Eleição americana e dólar a R$ 5,87 jogam pressão adicional sobre a Selic

O Comitê de Política Monetária (Copom) decide nesta semana a nova taxa Selic pressionado por uma piora generalizada de fatores internos e dúvidas sobre o ritmo de cortes na taxa dos Estados Unidos, a depender do vitorioso na eleição americana que ocorre nesta terça-feira (05). Na reunião desta quarta-feira, há consenso entre economistas, ligados ou não ao mercado financeiro, de que a Selic será elevada em meio ponto, a 11,25%. A piora generalizada de indicadores da inflação corrente, do câmbio e do mercado de trabalho se encarregaram de dissipar as poucas vozes contrárias. A ampla maioria das previsões também projeta outra alta na última reunião do ano, levando a Selic a 11,75%.
Nesta quarta, dados domésticos e a eleição americana vão dividir as atenções do Copom. “O colegiado vai estar atento a possíveis mudanças no câmbio, pelo peso que tem na inflação. Se os juros americanos caírem menos do que se imaginava, em uma vitória de Trump, a tendência é de valorização da moeda americana”, comenta Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú. “O Copom na quarta talvez não tenha a informação completa da eleição americana, mas, na certa, uma ideia mais próxima de quem será o vitorioso”, continua.
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Em setembro, o Federal Reserve (Fed), Banco Central dos Estados Unidos, cortou a taxa local em 0,50 ponto percentual, para a faixa entre 4,75% e 5,00%, a primeira redução desde 2020. Quando o diferencial entre o juro americano e o brasileiro aumenta, a tendência é atratividade de divisas para o Brasil, mas isto não tem ocorrido. O resultado é um dólar saltando para níveis próximos a R$ 5,80, o que impacta negativamente no controle de preços. Na sexta-feira (01), a moeda subiu 1,46%, fechando a R$ 5,87.

“O câmbio neste patamar se explica pela maior possibilidade de vitória do Trump, que se ganhar a eleição pode implementar políticas que tendem a ser bastante inflacionárias nos Estados Unidos, como, por exemplo, tarifas horizontais de 10% para todo mundo, de 60% para a China. Não vai entrar produto barato nos Estados Unidos”, avalia Gonçalves, do Itaú.
Relatório do Itaú sobre a reunião do Copom mostra a piora das expectativas inflacionárias. Comparadas ao apresentado na reunião de setembro, as projeções de inflação do comitê no cenário de referência (que inclui taxa de câmbio seguindo a paridade do poder de compra e taxa de juros de acordo com a pesquisa Focus) devem oscilar para 4,6% para 2024, ante 4,3% na reunião de setembro, e subir a 4% para 2025, acima de 3,7%. Os dados fazem parte de um cenário que inclui também câmbio em nível mais depreciado do que na reunião anterior, mercado de trabalho apertado e núcleos de inflação e expectativas ainda acima da meta.

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As pressões inflacionárias vindas do câmbio depreciado também são citadas por Arley Matos da Silva Júnior, estrategista de investimentos do Santander, como um componente importante para o Copom levar a Selic a 11,25% nesta semana. “Quando olhamos o câmbio, o real tem sofrido mundo, assim como outras moedas. Isto é um peso adicional na inflação doméstica. O outro é a questão fiscal”, explica Silva Júnior. A projeção do banco para a inflação deste ano está em 4,40% e para 2025 em 3,90%, um pouco mais otimista do que a do mercado. “A eleição de Trump traz um combo de medidas prometidas que geram mais inflação e, consequentemente mais juros e alta do dólar. Uma vitória do Trump indiretamente é um alerta para a política monetária local”, continua.
Gestores de fundos multimercados, ouvidos em pesquisa realizada pela XP, tem a mesma perspectiva de alta do juro de meio ponto percentual nesta semana. Na prévia da pesquisa liberada para a Capital Aberto, dos 23 gestores ouvidos apenas um projetava corte menor, de 0,25 pp. “A revisão para um juro maior começou em agosto e se consolidou em setembro, com a primeira elevação. Lembrando que na mesma pesquisa feita em janeiro os gestores projetavam Selic a 9% no fim do ano”, comenta Clara Sodré, analista de fundos da XP. Para dezembro, gestores multimercados ouvidos projetam taxa a 11,75%. “Quando a gente conversa com esses gestores, ouvimos primeiro que a inflação é muito alta, e depois os riscos fiscais, bastante citados nas conversas. Quando junta estes fatores com o dólar em alta, fica tudo mais desafiador.”
Na visão da analista de fundos da XP, todos aguardam mais dados para entender se, durante o início de 2025, ainda serão necessárias novas altas para controlar a inflação. Na pesquisa mais recente com gestores multimercado, quando comparado com janeiro deste ano, a previsão de PIB saltou de 1,5% para 3% de alta. O ponto que praticamente não mudou ao longo do tempo é a estimativa para um dólar a R$ 5,40. “Este é um ponto importante porque gestores sempre afirmam que câmbio é uma das variáveis mais delicadas de cravar um valor porque envolve questões que vão além do que a gente pode estar vendo por aqui, explica Clara. Na visão da analista, “câmbio perto de R$ 5,80 geralmente faz barulho”. E acrescenta: “gestores acreditam que chega um determinado momento que é importante ter uma atenção maior por parte do Banco Central para o câmbio, só que ainda isso [possível atuação do BC no câmbio] não foi observado”.
Fernando Gonçalves, do Itaú, lembra que dificilmente o BC atuaria para controlar ou definir uma taxa de câmbio, mas pondera que o próprio Gabriel Galípolo, que assume o comando da autoridade monetária em janeiro, afirmou que o BC só atua para evitar momentos do mercado em que ele esteja disfuncional. “Ummomento disfuncional é, por exemplo, quando se cria uma situação em que todos estão apostando para o mesmo lado e não tem ninguém querendo tomar o risco de apostar para o outro porque criam um momento para o câmbio para um lado só. Neste caso, o BC pode atuar. A questão é saber qual a definição exata do BC sobre um mercado disfuncional, entender o grau de sensibilidade para atuações no câmbio”, pondera o economista.
O dado positivo da pesquisa realizada pela XP com gestores multimercado é uma menor concentração em posições compradas em juros futuros – que espelham maior probabilidade de alta na taxa Selic. O dado é uma sinalização importante, já que a inclinação da curva futura na última semana chegou a ultrapassar 13%, bem acima das previsões da Selic para 2025. “A visão é de que talvez haja um exagero em relação ao que está sendo precificado hoje na curva”, explica Clara. Dos gestores ouvidos pela pesquisa, a maioria, 70%, está neutro nesse posicionamento. Contudo, dos outros 30%, metade está em posições que creem em juros maiores e o restante em taxas menores. “Isto é importante porque na pesquisa anterior, 75% dos gestores estavam na posição tomada de alta na curva”.
Outro ponto importante destacado pelos analistas é a necessidade de uma decisão unânime. “Eu entendo que em certos momentos, como o atual, a unanimidade tem mais valor do que em outros. A gente espera que haja uma decisão uniforme, principalmente em um momento de transição na liderança do Banco Central como agora”, comenta Fernando Gonçalves, do Itaú. Já a ata da reunião, na visão de Arley Silva Júnior, do Santander, não deve fechar um sinal claro da política monetária. “Acho que deve deixar um ponto em aberto a depender de próximos dados a serem divulgados e principalmente também o que vai acontecer lá fora”.


