Com reação ao pacote fiscal, real perde força em ranking de moedas

A volatilidade que levou o dólar à alta histórica em relação ao real, que ‘bateu’ R$ 6 pela primeira vez nesta quinta-feira (28), deve seguir nos próximos dias – embora seja difícil prever seu prazo de duração. Ao menos é o que avaliam os especialistas em câmbio e economistas ouvidos pela Capital Aberto após o anúncio do pacote fiscal do governo. A moeda americana fechou o dia a R$ 5,99, alta de 1,30%.
Juros futuros e bolsa também reagiram mal, e os agentes observam os movimentos do Banco Central, se poderá intervir no cenário de câmbio. O pacote não acalmou o mercado financeiro: o governo anunciou cortes, mas as isenções fiscais inclusas levaram economistas a tentar entender a matemática que, ao menos até o final do dia ontem, ainda não convencia sobre o efeito de melhoria para a dívida pública num período mais longo.
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Contas elaboradas por Itaú e Warren Investimentos, por exemplo, apontavam economia inferior à de R$ 71 bilhões anunciados para 2025 e 2026.
A reação ao câmbio, ao menos no curtíssimo prazo, reforçou o fraco desempenho do real em comparação às de pares da América Latina. Até a quarta-feira desta semana (27), o real acumulava desvalorização de 16,95% no ano diante do dólar – e só não ganha do desempenho fraco dos pesos argentino (-19,8%) e mexicano (-17,99%). O levantamento é da Quantum Finance.

Em uma cesta de moedas, o Brasil vem acumulando desvalorização por fatores internos e externos. “As chuvas no Rio Grande do Sul também foram um pivô que contribuiu para a queda do real, elevando a dinâmica inflacionária e pressionando o câmbio. O cenário externo, que conta ainda com tensões elevadas no Oriente Médio, além das eleições americanas, também é fator para a desvalorização perante a moeda americana”, disse Marcio Riauba, head da mesa de operações da StoneX Banco de Câmbio. A solidez da economia chinesa também participa da lista.
Enquanto durar o frenesi, o dólar deve seguir em alta no curto prazo, especialmente se as tensões fiscais não forem dissipadas e os investidores mantiverem a percepção de risco elevado no país. Já para médio e longo prazos, a trajetória do câmbio dependerá de como o governo conseguirá agir para equilibrar arrecadação, cortes de gastos e disciplina fiscal, segundo economistas.
Diego Costa, head de câmbio para Norte e Nordeste da B&T Câmbio, disse que, sem uma sinalização de comprometimento claro, é provável que o real continue sob pressão. “A mensagem dos mercados é clara”, disse, ao classificar o pacote fiscal como uma “solução simplista.”
Para ele, o anúncio ampliou a incerteza sobre a trajetória das contas públicas e a ausência de sinais concretos sobre cortes de gastos e a ênfase dada às medidas de arrecadação acabaram gerando dúvidas sobre a sustentabilidade do ajuste fiscal. “Isso provoca um movimento de proteção no mercado, com maior busca por dólares e saída de capitais”, continua Costa.
Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas, disse que, enquanto os ativos brasileiros sofriam volatilidade ao longo de ontem, o mercado buscava entender as formas de compensação relacionadas à medida anunciada para alterações no Imposto de Renda (IR). “Ainda se está tentando entender como o governo vai fechar essa conta”, disse.

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Gusmão acredita que a alta da moeda americana será de curto prazo. Para ele, poderá ceder “um pouquinho mais” quando o governo começar a destrinchar as propostas, ampliando o nível de compreensão dos agentes. Ele lembra, ainda, que outros fatores podem ter afetado o impulsionamento do câmbio ontem: liquidez pelo feriado nos EUA e período de formação de ptax, que já teriam garantido (mesmo sem o pacote) “um certo estresse no câmbio”.
Efeito para economia
Além da saída de capitais, o movimento de elevação do dólar pode impactar a negociação de preços dos insumos e de bens importados, o que por fim pode gerar impacto em setores industriais e agrícolas que dependem de componentes do exterior. No curto prazo, reiteram economistas, isso pode alimentar a inflação, dificultando o trabalho do Banco Central em reduzir a Selic. Além disso, o poder de compra da população é afetado, o que pode restringir o consumo interno.
“Em contrapartida, há benefícios pontuais para exportadores, que recebem em moeda estrangeira e podem ganhar competitividade no mercado internacional. No entanto, esses ganhos são limitados quando acompanhados de volatilidade e incerteza econômica, fatores que desestimulam investimentos de longo prazo e a geração de empregos”, disse Costa, da B&T.
Ponto de dúvida
Alexandre Viotto, diretor de mesa de câmbio da EQI Investimentos, acredita que a economia anunciada tende a trazer certo alívio nas contas públicas para 2025 e 2026. Mas, continua, a trajetória da dívida pode ficar pior do que antes do anúncio devido ao corte de impostos. “Há renúncia de receita”, destaca.
O ponto central que causou a reação dos ativos brasileiros foi a dúvida em relação às mudanças no Imposto de Renda (IR). Se, por um lado, o pacote fiscal trouxe isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil, por outro haverá recolhimento de até uma alíquota efetiva mínima de 10% da renda dos que ganham mais de R$ 50 mil mensais.
Para Viotto, que não arrisca prazos para a valorização da moeda americana, a tendência é de alta do dólar, dos juros e, no conjunto, do risco Brasil. “O que ficou mais latente para o mercado é que a trajetória da dívida deve continuar bem ruim para os próximos anos”, disse.
Cálculo elaborado pela Warren Investimentos aponta para economia de R$ 45,1 bilhões em 2025 e 2026 com as medidas – ou quase 63% do estimado pelo governo, de R$ 71,9 bilhões no mesmo período. O Itaú calculou economia de R$ 53 bilhões com as medidas.
“É um montante inferior ao esperado pelo governo, mas é relevante e está na direção correta”, disse Felipe Salto, economista chefe da Warren, em nota. Segundo ele, o anúncio da medida de mudança da faixa de isenção do IR acabou maculando o eventual efeito positivo do pacote.
O plano do governo
A divulgação do plano de ajuste fiscal foi feita na quarta-feira (27) à noite pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e detalhada na manhã de ontem a jornalistas. O ponto central para a volatilidade de ativos (juros, câmbio, bolsa) foi a inclusão da isenção de Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil ao pacote de economia fiscal – um debate que era esperado para 2025, mas antecipado pelo governo.
O mercado financeiro ainda tentava entender a economia proposta, enquanto os indicadores dos ativos brasileiros sofreram forte reação quando o dólar chegou a R$ 6 no final da manhã – pela primeira vez na história do real.
Já no início do dia, ontem, a curva futura de juros estava próxima a 14% em junho-julho de 2025, com alta em relação aos dias anteriores à divulgação do pacote, segundo a Kinea.
Haddad disse a jornalistas que as medidas anunciadas teriam um “efeito neutro” para a área tributária. O pacote, que precisará ser ainda aprovado pelo Congresso Nacional, também considera taxar rendas acima de R$ 50 mil.
Apesar das explicações da Fazenda, a volatilidade dos mercados não aplacou. Riauba, da StoneX, disse que o dólar atingiu máxima histórica intraday, de R$ 6,0032, em nota que circulou por volta de 13h30.
