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Efeito do dólar em queda nos ativos ainda é incerto

Érica Polo e Amanda Meneses

Bruna Sene, analista de renda variável da Rico
Bruna Sene, analista de renda variável da Rico

O real virou o jogo em setembro ao valorizar 3,34% em comparação ao dólar, até o dia 25. O ativo brasileiro teve o maior ganho frente à norte-americana em uma cesta de 27 moedas das principais economias do mundo, apontou um levantamento da consultoria Elos Ayta. No acumulado do ano, contudo, há ainda desvalorização de 11,55% (ver gráfico).

Qual será o futuro da moeda brasileira no curtíssimo prazo, considerado o quadro que une o aperto da política monetária e as incertezas sobre a situação fiscal brasileira – e, além disso, qual será o impacto da valorização (se houver) para o fluxo da B3 – são questões postas na mesa de muitos analistas. Economistas consultados pela Capital Aberto projetam câmbio num intervalo entre R$ 5,30 a R$ 5,60 no final de 2024.

Até o dia do estudo (25), o dólar Ptax valia R$ 5,47 – na sexta-feira (27) recuou um pouco mais, para R$ 5,44. A perspectiva de alteração de rota da política monetária pelo Banco Central (BC), que elevou a taxa básica de juros para 10,75% ao ano neste mês, contribuiu para a entrada de capitais externos, pontua Leonel Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX. Economistas reiteram que este foi um dos fatores que explicam a valorização do real no período avaliado.

“O real caminha para encerrar o mês de setembro liderando o ranking de valorização frente ao dólar. Esse movimento positivo no cenário global reflete uma combinação de fatores internos e externos. Entre eles, podemos destacar a redução das pressões inflacionárias nos principais mercados e os estímulos econômicos na China, que impulsionaram as moedas de países emergentes”, acrescenta Diego Costa, head de câmbio para o Norte e Nordeste da B&T Câmbio.  


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No entanto, continua Costa, os riscos fiscais domésticos permanecem “fortemente presentes” no radar dos investidores e a volatilidade continua sendo uma característica na trajetória do dólar frente ao real. Vale ressaltar, dizem economistas, que a valorização acontece após uma expressiva depreciação do real ao longo do ano. “Isso ressalta a fragilidade da economia brasileira e a continuidade de um ambiente econômico incerto”, resume Costa.

Silvio Campos Neto, economista sênior e sócio da Tendências Consultoria, segue a mesma linha ao avaliar que o cenário de valorização do real ainda é “bastante incerto” apesar da valorização recente. A Tendências projeta R$ 5,45/dólar para o final do ano. “Os modelos hoje indicariam até uma taxa mais baixa, próximo a R$ 5,10, no final deste ano”, continua.

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Mas a projeção mais cautelosa (a Tendências projeta hoje R$ 5,45) é mantida por cenário de incertezas. A alta de juros no Brasil e a baixa pelo Fed, situações esperadas para os próximos meses, estão na conta e favorecem a situação da moeda, contudo, ao mesmo tempo há a preocupação com a situação fiscal do governo federal.  “O governo já deixou muito claro que não vai atacar a dinâmica das despesas estruturalmente, e dificilmente isso vai acontecer até 2026”, acrescenta o sócio da Tendências.

A StoneX não entregou uma projeção oficial, mas o analista não acha muito fora de contexto o dólar cotado perto de R$ 5,35 a R$ 5,45 em dezembro. Aliado ao fator alta da Selic (e queda de juros nos EUA), fatores que tornam o Brasil mais atraente, Mattos, da StoneX, acrescenta que o ambiente global está propício ao apetite por riscos, visto que a economia americana ainda se mostra mais resiliente do que se esperava.

Mais um tema que pode influenciar a cotação da moeda brasileira perante o dólar no curto prazo é a eleição presidencial norte-americana. Campos Neto, da Tendências, reitera a disputa parelha entre as duas candidaturas, mas que o resultado do pleito também pode causar ruído no comportamento do câmbio. A evolução da economia chinesa também está no radar, visto que influencia diretamente a demanda por commodities brasileiras.

Bolsa de valores

O câmbio pode alterar a percepção do estrangeiro para investir em bolsa, pois caso o real esteja excessivamente depreciado fica mais atrativo ao estrangeiro comprar papéis, diz Campos Neto, da Tendências. “Porém, a tendência é que os fluxos sigam limitados pelas preocupações fiscais, pelo temor com medidas intervencionistas e pela expectativa de desaceleração da China”, opina.

No ano, a B3 perdeu muito investimento estrangeiro até junho. Dados da bolsa mostram só julho e agosto com dados positivos. Em setembro, até 25 de setembro, mesmo com a valorização do real diante do dólar, houve saída de R$ 589,4 milhões da bolsa. “Não vejo que o real mais valorizado é algo que estaria na tomada de decisão do investidor em ações. Acredito que pode haver um impacto, mas indireto”, diz Bruna Sene, analista de renda variável da Rico.

Para a analista, um dólar mais baixo pressiona menos a inflação o que pode impactar em tom menos duro do Copom para juros, o que poderia ser “interessante para as ações”, continua Sene.

Entre os fatores que determinaram a decisão de investidores na B3 no ano , além do fator câmbio, é a concorrência com outras bolsas – e as americanas foram muito bem, sobretudo o setor de tecnologia, lembra Mattos. Desempenho ruim das commodities também afetaram a bolsa brasileira, visto que o Brasil é um forte exportador de minérios e grãos. Com o anúncio de estímulos econômicas na China esse cenário pode ser alterado, lembram os economistas.

Outras moedas

O estudo da consultoria Elos Ayta, elaborada pelo economista Einar Rivero, aponta ainda que as moedas da Argentina, México e Turquia tiveram as desvalorizações mais expressivas até 25 de setembro, de 16,47%, 13,62% e 13,61%, nessa ordem.

O movimento de desvalorização do peso mexicano segue uma dinâmica semelhante à do real, diz Costa, da B&T Câmbio. Segundo ele, a perspectiva de enfraquecimento da economia dos Estados Unidos impactou diretamente a moeda, além das preocupações econômicas na China.

Os economistas lembraram que as eleições no México foram fator adicional para a volatilidade da moeda. “As eleições não corresponderam às expectativas do mercado, gerando incertezas sobre as futuras políticas econômicas do país, o que acabou pesando sobre o peso mexicano”, disse Costa.

Já a Argentina passa por uma profunda reforma econômica do seu modelo econômico. O economista da Tendências afirma que o retrato atual traz uma série de resultados negativos no primeiro momento com as tentativas de correção de preços relativos e uma reversão de subsídios para tentar minimizar o problema fiscal.