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Com desembarque em Portugal, MB busca lugar entre as dez maiores fintechs da Europa

Amanda Meneses

Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin
Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin

Com 12 anos de trajetória completados neste ano, o Mercado Bitcoin (MB) entra agora numa nova fase: a de internacionalização. Se quando os fundadores, os irmãos Gustavo e Maurício Chamati, criaram a casa “não havia nada além de Bitcoin” – e o intuito era apenas ser um facilitador das negociações –, agora, o cenário navegado pelo atual CEO Reinaldo Rabelo é bem diferente. Diante da ascensão cada vez maior das criptomoedas e um olhar mais atento de investidores institucionais e governos sobre o tema, a visão da casa é criar uma figura entre “a nova Bolsa e a XP”, conforme paralelo feito por Rabelo. Novas tecnologias, diz, permitem criar um híbrido entre corretora, banco e bolsa.

O MB, que comprou uma Exchange portuguesa em 2021, a Criptoloja, mas adiou os planos de expansão na época, agora pretende se instalar de vez no continente europeu. “É por isso que estamos fazendo um investimento maior e que estou indo para lá, porque queremos dar prioridade para esse investimento. Temos que vencer esse preconceito que o brasileiro tem consigo mesmo, erguer a cabeça e ir vencer lá fora também. É um pouco dessa ambição que eu tenho, do MB ser uma das 5, 10 maiores fintechs da Europa nos próximos anos”, conta Rabelo, em entrevista ao Além do Capital. Até o final do ano que vem, a Europa poderá representar 20% do faturamento total – hoje, a região não participa nem com 2%.

Confira a íntegra:

O MB completou, no último Dia dos Namorados, 12 anos. Em 2013, pouquíssimas pessoas sabiam o que era o Bitcoin e, quem sabia, dificilmente acreditava na possibilidade de mudar e revolucionar o mercado financeiro de capitais. O MB foi fundado para facilitar a negociação de Bitcoin, não tinha nada naquela época ainda. E para comprar e vender o ativo, era complexo. Assim, plataformas como o MB surgiram. Em 2017, quando houve o primeiro grande ‘boom’ da cripto, começamos a crescer de forma significativa, atingimos o primeiro milhão de clientes. No final de 2018, acabei assumindo como CEO, escolhido pelos fundadores (que saíram da gestão e se juntaram ao conselho) para reformular a estrutura da empresa, a governança, ajudando a levar uma visão de estratégia que acabamos assumindo em 2019, quando deixamos ser essa plataforma que surgiu para ajudar a comprar bitcoin e começamos a perceber que dava para ser talvez uma nova bolsa, uma nova XP. Hoje, estamos muito convictos de que é alguma coisa no meio desses dois. Essas novas tecnologias permitem criar um híbrido entre corretora, banco e bolsa.

Passamos a adotar essa visão de que éramos uma FMITec. A gente achava que seria uma nova infraestrutura do mercado financeiro de capitais, baseada em blockchain. E começamos com o primeiro grande projeto, que ficou até hoje, e é até bem mais relevante: a tokenização de recebíveis. Fomos pioneiros no mundo, ninguém estava fazendo isso. A gente já tinha tido a experiência da tokenização do dólar, com as stablecoins, de tokenização de Ofertas Públicas Iniciais (IPOs), com Ofertas Iniciais de Moedas (ICOs). A stablecoin deu muito certo e os ICOs deram muito errado. Mas não tinha ninguém ‘tokenizando’. Tinha só a ‘tokenização’ da arte, com os NFTs, que dá certo, é cíclico. E nós, olhando tudo que já acontecia e trazendo nossa experiência de CETIP, B3, entendemos que dava para trocar o ‘cetipar’ por ‘tokenizar’. Começamos a ‘tokenizar’ precatórios, depois cotas excluídas de consórcio, recebíveis de energia, recebíveis relacionados a clubes de futebol. Fomos trilhando esse caminho, tentando não pisar no calo da CVM, do regulador. A gente queria esticar sempre a norma até o limite, mas sem quebrar. Sempre foi o nosso pensamento metafórico. 

Em 2020, conseguimos licença de plataforma de investimentos participativa, crowfunding. Em 2021 compramos uma gestora (hoje, a MB Asset). Sempre fomos trilhando esse caminho de aproximação de alguma maneira do regulador, mas querendo fazer algo diferente, porque acho que o mercado está precisando dessa solução. Depois acabamos agregando também a parte de banking. Hoje, somos uma estrutura que tem cripto. A gente é uma plataforma de negociação de criptoativos, ativos digitais, uma plataforma de investimentos. E temos ativos parecidos com os tradicionais, de renda fixa, renda variável, mesmo alguns fundos que vamos colocar na plataforma em breve e, também, tem toda a solução de pagamentos com licença de instituição de pagamento do Banco Central, com cartão, PIX e, muito em breve, também a parte de remessas, de transferência internacional.

Dentro do mundo cripto, fomos ampliando a oferta desses tokens que representam alguma rede. Logo, do Bitcoin, fomos para os criptoativos relacionados, Bitcoin Cash, Litecoin, Bitcoin Gold. E depois, com o surgimento do Ethereum, começamos a ofertar o próprio token ETH, mas também todos os tokens que foram criados em cima dessa rede. Hoje são mais de 14 mil redes que existem no ecossistema cripto. Listamos cerca de 95% do market cap desses ativos, cerca de 300 criptoativos raiz relacionados à rede. No ambiente de investimentos temos essa proposta de aproximar o emissor do investidor. É um pouco desse desenho que temos apresentado para a CVM. Eu consigo retirar alguns intermediários sem retirar a governança, segurança e confiança do investidor e do emissor, reduzindo bastante o custo e entregando mais resultado. Na parte de investimento tradicional, porque compramos uma asset em 2021, que hoje opera na casa de R$ 1 bilhão de AUM, temos pretensão de aumentar esse número. O que a gente quer é ofertar classes de investimentos. Ter 10 a 20 ativos que representem o mercado de alguma maneira, mas algo mais especializado, não ofertar de tudo.

Em cripto, oferecemos todos esses produtos que foram criados pelo ecossistema. Mesmo o staking em stablecoin, que gera uma renda passiva, seja por efeito de rede, seja por efeito do ecossistema. Mas a gente vai evoluir na nossa proposta de wallet. O MB, hoje, ainda é uma carteira digital, mas não é wallet no sentido cripto. Você não se pluga ainda nos DeFis (Finanças Descentralizadas) usando o MB, mas isso vai acontecer. É parte da nossa evolução natural de ser uma empresa cripto. Vamos permitir que o nosso cliente se plugue a outras ofertas que não sejam nossas. É um open finance turbinado, porque você começa a acessar ofertas do mundo inteiro através de DeFi. Vamos, em breve, também anunciar e ofertar uma solução nesse sentido.

Observamos a evolução do conhecimento e educação da nossa base. Hoje, temos 4 milhões e 300 mil clientes no Brasil. Temos desde o 'cripto nativo', que nem olha para o mercado financeiro tradicional e sempre nos provoca para agregarmos serviços que precisam nesse mercado, porque querem que o MB seja o banco deles, a corretora deles. Mas também temos o cliente mais habituado ao mercado tradicional. E esse acaba sendo mais conhecedor de ofertas como renda fixa digital, renda variável digital. Ele entende mais e depois acaba alocando alguma posição em cripto também. Temos o trader, que compra desde ações, commodities, até criptoativos, e em vários níveis. E, também, os institucionais, que sempre tivemos, mas agora têm se tornado mais relevante porque mais bancos, mais fundos, mais empresas têm comprado principalmente o Bitcoin.

Vivemos, no Brasil, um movimento, principalmente do Banco Central, muito pró-blockchain, com a criação do Drex, a própria evolução do Pix, então tinha um movimento super favorável. Isso ajuda, porque traz credibilidade, investimento e atenção de outros players. E agora, tanto o Executivo do governo americano, mas principalmente o Congresso, foram estruturas eleitas com a bandeira cripto. Isso foi superimportante, porque os Estados Unidos acabam arrastando o resto do mundo, de certa maneira. Estamos vendo isso no Reino Unido e na Europa. Tem agora, em julho, a entrada em vigor da MICA (Markets in Crypto-Assets), regulação que permite a qualquer empresa autorizada por um banco central de um país membro operar na Europa inteira. A gente também se aproveita dessa mudança de pensamento na Europa, porque temos licença do Banco Central de Portugal e poderemos operar no continente inteiro a partir do segundo semestre. É um momento incrível para o setor.

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Tanto o BC como a CVM, se já não têm um viés de convencimento em relação ao tema, têm bastante curiosidade. Isso é superpositivo, mas não significa que a gente já tem ou vai ter as melhores normas sendo colocadas. Tivemos a promulgação da lei cripto em 2023, mas até hoje não saiu a licença da VASP (Provedoras de Serviços de Ativos Virtuais, em português), empresas que oferecem serviços relacionados a criptoativos. Isso gera um pouco de atraso para o desenvolvimento do setor. Ainda há uma dificuldade para a produção e colocação das normas. E é natural que a dificuldade seja ainda maior em relação à aplicação, mesmo com diversos ofícios e pareceres da CVM, porque tem interpretação por pessoas diferentes, com outra bagagem de experiência em relação ao tema. Acaba gerando algumas distorções. Mas acho que isso é o caos normal da evolução de um mercado que é super sofisticado, que é o mercado financeiro de capitais.

Estou naquele momento em que o pai ou a mãe é perguntado de qual filho gosta mais, e digo que gosto de todos igualmente. Hoje, na minha relação com blockchain e AI (inteligência artificial, no termo em inglês), gosto igualmente dos dois temas, mas diria que estou mais apaixonado por AI nesse momento. Usamos, primeiro, como movimento mais seguro, como elemento de educação, incentivando todo mundo a usar como pesquisa, resumo dos seus trabalhos, dos relatórios que precisam ser lidos e elaboração de documentos com a ajuda de AI. E, depois, fomos para integrar às nossas operações. Começamos a colher resultados muito importantes. Tínhamos uma operação de liquidação de tokens, de renda fixa, que demorava 4 horas e envolvia 5 pessoas. Esse processo, hoje, demora 30 segundos e envolve mais 5 minutos de uma pessoa só para fazer a revisão do que esse processo automatizado por GenIA (inteligência artificial generativa) trouxe. Essa é uma grande descoberta que temos com a AI. Ela permite que qualquer pessoa faça automações. 

O conceito do DREX foi por um caminho muito acertado, de construir a infraestrutura, e menos uma preocupação de emitir a moeda real no formato digital. Assim como o BC construiu a infraestrutura do PIX, ele agora está construindo essa infraestrutura que, em tese, vai levar o PIX para os seus ativos do mundo real ou ativos financeiros e valores mobiliários, integrando todo o patrimônio dentro de uma rede que é mais digital. Essa solução é complexa, é difícil, e por isso demora também. Exige participação de muitos setores e segmentos. Gostamos e participamos, porque também queremos ser uma voz na construção dessa nova infraestrutura. Na primeira abertura fomos a única empresa cripto que liderou um consórcio. São 16, todas as outras 15 são bancos. Na última lista, tivemos quatro casos aprovados no meio de todos que foram colocados. Como infraestrutura é muito importante para o Brasil. Acho que destravaria muito crédito, mesmo operações de compra e venda de veículos, imóveis, ativos do mundo real, se tudo isso estivesse nascendo dentro desse sistema.

Em 2021, quando estávamos no processo de captação, a internacionalização era um dos motivos para captar. Entendemos que o mercado cripto facilita muito isso, poder operar em múltiplos países. Nessa época, compramos uma empresa que tinha licença do BC de Portugal, mas em 2022, veio a grande crise no mercado de VCs (Venture Capital), na verdade, no mercado como um todo, com o fim da emissão de moedas, acabou a liquidez, e deixamos essa nossa operação em Portugal de forma totalmente independente, tocada pelos próprios fundadores. Agora, o mercado já está em outro momento e nós também temos essa visão de que não é mais só Portugal, é a Europa como um todo. Vamos fazer um investimento mais relevante nessa operação para participar do que vai ser a ‘fintechzação’ da Europa. Temos a vantagem de ter um sistema financeiro muito moderno no Brasil: talvez seja uma das coisas para nos orgulhar no país, que é super resiliente e moderno, inovador. Isso vai acontecer na Europa também e queremos participar desse movimento. Tem algumas fintechs crescendo bastante lá, como o Revolut, N26, e a gente quer participar dessa onda que vai vir pela nova geração, que vai querer um serviço cada vez mais digital, por isso estamos fazendo mais investimentos e estou indo para Portugal, porque queremos dar prioridade para esse investimento. É um pouco dessa ambição que eu tenho, do MB ser uma das 5, 10 maiores fintechs da Europa nos próximos anos.

A aquisição é sempre uma oportunidade. Estamos sempre olhando o mercado, sempre conversando. Muitos parceiros podem virar parte do MB no futuro. Isso é uma opção, sim, mas existe sempre uma grande complexidade em integrar operações diferentes, ainda mais quando elas são muito baseadas em tecnologia. Muitas vezes as tecnologias não se conversam e você acaba fazendo muito mais um 'acqui-hire', ou seja, comprar a empresa para ficar com as pessoas, mais do que necessariamente trazer a estrutura, a plataforma. Tem uma complexidade em se fazer integração. No primeiro momento, estamos focados em investir na nossa estrutura com essa cara global do MB, mas também olhando oportunidades tanto na Europa como eventualmente nos Estados Unidos, que são dois mercados que observamos mais de perto. E, naturalmente, na própria América Latina. Até chegamos a fazer um investimento em uma empresa de crowdfunding no México, mas ainda não decidimos abrir o MB no mercado mexicano.

A gente não fala de valores, mas a nossa pretensão é estar entre as dez maiores fintechs da Europa. A gente tem uma estrutura bastante robusta, competente e eficiente e queremos que essa estrutura atenda a Europa como um todo. Nossa expectativa, ao longo do tempo, é fazer com que, até o final do ano que vem, a Europa represente 20% do nosso faturamento total. Hoje, não representa nem 2%. Queremos dar esse salto de 10 vezes o que é atual.

A gente sempre olha porque a abertura de capital é um elemento de funding da nossa operação. Nesse momento, a gente não precisa captar recursos, mas talvez seja melhor captar quando você não precisa. Desde 2019, quando começamos a fazer o roadshow para chegar na nossa primeira captação, nunca paramos de falar com investidores, com bancos de investimento e olhar oportunidades de abertura. E agora está acontecendo uma nova onda de abertura de capitais em empresas cripto. Talvez tenha uma janela interessante nos próximos meses, anos. Na hora que a gente quiser abrir capital, estaremos prontos, mas prefiro que a gente abra capital no formato tokenizado.

É natural que a gente perceba que a liquidez está muito maior no mercado americano. Mas somos uma empresa brasileira, uma brasileira que vai virar global. Se percebermos que a oportunidade melhor é fazer uma dupla listagem ou fazer uma abertura no Brasil, vamos fazer.