Após halving e ascensão de Trump, Bitcoin tem ano de ouro

Os recordes mais recentes no preço do Bitcoin têm nome e sobrenome: Donald Trump. Mas a vitória do republicano, de forma isolada, não explica o ano de ouro do ativo. Desde janeiro, o Bitcoin acumula alta de 132%, rondando nos últimos dias a marca de US$ 100 mil. O evento Trump, considerado ao longo da campanha um candidato pró-cripto, adicionou fatores a 2024 já importante para o universo dos criptoativos, com o halving e aprovação dos ETFs de Bitcoin e de Ethereum na bolsa americana. A Capital Aberto ouviu especialistas sobre o que muda com a gestão Trump e a sustentabilidade da alta recente. Ponto comum dos discursos é a visão de que as sinalizações do novo presidente americano, a se materializarem, transformam os Estados Unidos em um ambiente mais amistoso aos criptoativos. A expectativa ao longo dos ultimos dias foi pelo rompimento da 'barreira psicolígoca' de US$ 100 mil. Até o fechamento da reportagem, o ativo era negociado a US$ 98.277.
“A valorização pós-eleição se justifica sim. O Trump entendeu que nesse setor tem dinheiro. Ele sinaliza por um fim ao combate dos reguladores, um combate da SEC aos ativos digitais. Não era um ambiente amigável”, comenta Norberto Zaiet, CEO da Picea Value Investors, um family office baseado em Nova York. “Você vai ter uma administração que, ao invés de combater, vai dar mais ímpeto à classe de ativos.”
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Uma das promessas de campanha de Donald Trump era “demitir” Gary Gensler, presidente da SEC americana, que regula o mercado de capitais no país. Embora não fosse possível mandar embora o executivo. Gensler já informou que deixa o posto em 20 de janeiro de 2025. A atuação da SEC é considerada pouco amistosa com os ativos digitais. “Ao longo do governo democrata, vimos uma SEC um pouco complicada com o mercado de cripto, foi um pouco inimiga do mercado, Gary Gensler acabou processando algumas empresas de cripto, protocolos, processando até algumas pessoas importantes desse mercado”, relembra Marcello Cestari, especialista em fundos de criptoativos da Empiricus Gestão. “Isto inibiu a atividade local, tanto que a Coinbase começou a expandir sua atuação fora dos Estados Unidos.”
Na visão do diretor de Novos Negócios do Mercado Bitcoin (MB), Fabrício Tota, o americano tinha uma escolha (Trump x Kamala) com efeitos binários no mundo cripto. “A visão do regulador era extremamente conservadora. Você criar regulações que impedem o desenvolvimento é um jeito de regular também. Tudo bem, o mercado podia se desenvolver com as restrições dos Estados Unidos, e assim o fez, mas claro que é muito mais interessante sem [os entraves]”, comenta Tota.

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Bancos e criptoativos
Outra promessa de Trump que animou investidores e é um dos elementos responsáveis pelo otimismo pós-eleição é a tendência de que bancos sejam autorizados a fazer a custódia dos ativos digitais. “Tem uma regra nos Estados Unidos onde os bancos tradicionais não poderiam oferecer cripto. Mudar isto é importante porque podemos ter um bull market diferente do anterior”, comenta Cestari, da Empiricus Gestão. “Quem investia em criptoativos, como Bitcoin, eram basicamente os mais jovens ou quem já era conhecedor do assunto e tinha que abrir conta em exchange, em corretora. Vai diminuir o preconceito com os criptos.”
O diretor do MB também vê na possibilidade de mudança mais uma validação sobre a relevância dos criptoativos. “O investidor pensa tenho conta no Morgan Stanley, é seguro, mas para ter um ativo digital tem que abrir conta em corretora. Um novo player que ele não conhece. Será uma mudança importante.”
Efeito ETF
As promessas do novo presidente americano apenas confirmaram um ano dos mais positivos, principalmente após a decisão da SEC de autorizar a negociação de ETF de Bitcoin na bolsa americana no primeiro semestre. Este foi o primeiro impulso importante na cotação ao longo do ano. “Estranhamente o Bitcoin é descentralizado, por princípio, mas ganhou com o empacotamento na forma de ETF, produto regulamentado. Quando foram criados os ETFs de ouro ao invés do investidor comprar a barrinha de ouro e levar para casa, passou a ter um ativo financeiro custodiado. O mesmo com o Bitcoin”, afirma Zaiet. Meses depois, outro ETF, da cripto Ethereum, também foi autorizado no mercado americano pela SEC.
Perspectivas
O rompimento da barreira psicológica dos US$ 100 mil é importante, na visão dos especialistas, porque a tendência histórica é que a cripto busque outros níveis (limites) ao longo dos proximos meses. A possibilidade de uma onda de vendas para realização de ganhos quando a cripto bater em US$ 100 mil é real e pode em um primeiro momento promover um recuo na cotação, mas não altera a tendência. O difícil é cravar qual será o limite de alta do Bitcon - busca de um novo teto. "Esta é a pergunta de US$ 1 milhão, ou talvez de US$ 100 mil mesmo. É muito dificil estabelecer novos patamares", brinca Tota, do Mercado Bitcoin

Além da busca por novos patamares, pós-atingimento da marca de US$ 100 mil, outra tendência destacada pelos especialistas é que o Bitcoin ganhe espaço como "reserva de valor" como já o são o dólar e ouro, mas o que ocorrerá ao longo do tempo. “A tendência é esta, o próprio ativo caminha para se tornar reserva de valor. Já tem quase 20 anos de história, passou por muita coisa e resistiu. Tem um espaço para isto ocorrer”, comenta Zaiet.
Cestari, da Empiricus Gestão, lembra que o mercado de cripto é um mercado novo, viveu diversos cenários, mas agora enfrentará algo diferente, que é a fase de corte nos juros americanos. “Desde que a cripto foi criada, é a primeira vez que isso ocorre (corte de juro nos EUA). É um ano que teve também halving, aprovação dos ETFs no mercado americano, que dão muito mais acesso para os institucionais. O cenário favorece.” O executivo acrescenta que também vê espaço para que o Bitcoin caminhe e passe a ser utilizado como reserva de valor. “É uma estrutura de um ativo que é escasso, tem 21 milhões de unidades disponíveis apenas, onde a sua emissão é reduzida de 4 em 4 anos pela metade. Tudo joga a favor.”
