Com ativos baratos no Brasil e rebalanceamento de portfólio nos EUA, estrangeiros voltam para a B3

Após meses de fuga de capital na B3, os investidores estrangeiros finalmente voltaram a aplicar no Brasil. Embalados pela precificação do início do corte de juros nos Estados Unidos e incertezas relacionadas à corrida eleitoral por lá, os investidores deixaram as big techs de lado, após meses segurando suas posições, e aumentaram o apetite ao risco, com o objetivo de rotacionar o portfólio.
Diante deste cenário, com os investidores buscando ações de megacaps para partes mais arriscadas do mercado, o capital estrangeiro voltou para a bolsa brasileira. Em julho, até o dia 19, esse fluxo de recurso soma R$ 9,5 bilhões, segundo dados da B3. Até o dia 18, o total era de R$ 4,6 bilhões no mês.
“Cresceu muito a probabilidade de os juros começarem a cair em setembro nos EUA, e isso começou a provocar um movimento aqui fora de reposicionamento. O pessoal começou a olhar para empresas que não estavam olhando antes”, comenta Norberto Zaiet, CEO da Picea Value Investors, um family office baseado em Nova York. “A maioria do mercado apostou esse ano inteiro nas big techs e elas, de fato, vem entregando o resultado de maneira bastante consistente, mas o mercado estava negligenciando muito as empresas menores, mais alavancadas em geral, cujos fluxos de caixa são mais ligados aos juros.”
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Zaiet ressalta que, quando há sinalização de um ciclo de queda começando, o cenário começa a aliviar para as empresas mais alavancadas, que fazem parte das small to mid caps americanas. Como há “uma gordura” de ganhos significativos do setor de tecnologia, está havendo uma rotação de setores. Praticamente, as grandes de tecnologia haviam sugado liquidez tanto do mercado local americano quanto do mundo, faltando capital para outros ativos, mas agora há uma certa inversão.
“Acabamos de ver, por exemplo, o Buffett vendendo uma participação na Apple. Se sou um gestor, tenho uma participação em uma empresa dessas, ela valorizou absurdamente, eu diminuo um pouco a posição e procuro outra coisa, outros ativos estão uma pechincha. Na média, o Russell, que é o índice de small cap americano, negocia, quando você pega historicamente, acima dos múltiplos do S&P”, observa Thiago Pedroso, responsável pela área de renda variável da Criteria.

Segundo Pedroso, por enquanto, o que está acontecendo está muito mais para uma rotação natural de ajuste, balanceamento de posição e portfólio do que qualquer problema estrutural, embora tenha algumas dúvidas no mercado com relação ao quanto essas empresas que valorizaram tanto vão conseguir cumprir esse crescimento.

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Ainda que haja expectativas de crescimento para as techs, também há incertezas que pairam sobre o próximo presidente dos EUA. “Quando você olha o país, você tem um viés do que pode acontecer se tiver a entrada do Trump, por exemplo, e ele acaba falando muito sobre proteção contra a China, aumento de impostos e até menciona as questões de tecnologia, de semicondutores, de chips”, conta Isabel Lemos, gestora de renda variável do Fator Gestão. “Ele quer que o país não fique dependente tanto da tecnologia de fora. Acho que essa é a grande questão, o quanto isso pode impactar esse setor”.

“Com esse cenário de rotação, o capital que saiu de big tech foi procurar onde alocar, então ajuda também aqui no mercado local. Esse mês a gente teve a oferta da Sabesp, que ajudou, entregou uma entrada grande do gringo”, diz o executivo da Criteria.
Para Isabel, uma convergência de alguns fatores ajuda nessa rotação. O primeiro deles é, obviamente, menos incerteza, com os dados positivos dos EUA, o mercado precifica a queda dos juros, ainda que não haja consenso sobre qual o número de cortes e quando exatamente, o que implica na diminuição do spread entre o juro americano e o brasileiro.
“Além disso, o dólar se valorizou significativamente, o que é importante para esse capital, porque com o dólar mais alto, a bolsa brasileira fica mais barata para o investidor estrangeiro”. Tem também uma outra variável, que essa existe já há algum tempo, de que os ativos aqui estão baratos. Estão baratos vis-à-vis ao potencial que eles têm por fluxo de caixa, por perspectivas de resultado, por múltiplos”, explica a gestora de renda variável do Fator Gestão.
As sinalizações do governo brasileiro a respeito do fiscal também parecem ter surtido algum efeito, ainda que sejam necessários mais esforços. Lá fora, caso os fatores joguem a favor e não haja mais turbulência, tanto em relação à economia quanto à política, a tendência é que o movimento continue. “Se tiver mais incerteza, não estou nem falando do Brasil, aí eles fazem de novo um movimento, que chamam de risk-off, e vai para comprar juros de novo, saindo um pouco de bolsa. Mas agora a gente está vendo a entrada de fluxo nessas últimas semanas”, ressalta Isabel.
Fluxo pode continuar
Além da inflação e dos juros lá fora, outro fator importante para o fluxo estrangeiro é a China, grande parceiro comercial do Brasil em commodities, que ajuda na entrada de dólar no país. Nesses últimos anos em que o país teve uma economia mais fraca, o gigante chinês usou o segundo semestre para colocar mais estímulo e tentar forçar o PIB crescer. “Se ela entregar um movimento de crescimento mais forte no segundo semestre, somada a um ciclo de juros caindo nos EUA, que seria uma questão de rotação natural de dinheiro voltando para emergentes, a gente poderia ter um movimento muito positivo aqui de entrada de recurso, para mercado, para dólar para baixo, e a chave ia mudar muito rápido”, opina Pedroso.
Ao longo deste semestre, a questão fiscal deve continuar em pauta. No entanto, o que deve mexer mesmo com o fluxo de capital deve ser os fatores externos. Para os especialistas, o cenário lá fora não apresentando uma mudança significativa, com o cenário de início de queda de juros, os investidores estrangeiros devem analisar um pouco mais posições de médio e longo prazo e a tendência é esse capital voltar para cá, mas o governo brasileiro também precisa fazer seu papel e dar sinalizações a respeito da parte orçamentária e fiscal.


