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Ceticismo sobre pacote chinês se soma ao problema fiscal doméstico e pressiona dólar

Amanda Meneses

Marcio Riauba, gerente da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio
Marcio Riauba, gerente da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio

O dólar, que já estava em alta devido ao cenário fiscal interno e a uma precificação da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, agora sofre uma nova valorização, com agentes do mercado atentos ao novo pacote chinês de incentivo. Embora as medida possam ser positivas para o Brasil, o mercado questiona se os estímulos serão suficientes para reerguer a economia da China. Nesta sexta-feira (08) a moeda chegou a atingir a máxima de R$ 5,7908. 

Com a eleição de Donald Trump, o mercado começou a precificar uma possível alta da inflação nos Estados Unidos, considerando que o novo presidente tende a adotar políticas inflacionárias. Esse cenário sugere a possibilidade de uma alteração no ciclo de juros no país, possivelmente levando o Fed a desacelerar o ritmo de cortes ou mesmo interromper o movimento. A política economia do republicano deve, com isso, favorecer a alta do dólar.

No Brasil, para conter a alta da moeda americana, especialistas afirmam que é necessário um pacote fiscal extremamente detalhado, com valores e prazos bem definidos, como um projeto estruturado para ser seguido, o que ainda não foi sinalizado. “Esse contexto se combina com o pacote chinês de estímulos, que não atendeu às expectativas do mercado, resultando em um desaquecimento das exportações para o nosso principal comprador. Somado a isso, temos a indefinição sobre o pacote fiscal e a perspectiva de uma política inflacionária nos EUA, o que cria um cenário propício para estresse cambial”, comenta Diego Gardi, gerente comercial e analista da B&T Câmbio.

Na madrugada desta sexta-feira, a segunda maior economia do mundo divulgou uma nova rodada de estímulos com um pacote que alivia as tensões de pagamento de dívidas para os governos locais. No entanto, as medidas não foram bem recebidas pelo mercado, uma vez que investidores esperavam ações mais agressivas. A China tem enfrentado fortes pressões deflacionárias em meio à fraqueza da demanda, uma crise imobiliária e crescentes pressões financeiras sobre os governos locais, com as perspectivas ainda mais obscurecidas pela vitória de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, que ameaçou impor tarifas superiores a 60% sobre todos os produtos chineses.

“Em relação ao pacote chinês, em um programa de US$ 1,4 tri que permite que os governos locais refinanciem dívidas, parece não ter feito tanto barulho quanto se esperava”, comenta Marcio Riauba, gerente da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio.

O especialista menciona ainda que a moeda local da China, o yuan, caiu frente ao dólar em um momento em que dados recentes mostraram diversos sinais de uma estabilização do crescimento, também impactado pelo fator Trump. “Investidores esperavam um pacote mais robusto, não pesando somente sobre a moeda, mas também impactando o minério de ferro e o cobre.”

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Embora na semana passada frente à anterior o dólar tenha recuado 2,2%, a moeda segue acima de R$ 5,70, um nível elevado e que, na visão dos analistas, responde também às incertezas sobre o pacote fiscal que deve ser anunciado pelo Governo, com expectativas que o anúncio possa ocorrer ainda hoje, depois da confirmação sobre a retomada das conversas após consecutivas reuniões suspensas ao longo da semana.


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Na sexta-feira (08), o IPCA de outubro veio maior do que o esperado, rompendo o teto da meta e também pressionou os juros futuros, que subiram mais de 10 pontos. “Economistas citam que IPCA um pouco acima não serve de pivô para a deterioração do real, mas sim o dado abre espaço para uma precificação mais uma alta da Selic para dezembro”, diz o especialista da Stone X.

O dado mais recente do IPCA indica taxas de juros mais altas por mais tempo e, consequentemente, um maior diferencial entre as taxas no Brasil e nos EUA. Em tese, isto pode atrair investimentos. Até aqui, contudo, este diferencial não foi o suficiente para conter a alta do dólar, uma vez que os fatores externos e o temor fiscal se sobressaíram. A moeda fechou as negociações na sexta-feira a R$ 5, 7336, com alta de 0,73%.

A cesta de moedas emergentes caiu acima de 1%, em destaque especial para o peso mexicano, após o anúncio do novo representante do Comercio dos EUA, que tem viés mais rigoroso para as políticas comerciais que envolvam demais países. “Diante deste cenário, o real, devido ao seu atrativo carry de juros, serviu como alternativa para os investimentos que miram divisas emergentes. Porém, devido às incertezas quanto aos cortes de gastos, o real segue figurando como destaque negativo”, pondera o especialista da Stone X.

Para ele, a projeção para o dólar no final do ano vai depender muito da capacidade do governo em entregar medidas concretas que permitam atingir as metas fiscais e o controle da inflação. “O Focus aponta R$ 5.50. Acredito que, com as medidas coerentes sobre suportes de juros pode ir a R$ 5,40. Caso negativo, creio no patamar atual R$ 5.73.”

Já a B&T destaca a importância das medidas internas sobre as contas públicas, mas acredita num limite para o dólar. “Não acredito que o câmbio ultrapasse os níveis atuais, pois o custo dos juros elevados desestimula os fundos a manterem posições contrárias ao real. No entanto, sinais de alívio só devem ocorrer caso o pacote fiscal seja bem estruturado e definido. Acredito que uma faixa próxima a R$ 5,60 seja a mais realista no momento”, diz Gardi.

Para o especialista, se as autoridades chinesas finalmente implementarem estímulos mais consistentes, será possível observar impactos significativos tanto na demanda por commodities quanto na balança comercial, cuja influência sobre o dólar no Brasil é direta. No entanto, segundo ele, hoje o receio quanto à trajetória de ajuste fiscal aqui é um dos principais motores da volatilidade do dólar. “Mesmo que o cenário externo seja mais favorável, com estabilidade nas políticas monetárias dos principais bancos centrais e sinais positivos nas economias desenvolvidas, a confiança do investidor ainda precisa ser reconstruída.”