Após estrear em Previdência, Polo Capital prepara seu primeiro fundo de debênture incentivada

Criada em 2002, a Polo Capital, hoje com R$ 5 bilhões de recursos sob gestão, acaba de lançar seu primeiro fundo de previdência, espelhando a estratégia do maior produto da casa, o Polo Crédito Corporativo, com um PL de R$ 1,4 bilhão. A entrada no universo da previdência privada, que para muitos pode ser tardio, se justifica pela filosofia da casa. “A gente é uma casa que não quer crescer a qualquer custo. A gente só vai criar um produto que faça sentido economicamente, em termos financeiros”, comenta Nicole Vieira, sócia da Polo Capital e head de crédito privado, explicando que apenas com novas seguradoras no mercado – que “mordiam menos as taxas” – passou a valer a pena.
Na entrevista ao Além do Capital Nicole contou um pouco da filosofia da Polo, de “fazer produtos só quando fazem sentido para a casa e evitar modismos”, e da novidade – o primeiro fundo da gestora de debênture incentivada. “Vamos lançar neste ano para pegar a isenção e pelo prazo para adaptação, que permite outros ativos mais rentáveis na carteira (não incentivados) que hoje pagam melhor.”
Acompanhe:

A novidade da Polo é o lançamento do seu primeiro fundo de previdência. Até chegar a este produto, como a Polo se desenvolveu e quais os principais marcos?
Somos uma casa de 2002 e com longo histórico em crédito privado, desde 2005. A gente estruturava operações com companhias não listadas ou listadas e com alguma garantia. A Polo fez alguns produtos bastante inovadores na indústria, como FIDC para clube de futebol antecipando direitos de transmissão. Temos a cabeça do crédito estruturado, que é muito diferente do crédito livre. Fizemos nosso primeiro fundo imobiliário de crédito, o PORD11, em 2013. Quando cheguei na Polo, em 2012, foi para fazer a operação de crédito estruturado. Em 2015, com a crise no país, em qualquer operação pensávamos se realmente valia a pena. Os bonds das companhias pagavam muito mais do que operações de crédito estruturado. Foi um período muito desafiador no geral. Na época, a gente criou um fundo de bonds (2016) para investir em companhias lá de fora. Fomos nos aventurando nesse mercado de crédito, nos aproximando das plataformas e mudando um pouco o nosso tipo de passivo e ativo. Em 2018, criamos nosso primeiro fundo líquido de crédito focado totalmente em debêntures (Crédito Corporativo). São nossos dois produtos mais líquidos de crédito, D30. O nosso primeiro fundo de previdência vai espelhar o fundo de debênture, um High Grade.

Por que só agora a Polo decidiu lançar seu primeiro fundo de crédito para previdência?
Antes era muito difícil fazer um fundo de previdência com as taxas similares aos veículos abertos, hoje pela CVM 175. A gente é uma casa que não quer crescer a qualquer custo. A gente só vai criar um produto que faça sentido economicamente, em termos financeiros e, obviamente, faça sentido para o cotista. Não faz sentido que a rentabilidade seja consumida em custos. Por isso não tínhamos criado até agora um fundo de previdência. Há mais ou menos um ano e meio isso mudou com chegada de novas seguradoras. A da XP foi uma que entrou muito forte nesse mercado e tomou share de outras seguradoras que estavam consolidadas. E nesta briga é natural que comece a diminuir os custos da seguradora e a ficar interessante o retorno para o cotista e para a gente, do ponto de vista econômico.

Qual é a característica do produto em termos de liquidez e tipos de ativos na carteira?
Quando decidimos fazer, discutimos muito com qual seguradora faríamos. A ideia de criar o nosso fundo D30, o Crédito Corporativo, foi da XP, porque até então a gente só fazia basicamente crédito estruturado. O fundo de Previdência é, de certa forma, um espelho do produto D30, com as restrições típicas da regulação da previdência. Este fundo de previdência é mais líquido, D+7 dias úteis. Isto porque o passivo de previdência tem uma estabilidade histórica maior. Dá um conforto para a gente fazer um fundo mais líquido. O fundo Master fica no BTG e os dois feeders estão na XP e no BTG. Na carteira tem debênture de companhia high grade e Letras Financeiras (LF). Eu acho que o fato de termos demorado a entrar, na previdência, fala muito sobre o amadurecimento desse mercado e da questão de um número maior de seguradoras que reduziu os custos.

Quanto do AUM de R$ 5 bilhões da Polo está em produtos de crédito e qual o percentual nos fundos de ações?
Nós temos R$ 4 bilhões em crédito e o restante em renda variável. No crédito é onde temos a maior vertical de crescimento, mas fazemos tudo de forma cautelosa. Já fomos maiores, mas hoje somos uma gestora com R$ 5 bilhões, média. É muito importante essa questão de ter um crescimento muito responsável. Não estou falando mal de ninguém, mas hoje onde capta, a indústria lança, e não se preocupa muito com o que vai entregar. Aqui na Polo não fazemos assim. Vou te dar um exemplo, tivemos a onda de Fiagros. Gestoras sem nenhuma expertise em agro foram fazer Fiagro. Eu já trabalhei com agro e, quando era para fazer uma execução, ia na fazenda e chegando lá o cara estava com espingarda na porteira me esperando. Os caras somem com tudo, não dá para fazer o penhor. Uma história que a Faria Lima ou o Leblon (Rio) não conhecem. Fomos provocados a fazer e não fizemos. Preferimos fazer diferente, não é crescer a qualquer custo. Por exemplo, o nosso D30, de Crédito Corporativo, fechamos para aplicações porque a gente espera crescer o fundo espelho, de previdência, e não quer que o capacity seja penalizado. A gente sempre faz uma escolha.

Esta escolha por fechar o fundo para captação tem sido utilizada, por alguns gestores, em cenário de spreads amassados, fruto da demanda alta pelos papeis. Este também é um motivo para vocês?
Não é o caso. Você tem dois tipos de crédito, e um deles é o incentivado, que não temos na grade e lançaremos em breve. Nos veículos com ativos não incentivados, como o nosso que compra debênture, não tem este movimento ocorrendo. A questão da isenção é importante. Se você olha o mercado de CRI, por exemplo, tem uma quantidade de pessoa física entrando em várias emissões com um nível de risco absurdo, que ela não conhece e não tem condições de monitorar. Um exemplo é o CRA de FS Bio, uma empresa de etanol de milho. A gente não tinha exposição a esse setor, mas começamos a ver que tinha passado por um período estressado. Fomos olhar, últimos balanços ruins, mas os próximos balanços viriam bons, fizemos uma compra oportunística do CRA. A pessoa física, que não entendia nada, saiu vendendo. Mesmo em CRI, estruturado e com garantia real, é difícil na hora de executar, precisa de quórum qualificado nas assembleias. Tem a questão do vendedor forçado, tem o tema do quórum, e de taxas amassadas, que não condizem com o risco. Voltando às debêntures, o retorno das incentivadas caiu bastante. Isto pode ocorrer, no mercado americano papeis incentivados já chegaram a negociar abaixo dos treasuries. Eu vejo como um movimento positivo de investidores alocando em fundos com estes papeis.

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A Polo Capital está preparando o lançamento de seu primeiro fundo de debênture incentivada. O fim da isenção a partir do ano que vem foi determinante no movimento?
A gente não fez, até hoje, e um dos motivos é que o prazo médio de uma incentivada é mais longo. Os nossos fundos de crédito privado de debêntures tradicionais é muito mais curto. Também precisávamos de equipe dedicada. A gente trouxe uma pessoa de crédito esse ano que era gestor dos fundos de ação e tem visão de longo prazo, em equity. Reforçamos o time com a contratação de dois novos analistas. E decidimos lançar o produto em breve para capturar o benefício da isenção antes da virada do ano. A minha preocupação não é tão grande com esse produto no curto prazo, porque você tem um benefício muito grande que é o prazo para adaptar um fundo de debênture incentivada. Você tem seis meses no fundo de debênture incentivada que você pode rodar 100% com ativos não isentos, que estão pagando melhor, CDI+. Isto é muito positivo. E do sétimo mês ao vigésimo quarto mês, pode ficar 33% em ativos não isentos. Vai ser um fundo D30.

Os fundos da casa, para os padrões brasileiros, têm uma liquidez menor, a partir de D30. Isto ajudou nos períodos de crise em crédito recentes?
O nosso fundo líquido, que é o D30, não viveu a crise de 2015 e 2016. Os nossos outros fundos viveram aquele momento, depois covid, Americanas. A gente teve uma das menores quedas da indústria. O prazo maior ajuda muito. Quem busca fundo D0, D1 deveria estar pensando em proteção. O investidor pessoa física, em geral, olha performance de 12, 24 meses. Esses períodos de queda são importantes de serem analisados. O nosso perfil nesse fundo D30 é bastante diversificado (investidores) com 18 mil cotistas e um patrimônio de R$ 1,4 bilhão. Caímos pouco porque o tempo maior dá conforto ao gestor. Se é um fundo D0 e tem resgate você sai vendendo a qualquer preço. A gente não tinha Light, não tinha Americanas e isto nos ajudou. Não entramos em qualquer papel, temos um rating proprietário. O investidor que aporta em nossos fundos é o que já sofreu e entendeu que o prazo maior tem vantagem. Temos na grade fundo D90, um híbrido entre o que fazemos nos fundos exclusivos e o Corporate, para pessoa física, um D30, de bonds, além do Corporativo (D30). Os fundos estruturados, para os family offices, podem ter dentro FIDC, nota promissória, papeis de companhias abertas ou fechadas, e é D225. O investidor está amadurecendo, entendendo que prazo, menor liquidez, é positivo.

De que forma a Polo atua na área de special situation e quais as principais estratégias?
A Polo fez o primeiro FIDC não padronizado de precatório da indústria. Também criamos estrutura de subordinação para fundo imobiliário. Fomos pioneiros em várias estratégias e vem do nome, uma referência a Marco Polo. A gente tem forte a questão do pioneirismo e da inovação. A indústria acabou crescendo muito nisto (special sit), em precatório, e a gente também, não porque o retorno foi ficando apertado. Onde a gente cresceu foi usando nossa experiência em crédito estruturado na recuperação de crédito, que não está no nosso AUM porque é valor de face. Temos vários FIPs, com dinheiro institucional, de fundações, que nos contratam para fazer a gestão de ativos inadimplentes e recuperar aquele crédito. Já conseguimos executar e vender um hospital, de um destes fundos. Dentro dos special sit tem a área de recuperação de crédito. A gente não tem uma área de private equity, mas em 2011, se não me falha a memória, a gente entrou numa dívida de uma companhia que estava em recuperação judicial, a Casa & Vídeo, e acabou convertendo em equity. A gente fez uma fusão com uma varejista investida da Vinci e somos sócios na Casa & Vídeo.

O episódio recente da Virgo, envolvendo transferência de recursos entre clientes fora do padrão afeta em que medida a credibilidade dos produtos securitizados?
Claro que é ruim porque a gente está falando de credibilidade. Essa indústria é como um banco, credibilidade é questão. E o que aconteceu na Virgo é quebra disso, e há uma corrida por saques. Agora, o poder que ele tem em uma operação, em geral, é muito restrito, e tem outros prestadores de serviço que estão ali para controlá-lo. Eu acho que o impacto concreto é pequeno porque o volume foi pequeno. Perceberam muito rápido. A gente está falando de uma operação de R$ 150 milhões, falando do fundo Allocation, não terá tanto impacto. Agora, a credibilidade da casa foi impactada sim.

Em bolsa, vocês têm fundos de ações e um fundo imobiliário, o POD11. Já dá para visualizar uma recuperação em termos de patrimônio?
Os nossos fundos de ações estão indo super bem neste ano. São fundos long & short, sem correlação com a bolsa, mais baixa do que a média da indústria. Mas a captação não se recuperou ainda. Eu acho que a gente vai precisar de um trigger muito claro para você ter esse fluxo voltando para estes produtos, pode ser a queda dos juros ou a eleição, em 2026, são temas que se relacionam e podem ajudar.

Falando em novo produtos, os FIDCs ganham espaço nos últimos anos. Vocês já fizeram no passado, hoje tem planos de retomar este tipo de fundo?
Esse é um pouco do problema que eu vejo. FIDC multicedente multisacado, a gente nunca fez e não vai fazer. É um tipo de experiência diferente. Para fazer um FOF de multicedente multisacado, ou um FIC FIDC, qual é o valor agregado ? A casa é boa em análise de crédito, e é isso que eu quero entregar ao cotista. A gente tem, inclusive, fundos exclusivos que migraram a estrutura para FIDC no ano passado, pelas mudanças nas regras. Tivemos FIDC no passado e temos esta área, que tem potencial de crescimento. Temos um analista dedicado somente para FIDC, mas a gente não criou nenhuma dessas ofertas. Eu acho que é muito legal esse tipo de produto, mas você tem que ter a coerência do que pretende entregar e do tipo de ativo que você está colocando no fundo. Além dos exclusivos, que migraram, não criamos nenhum. Mas a gente vai, eventualmente, fazer um FIDC. Não temos pressa porque os retornos dos FIDCs fecharam muito. Tem uma onda, um modismo, e mesmo quando não vale a pena, todo mundo sai fazendo. Não é o caso da Polo.

Quando dá para crescer em recursos sob gestão nesta reta final de 2025?
Eu acho que se captarmos mais uns R$ 600 milhões está bom. Nós fechamos o Crédito Corporativo para captação, para captar no de previdência sem comprometer capacity. O de previdência vai crescer, tem portabilidade que ajuda. Vamos fazer no nosso primeiro fundo de infraestrutura, debênture incentivada, que tem potencial para captar uns R$ 300 milhões. É o que está pela frente.


