Ao som de Chopin

Certamente, a filha hoje deve dar um desconto ao pai que se ausentava por causas tão nobres. A temporada em Brasília, por exemplo, deveu-se à gestão à frente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), assumida em 1990, no momento em que o mercado estava destroçado pelo caso Nahas. Diante de uma missão aparentemente impossível, Mattos Filho formou uma diretoria arrojada e conseguiu dar a volta por cima: aproveitou a paralisia nos negócios para profissionalizar e colocar novos produtos no mercado, além de quebrar tabus como o da entrada de investidores estrangeiros, a partir da aprovação do chamado Anexo IV.
Antes da gestão na CVM, tida hoje como brilhante por possibilitar avanços que se concretizariam anos depois — como das práticas de governança corporativa —, Mattos Filho já era considerado um dos maiores advogados tributários do País e pioneiro em um novo modelo de ensino do direito. Não que ele tenha se identificado com a advocacia precocemente. Ao contrário, cogitou cursar engenharia eletrônica; depois se dispersou na política estudantil durante a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da USP; até que surgiu a oportunidade de passar um mês em Harvard, num programa mantido pela Associação Universitária Interamericana. "Aquela experiência foi como um raio na minha cabeça", lembra Mattos Filho, que retornaria à universidade americana para um mestrado e, mais tarde, para um pós-doutorado em mercado de capitais. "Ali descobri que o direito era algo muito mais bonito do que imaginava."

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No primeiro dia de aula em Harvard, o jovem Ary Oswaldo caprichou no terno e na gravata, como era praxe na São Francisco, mas deparou-se com jovens de bermuda e camiseta no campus americano. Em vez de dar ordens para a classe, os professores promoviam discussões a partir do material didático e estavam disponíveis para conversas com os alunos. "Foi uma revelação", conta. Ao final do mestrado, quando recebeu uma carta da Presidência da República, com fita verde-amarela e um apelo para que voltasse ao País como bom patriota (o regime militar se preocupava com a evasão de cérebros), chegou a considerar a oferta do governo para ser professor na Universidade Federal do Ceará. "Estava nevando em Cambridge e fiquei imaginando o mar em Fortaleza", se recorda, rindo. Nessas alturas, porém, ele já estava atraído por outra possibilidade: lecionar numa moderna escola de administração de empresas que surgia em São Paulo, na Fundação Getulio Vargas. Descartou também um teste para a ONU, fez o concurso para a GV e começou a dar aulas em 1969. "Lecionar é fantástico", empolga-se. "Os alunos te desafiam o tempo todo."
Mattos Filho precisou interromper as atividades como professor e advogado (depois de uma cisão, o escritório ganhou nova formação societária em 1993) no período em que esteve no governo. Emendou a missão cumprida na CVM com outra — esta sim, impossível: coordenar o projeto de reforma fiscal do governo federal, a convite do então ministro da Fazenda, Marcílio Marques Moreira. Novamente formou uma equipe de notáveis, que elaborou o projeto e foi "vender a ideia" em cada estado da Federação, debatendo com governadores, prefeitos e deputados — da mesma forma que fizera para divulgar o País aos investidores estrangeiros depois do Anexo IV. "Viajei muito nas duas ocasiões", relembra. "Mas o caso da reforma fiscal é muito complexo, nos faz refletir sobre a natureza do ser humano: todo mundo é a favor, desde que pegue o vizinho."
Essas reflexões o acompanham agora enquanto escreve o primeiro volume de um projeto interrompido várias vezes por falta de tempo — uma obra completa sobre direito tributário, a partir de toda a sua experiência como advogado e agente público. Embora ainda faça pareceres e trabalhe como árbitro, está afastado do dia a dia do escritório e da diretoria da Direito GV desde 2011. Ou seja, sobra tempo para os filhos e para associar as experiências a novas leituras na biblioteca. "A astrofísica vem me mostrando como os seres humanos não são sequer uma nota de rodapé num livro enorme. É importante nos relativizarmos", reflete. Pelo menos no mercado de capitais, Mattos Filho merece muito mais do que uma nota de rodapé: ajudou a escrever um capítulo inteiro, daqueles deorgulhar filhos e netos.

