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Ferramentas de gestão de liquidez: um pilar estratégico para a resiliência dos fundos de investimento

Zeca Doherty

Tensões políticas, insolvências e ajustes abruptos no preço dos ativos tornam o ambiente econômico cada vez mais desafiador. Para os gestores de fundos, esses episódios reforçam a importância de monitorar a liquidez das carteiras com rigor e antecipar potenciais situações de estresse. Quando a volatilidade se intensifica e o comportamento dos investidores se torna mais defensivo, é comum que a pressão por resgates leve à venda de ativos a preços desfavoráveis — corroendo valor, em vez de preservá-lo. É justamente nessas circunstâncias que as ferramentas de gestão de liquidez revelam seu papel estratégico, ampliando a capacidade de reação e resiliência dos fundos em cenários adversos.

A adoção desses mecanismos tem sido defendida e estimulada pelos reguladores, tanto no Brasil quanto no exterior. Em 2023, a CVM incorporou oficialmente esses instrumentos à regulação da indústria de fundos por meio da Resolução 175, modernizando as normas que regem esses produtos e aproximando-o dos padrões internacionais. A Iosco, entidade que reúne os principais reguladores do mercado de capitais do mundo, também vem reforçando há anos a importância dessas ferramentas. No fim de 2024, lançou duas consultas públicas voltadas a aprimorar as recomendações sobre gerenciamento de risco de liquidez em fundos abertos — um passo importante para harmonizar práticas e incentivar sua adoção em diferentes jurisdições.

A Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) participou ativamente de ambas as consultas e chegou a ser citada em uma delas pelas suas práticas de governança relacionadas ao assunto — especialmente no que diz respeito à exigência de controles por parte dos gestores, como a manutenção de uma política formal de gestão de liquidez e controles internos adequados.

Parte das recomendações sugeridas pela Iosco já está refletida em nossa autorregulação desde 2023, quando atualizamos nossas normas para detalhar o uso de duas ferramentas bastante difundidas no mercado internacional: o side pocket e as barreiras aos resgates (gates). Enquanto o side pocket permite a segregação da parcela ilíquida da carteira, os gates limitam de forma parcial e temporária a capacidade de retirada de recursos, evitando a liquidação forçada de ativos em momentos de turbulência.

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Nossas regras estabelecem uma governança mínima para o uso dessas ferramentas, como a indicação de um órgão decisório responsável pelo seu acionamento. Além disso, preveem que a utilização desses instrumentos deve ser comunicada de forma ágil e transparente aos investidores — uma condição indispensável para preservar a confiança na indústria e garantir que os cotistas compreendam o racional por trás do seu uso.

Para os investidores, esses instrumentos representam uma camada adicional de proteção, ao reduzir os efeitos da volatilidade e evitar que decisões tomadas sob estresse comprometam de forma relevante o valor de suas cotas. Também ajudam a mitigar o chamado “first-mover advantage”, isto é, a vantagem obtida pelo cotista que inicia uma sequência de pedidos de resgate, causando a diminuição do valor das cotas dos investidores remanescentes.

Para ajudar o mercado na implementação dessas ferramentas, a Anbima lançou recentemente um guia técnico que trata de todos estes aspectos. O documento explica em detalhes como esses mecanismos funcionam, apresenta exemplos reais de uso em mercados internacionais — como França, Luxemburgo e Alemanha — e consolida todo o arcabouço regulatório e autorregulatório vigente.

Ao auxiliar o mercado a se aprofundar neste tema, damos mais um passo para fortalecer a indústria de fundos. A adoção responsável e bem regulamentada de ferramentas de gestão de liquidez é um avanço importante para ampliar a resiliência desses produtos e reforçar a proteção aos investidores.

Zeca Doherty é diretor-executivo da Anbima


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