa, tanto de CDI quanto os prefixados, que vão balizar dentro dessas taxas de DI futuras, vão ser ativos pré mais altos, e os atrelados à inflação, serão beneficiados. “Vemos essa relação nas NTNBs, nos títulos públicos, quase chegando ao IPCA+7, justamente por conta dessa puxada muito alta dos DI's”, aponta o executivo. Em detrimento disso, segundo Oliveira, o fluxo de ativos de risco, como bolsa, deve diminuir e provavelmente a renda variável deve sofrer ainda mais por conta desse movimento no Brasil.