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Com reação ao pacote fiscal, real perde força em ranking de moedas

Érica Polo

Alexandre Viotto, diretor de mesa de câmbio da EQI Investimentos
Alexandre Viotto, diretor de mesa de câmbio da EQI Investimentos

A volatilidade que levou o dólar à alta histórica em relação ao real, que ‘bateu’ R$ 6 pela primeira vez nesta quinta-feira (28), deve seguir nos próximos dias – embora seja difícil prever seu prazo de duração. Ao menos é o que avaliam os especialistas em câmbio e economistas ouvidos pela Capital Aberto após o anúncio do pacote fiscal do governo. A moeda americana fechou o dia a R$ 5,99, alta de 1,30%.

Juros futuros e bolsa também reagiram mal, e os agentes observam os movimentos do Banco Central, se poderá intervir no cenário de câmbio. O pacote não acalmou o mercado financeiro: o governo anunciou cortes, mas as isenções fiscais inclusas levaram economistas a tentar entender a matemática que, ao menos até o final do dia ontem, ainda não convencia sobre o efeito de melhoria para a dívida pública num período mais longo.


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Contas elaboradas por Itaú e Warren Investimentos, por exemplo, apontavam economia inferior à de R$ 71 bilhões anunciados para 2025 e 2026.

A reação ao câmbio, ao menos no curtíssimo prazo, reforçou o fraco desempenho do real em comparação às de pares da América Latina. Até a quarta-feira desta semana (27), o real acumulava desvalorização de 16,95% no ano diante do dólar – e só não ganha do desempenho fraco dos pesos argentino (-19,8%) e mexicano (-17,99%). O levantamento é da Quantum Finance.

Em uma cesta de moedas, o Brasil vem acumulando desvalorização por fatores internos e externos. “As chuvas no Rio Grande do Sul também foram um pivô que contribuiu para a queda do real, elevando a dinâmica inflacionária e pressionando o câmbio. O cenário externo, que conta ainda com tensões elevadas no Oriente Médio, além das eleições americanas, também é fator para a desvalorização perante a moeda americana”, disse Marcio Riauba, head da mesa de operações da StoneX Banco de Câmbio. A solidez da economia chinesa também participa da lista.

Enquanto durar o frenesi, o dólar deve seguir em alta no curto prazo, especialmente se as tensões fiscais não forem dissipadas e os investidores mantiverem a percepção de risco elevado no país. Já para médio e longo prazos, a trajetória do câmbio dependerá de como o governo conseguirá agir para equilibrar arrecadação, cortes de gastos e disciplina fiscal, segundo economistas.

Diego Costa, head de câmbio para Norte e Nordeste da B&T Câmbio, disse que, sem uma sinalização de comprometimento claro, é provável que o real continue sob pressão. “A mensagem dos mercados é clara”, disse, ao classificar o pacote fiscal como uma “solução simplista.”

Para ele, o anúncio ampliou a incerteza sobre a trajetória das contas públicas e a ausência de sinais concretos sobre cortes de gastos e a ênfase dada às medidas de arrecadação acabaram gerando dúvidas sobre a sustentabilidade do ajuste fiscal. “Isso provoca um movimento de proteção no mercado, com maior busca por dólares e saída de capitais”, continua Costa.

Elson Gusmão, diretor de câmbio da Ourominas, disse que, enquanto os ativos brasileiros sofriam volatilidade ao longo de ontem, o mercado buscava entender as formas de compensação relacionadas à medida anunciada para alterações no Imposto de Renda (IR). “Ainda se está tentando entender como o governo vai fechar essa conta”, disse.

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Gusmão acredita que a alta da moeda americana será de curto prazo. Para ele, poderá ceder “um pouquinho mais” quando o governo começar a destrinchar as propostas, ampliando o nível de compreensão dos agentes. Ele lembra, ainda, que outros fatores podem ter afetado o impulsionamento do câmbio ontem: liquidez pelo feriado nos EUA e período de formação de ptax, que já teriam garantido (mesmo sem o pacote) “um certo estresse no câmbio”.

Efeito para economia

Além da saída de capitais, o movimento de elevação do dólar pode impactar a negociação de preços dos insumos e de bens importados, o que por fim pode gerar impacto em setores industriais e agrícolas que dependem de componentes do exterior. No curto prazo, reiteram economistas, isso pode alimentar a inflação, dificultando o trabalho do Banco Central em reduzir a Selic. Além disso, o poder de compra da população é afetado, o que pode restringir o consumo interno.

“Em contrapartida, há benefícios pontuais para exportadores, que recebem em moeda estrangeira e podem ganhar competitividade no mercado internacional. No entanto, esses ganhos são limitados quando acompanhados de volatilidade e incerteza econômica, fatores que desestimulam investimentos de longo prazo e a geração de empregos”, disse Costa, da B&T.

Ponto de dúvida

Alexandre Viotto, diretor de mesa de câmbio da EQI Investimentos, acredita que a economia anunciada tende a trazer certo alívio nas contas públicas para 2025 e 2026. Mas, continua, a trajetória da dívida pode ficar pior do que antes do anúncio devido ao corte de impostos. “Há renúncia de receita”, destaca.

O ponto central que causou a reação dos ativos brasileiros foi a dúvida em relação às mudanças no Imposto de Renda (IR). Se, por um lado, o pacote fiscal trouxe isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil, por outro haverá recolhimento de até uma alíquota efetiva mínima de 10% da renda dos que ganham mais de R$ 50 mil mensais.

Para Viotto, que não arrisca prazos para a valorização da moeda americana, a tendência é de alta do dólar, dos juros e, no conjunto, do risco Brasil. “O que ficou mais latente para o mercado é que a trajetória da dívida deve continuar bem ruim para os próximos anos”, disse.

Cálculo elaborado pela Warren Investimentos aponta para economia de R$ 45,1 bilhões em 2025 e 2026 com as medidas – ou quase 63% do estimado pelo governo, de R$ 71,9 bilhões no mesmo período. O Itaú calculou economia de R$ 53 bilhões com as medidas.

“É um montante inferior ao esperado pelo governo, mas é relevante e está na direção correta”, disse Felipe Salto, economista chefe da Warren, em nota. Segundo ele, o anúncio da medida de mudança da faixa de isenção do IR acabou maculando o eventual efeito positivo do pacote.

O plano do governo

A divulgação do plano de ajuste fiscal foi feita na quarta-feira (27) à noite pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e detalhada na manhã de ontem a jornalistas. O ponto central para a volatilidade de ativos (juros, câmbio, bolsa) foi a inclusão da isenção de Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil ao pacote de economia fiscal – um debate que era esperado para 2025, mas antecipado pelo governo.

O mercado financeiro ainda tentava entender a economia proposta, enquanto os indicadores dos ativos brasileiros sofreram forte reação quando o dólar chegou a R$ 6 no final da manhã – pela primeira vez na história do real.

Já no início do dia, ontem, a curva futura de juros estava próxima a 14% em junho-julho de 2025, com alta em relação aos dias anteriores à divulgação do pacote, segundo a Kinea.

Haddad disse a jornalistas que as medidas anunciadas teriam um “efeito neutro” para a área tributária. O pacote, que precisará ser ainda aprovado pelo Congresso Nacional, também considera taxar rendas acima de R$ 50 mil.

Apesar das explicações da Fazenda, a volatilidade dos mercados não aplacou. Riauba, da StoneX, disse que o dólar atingiu máxima histórica intraday, de R$ 6,0032, em nota que circulou por volta de 13h30.