Galípolo destaca independência e abordagem conservadora às taxas

O indicado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comandar o Banco Central a partir do próximo ano, Gabriel Galípolo, disse nesta terça-feira (08) que o presidente brasileiro foi enfático e claro ao garantir a ele liberdade na tomada de decisões.
Considerado um economista heterodoxo com acesso direto a Lula, Galípolo tem procurado amenizar as preocupações do mercado sobre seu potencial de leniência com a inflação se pressionado pelo presidente.
Ao se pronunciar nesta terça-feira (08) em uma audiência do comitê do Senado, onde será realizada a votação sobre sua nomeação, ele reiterou o compromisso de perseguir uma meta de inflação de 3% e observou que os formuladores de políticas estavam preocupados com expectativas não ancoradas para os preços ao consumidor. "Cabe ao banco central perseguir esse objetivo de forma inequívoca, mantendo as taxas de juros em um nível restritivo pelo tempo que for necessário para alcançá-lo", disse ele.
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Galípolo reconheceu que a inflação anual básica do Brasil está no mesmo nível de países mais estáveis como os EUA, mas observou que a maior economia da América Latina não está desacelerando, razão pela qual a desinflação deve ser mais lenta e custosa.
Ele enfatizou, no entanto, que, embora dados atuais como inflação e números do mercado de trabalho sejam importantes, o foco do BC está em um horizonte de longo prazo.
"Há uma desancoragem (da inflação) no horizonte, relevante, que nos incomoda", disse ele, referindo-se a uma das variáveis que os economistas enxergam como indicativas de uma potencial aceleração no ritmo de aumento das taxas de juros.

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Galípolo, juntamente com os outros integrantes do Copom, votou no mês passado para dar início a um ciclo de aperto monetário, aumentando as taxas de juros em 25 pontos-base, para 10,75%.
Antes da decisão, quando sua nomeação já era pública, Lula disse sobre os formuladores de políticas: "Se eles precisam aumentar as taxas de juros, então eles precisam aumentar as taxas de juros". A observação foi vista como uma mudança após os constantes apelos por menores custos de empréstimos para apoiar a economia e os investimentos.
A inflação anual do Brasil em meados de setembro atingiu 4,12%, enquanto as expectativas de economistas privados consultados semanalmente pelo Banco Central são de alta de 4,38% neste ano, 3,97% no próximo ano e 3,60% em 2026, em todos os casos acima da meta oficial.
Ceticismo de mercado
A ligação de Galípolo com Lula, com quem viajou ao México na semana passada para a posse da presidente Claudia Sheinbaum, gerou ceticismo entre muitos participantes do mercado desde que ele foi escolhido pela primeira vez para um cargo no BC no ano passado.
O economista, ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda no governo Lula, atua como diretor de política monetária do banco desde julho de 2023.
Os mercados inicialmente expressaram preocupação sobre sua percepção de falta de conhecimento técnico e opiniões sobre questões como a necessidade de intervenção estatal para priorizar necessidades sociais e a sugestão de que a autoridade monetária do país poderia atuar em toda a curva de rendimentos.
Desde então, ele superou a resistência inicial para suceder o atual dirigente da instituição, Roberto Campos Neto, nomeado pelo ex-presidente do país, Jair Bolsonaro. Neto tem enfrentado críticas vocais de Lula desde que o presidente assumiu o cargo em janeiro de 2023.
Jefferson Laatus, estrategista-chefe do grupo Laatus, disse que as preocupações do mercado não cessarão imediatamente. "Só saberemos com certeza em janeiro, na primeira reunião que realmente ocorrerá com ele como presidente [do BC]", disse ele.
Após aprovação da comissão, o nome de Galípolo ainda precisa ser ratificado pelo plenário do Senado. Questionado sobre a autonomia financeira do Banco Central, proposta rejeitada pelo governo Lula, mas apoiada por Campos Neto, Galípolo disse que a discussão atual marca um "avanço significativo".
