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Volatilidade pode fazer BC intervir novamente no câmbio

Leandro Tavares

Enrico Cozzolino, sócio e head de análises da Levante Investimentos
Enrico Cozzolino, sócio e head de análises da Levante Investimentos

Nem pela alta e nem baixa. O Banco Central (BC) voltou a intervir no câmbio pouco mais de dois anos depois, por meio de um leilão extraordinário de venda de dólares no mercado à vista, por conta de situações que, na avaliação da autoridade monetária, poderiam levar a uma anomalia no câmbio.

Entre os fatores que causaram a intervenção na sexta-feira (30), o fluxo de saída de capital por conta do rebalanceamento do índice EWZ, que mede o Ibovespa em dólar, que terá a partir desta semana empresas como Nubank, Inter, XP, Pagseguro e Stone. Além disso, como no último dia do mês é de formatação da PTAX, que serve de referência para a liquidação de contratos futuros, é normal ter muita disputa entre os chamados comprados e vendidos, que apostam na alta do dólar e na baixa, respectivamente.

Além disso, o câmbio passou a ter uma volatilidade mais acentuada recentemente, após a proposta do governo federal de ampliação do Auxílio Gás, podendo aumentar o rombo fiscal, às vésperas da apresentação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2025.

Diante de tal cenário, especialistas consultados pela Capital Aberto afirmaram que o BC pode voltar a intervir no câmbio, principalmente se a alta da moeda afetar fortemente a inflação, ou se a volatilidade permanecer acentuada, como nos últimos dias, ou mesmo por conta da saída de capital gringo, risco fiscal, cenário político ou geopolítico.

“O BC quando prevê saída de divisas com alto impacto, como essa questão do rebalanceamento do MSCI, faz operações de swap para reduzir o impacto no câmbio. O que vemos é que o objetivo do BC era segurar o câmbio, preservando de um impacto maior caso não houvesse o leilão de swap”, explica o diretor da mesa de Câmbio da Planner Investimentos, Douglas Ferreira.

Na avaliação de Ferreira, o BC agiu preventivamente com o leilão para mitigar o impacto esperado com a saída de recursos. Essa afirmação tanto é verdade que o dólar à vista encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,6113, uma queda de 0,28%, enquanto o dólar futuro, que rege a maioria dos contratos, caiu 0,39%, a R$ 5,6255. No leilão, o BC aceitou uma oferta de US$ 1,5 bilhão, valor total do certame, com taxa de corte de 0,000170.


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“Acredito que com a indicação do Galípolo [Gabriel], o mercado começaria a testar o BC. Nosso mercado é meramente especulativo, e a entrada do BC foi para mostrar ao mercado que estará atento a qualquer disfuncionalidade. Na minha opinião, mostra que o BC, numa futura gestão Galípolo, será mais atuante do que foi na gestão Campos Neto”, comenta o diretor de Câmbio da Ourominas, Elson Gusmão.

Na própria sexta-feira, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, confirmou que a intervenção se deu pela expectativa de saída de recursos com o rebalanceamento do EWZ. “O Banco Central atua no mercado de câmbio se identificar alguma anomalia, não faz nada pontual, de curto prazo. Temos reservas suficientes que nos permitem atuar e foi esta a decisão tomada”, afirmou, durante sua participação na Expert 2024.

O sócio e head de análises da Levante Investimentos, Enrico Cozzolino, acredita que a estimativa de saída de dólar diante do rebalanceamento do EWZ traz de fato uma disfuncionalidade, o que justifica a entrada do BC. “É para isso que o BC intervém sempre, nunca intervém para conter altas do dólar, não é esse o objetivo do BC. Então sempre existe a possibilidade de o BC voltar a intervir, porque é um cenário de volatilidade”.

Cozzolino lembra que o BC pode intervir no mercado não apenas via leilão como o de sexta, mas também via swap. “O BC atua fazendo essas vendas, tem períodos que são constantemente executados para prover liquidez, tornar o mercado funcional”.

Numa operação extra, o BC, na sexta-feira à tarde, vendeu mais de 15 mil contratos de swap cambial tradicional, de um total de 30 mil contratos, totalizando R$ 1,5 bilhão. A venda de swap tem efeito semelhante à negociação de dólares no mercado futuro.

E o curto prazo

Como setembro será o mês de decisão de política monetária aqui e nos Estados Unidos, a expectativa é que a moeda tenha ainda mais volatilidade no curto prazo, aguardando pela ratificação de Galípolo como presidente do BC e pela magnitude do corte de juro pelo Federal Reserve (Fed).

Para Gusmão, o possível corte de 0,25 pontos no juro americano deve fazer com o que o dólar ceda. “Mas, como estamos no Brasil, outros fatos pesam como a nossa situação fiscal, tributária e política”.

Apesar de diversas variáveis que podem impactar o câmbio, o sócio da Levante Investimentos vê um dólar mais fraco no curto prazo. “Se o cenário político local melhorar, porque o econômico de alguma forma vai bem, o juro está dentro de um patamar esperado, a inflação sob controle, a gente deveria não observar novas máximas”.