Trígono Capital planeja ampliar verticais e aguarda juro menor para atrair capital estrangeiro institucional

A Trígono Capital ficou conhecida como a casa das small caps, mas nos últimos anos diversificou as estratégias e incluiu na prateleira os fundos de renda fixa crédito privado e ETFs – de ações de empresas de menor capitalização, mantendo o DNA. Com o juro alto, seus fundos de ações – como o restante do mercado – sofreram com retornos depreciados e resgates, mas manteve o que Frederico Mesnik, fundador e CEO da Trígono, chama de “viés de geração de valor” para o investidor. “Mesmo os produtos mais recentes, de crédito privado lançados em 2024, tem um viés de qualidade, de geração de valor, como nas ações. Não fogem da regra fundamentalista”, comenta o executivo.
Na entrevista ao Além do Capital, o Mesnik contou um pouco da história construída a quatro mãos com o sócio Werner Roger, CIO da Trígono, cujo método de análise de ações acaba “enviesando para a seleção de small caps”. Ele comentou sobre os planos de ampliar verticais da casa e o interesse no investidor estrangeiro. Acompanhe:

Hoje, a Trígono tem uma grade variada de fundos, de ações e renda fixa e ETF, mas ainda é conhecida como a casa das small caps. De onde vem este DNA?
Meu primeiro emprego foi como trainee de crédito no Chase Manhattan Bank, em1989 quando conheci o Werner (Werner Roger), meu sócio. Ele já era um cara muito diferenciado. Na época, trabalhava com ações, na física, e cuidava do dinheiro de muita gente. Saí do banco, mas mantivemos contato. Em 1992, a gente abriu um clube de ações. Ele fazia a gestão e eu fazia todo o resto. Foi um super sucesso, durou quatro anos e ganhamos dinheiro. Fechamos e fui fazer meu MBA fora. Esse clube já tinha um viés para small caps. É a forma como o Werner pensa, em que ele busca criação de valor para o acionista, governança, pagamento de dividendos, a fórmula dele lapidada ao longo desses anos todos. Quando ele roda a metodologia que desenvolveu, não aparece Petro, Vale. Se aparecesse, ele teria comprado. Ele sempre olhou tudo. Tentamos outra parceria em 2004, mas foi preciso adiar. Depois de muito namoro criamos a Trígono Capital. Ele queria usar a metodologia dele, na gestão, e eu também tinha minha expertise, tenho uma pegada ESG, aprendi muito e nos outros lugares também não dava para fazer como eu desejava.

Poderia contar como foram os primeiros passos da Trígono?
O Werner tinha um clube de ações, Friends and Family, que tinha uns R$ 30 milhões, que ele trouxe para a gestora. Eu coloquei mais R$ 2 milhões de capital meu e iniciamos com três produtos. O fundo Flagship, para fazer um puro-sangue small cap. O Delphos Income, um fundo de dividendos, e o Verbier, que nasceu com os recursos do clube. Abrimos três estratégias porque a gente sabia que fazendo um bom trabalho, depois de três ou quatro anos a gente entraria na janela institucional com estratégias diferentes.

Vocês usaram como estratégia a mesma metodologia para as escolhas das carteiras?
O fato desses três principais fundos terem uma concentração em small caps não tem a ver com a nossa estratégia de alocação e nem escolha. A metodologia que é usada para a seleção desses ativos acabam enviesando para esse lado. O Verbier é um fundo small cap, pode ter Petrobras, como já teve, mas como ficamos aderentes à metodologia, o método conduzia para isso. Tanto que no começo de 2023, a gente foi procurado pela BB Asset, após uma seleção de mais de 100 gestoras de Equities, e fomos a primeira escolha para firmar uma parceria estratégica importante. A parceria também proporcionou diversificação. Eu não quero o título de rei das small caps, eu quero ser o rei da cocada toda. Começamos a fazer um trabalho de diversificação das verticais. Essa mudança representa uma ambição maior. A ideia da Trígono sempre foi ser uma gestora que investe em empresas, podem ser líquidas, ilíquidas, posso investir em empresa grande, pequena, média, posso comprar dívida das empresas. Desde que eu mantenha fiel ao meu propósito, que é o investimento em empresas. Então é isso que a gente tem criado aqui.

A casa mais recentemente criou uma área de crédito privado. Qual é a estratégia para esta vertical?
São nossos fundos Trígono Sirius e Polares Debêntures Incentivadas. O importante é que o DNA da empresa é preservado. No processo de seleção do crédito, obviamente, você tem uma governança apartada. Ao mesmo tempo que a gente tem o Werner, nosso CIO, com uma super experiência em crédito, a casa tem um time de crédito separado, um gestor de crédito separado, que tem as decisões nas mãos. Agora o DNA é o DNA da Trígono. O olhar do crédito tem um viés em valor, de qualidade, de geração de valor, como nas ações. Não foge da regra fundamentalista. Ninguém compra crédito aqui olhando o gráfico. O Sirius é de abril do ano passado e o Polaris de fevereiro também de 2024.

A criação da vertical de crédito privado coincide com um momento ruim para a renda variável, foi este o motivador?
Na verdade foi mais uma coincidência. Se fosse assim, a gente deveria ter começado muito antes. Porque juro alto e dificuldade na renda variável já vinha ocorrendo. O objetivo já existia, mas a gente demorou muito para fazer o crédito por uma circunstância. A gente viveu um 2021 excepcional, e cresceu muito. E depois que o mercado começou dar uma azedada, a gente estava focado no nosso core business. Com o tempo, vieram os mandatos para criar novas verticais. A gente tem hoje uma área de crédito, com dois produtos, um high grade (Sirius) e o de debênture (Polaris). Antes disto, no fim de 2023, já tínhamos criado o Pathernon, um Large Cap, neste produto com Petro e outros papeis grandes. Neste caso não tem mandato para small cap.

Recentemente vocês lançaram um fundo Long Bias, com outro gestor que não o Werner, por quê?
Esse fundo nasceu como um clube em 2021. A gente tinha o nosso primeiro analista que entrou na empresa, o Yuhzô Breyer, operando ações. Ele estava operando ações na pessoa física, mas com o crescimento da Trígono, vetamos. Hoje as pessoas da casa não podem mais comprar nada diretamente. Eu percebi que ele tinha uma maneira diferente de trabalhar, bem diferente do Werner, apesar de ser também fundamentalista, girava mais a carteira, fazia short de papel. Propus a ele transformar em um clube com capital dele, meu e do Werner e criar um track record. E foi o que ele fez. Começou como se fosse uma incubadora de um novo gestor. Quando ele ganhou maturidade, experiência, virou gestor de fato, transformamos o clube em um fundo no começo deste ano. É o fundo Dynamic, está pequenininho, porque tinha um limite de 50 cotistas e agora ele abriu. Desde 2021 já acumula 267% contra 23% da Bolsa. Um fundo long biased, que é gerido pelo Yuhzô. Gira mais a carteira, aproveita ventos macro. Diferente da cabeça do Werner que é de dono, olha a empresa, dividendos, governança. Hoje a gente tem 30 conselheiros indicados por nós, sentados nos boards das empresas. Os fundos como um todo, de ações, estão com dificuldade de crescer. O juro alto torna o mercado um pouco disfuncional porque está muito com discursos que, às vezes, vão um pouco longe da realidade. O mercado prioriza empresas que na hora que publicam o resultado não estão tão bons assim. Isso acaba, no tempo, se corrigindo.

Qual sua visão dos eventuais impactos da MP do governo que propõe taxar em 5% os papeis isentos, como as debêntures incentivadas? Outra mudança é nivelar o IR dos fundos em 17,5%. Qual o efeito?
Taxando a LCA, o meu produto se torna mais competitivo, e o investidor sempre tem a alternativa de migrar. Se você começa a taxar esses incentivados, o dinheiro sai de lá e vai para outro lugar. Sobre IR, a medida cria um turnover maior entre produtos. Porque tem muita gente que esperava para pagar Imposto de Renda menor. Inclusive nos fundos de previdência. Não cabe a mim questionar se a medida está certa ou errada. Mas a medida vai criar um efeito. Se ele (benefício tributário de longo prazo) não existe, eu não vou mais criar fundos que dependam disto. Só vai precisar de rentabilidade e custo de oportunidade. Vai promover a migração de um produto para o outro muito mais por performance, por momentos de mercado, do que por uma questão tributária.

PUBLICIDADE

Mas na sua visão é bom ou ruim este movimento, pensando na gestão das carteiras?
O nosso processo de investimento mira no longo prazo. Toda vez que o investidor vende a cota, o gestor tem de vender os ativos. Vamos falar do crédito. O gestor compra um papel de uma emissão de uma empresa que vence em sete anos. Ele achou que o risco de retorno está vantajoso, o crédito é bom, e compra. Se a situação mudar, deteriorou o crédito, mudou o spread, ele pode ter a liberdade, porque o objetivo dele está alinhado com o cotista, de ganhar dinheiro com segurança e consistência, ele pode trocar a empresa A pela empresa B. Ele troca o de sete anos por um de dez, ele troca o de sete por um de três, troca uma empresa, é uma decisão do gestor. Quando você cria um incentivo para turnover de carteira, o gestor perde um pouco esse controle, porque ele vai ser obrigado a vender um papel que ele não quer vender, para pagar um resgate. O investidor brasileiro, do mundo inteiro, fica tentando operar a cota, para tentar acertar na mosca. Esse cara é o cara que faz o market time, o que mais se ferra, ele sempre compra quando o mercado está lá em cima, é o último a participar da festa e é o último a sair também quando o mercado vira, porque é cíclico.

Daria exemplo de um fundo da casa?
O fundo de crédito novo, o Sirius. Qual é o risco que o cotista corre? Ele é pós-fixado. As debêntures são pós-fixadas, têm um vencimento, se mexe na curva de juros, isso é marcado a mercado e se pega na cota. Você teve uma abertura de spread generalizada no mercado em dezembro. O que aconteceu com o Sirius? Ele deu uma embicadinha, o fundo estava girando em torno de CDI e teve um mês a 30% do CDI. Muita gente se assustou e resgatou. E tem gente que olhou e falou, eu não acho que isso vai acontecer de novo, eu vou entrar agora. Quem resgatou tomou uma decisão ruim e o cara que comprou naquele momento ganhou dinheiro, porque o fundo rendeu 115% do CDI. Agora, bola de cristal para acertar esses dias é difícil. Se você pegar o índice Small Cap, criado em 2008, até fevereiro deste ano foram 4.094 pregões e um retorno de 80%. Se você excluir os 15 pregões de maior retorno, ele fica negativo em 41%. O ‘entra e sai’ nem sempre é bom, muda completamente a rentabilidade do produto. Independentemente das regras tributárias, importante é que o investidor, ao comprar um produto, entenda a cabeça da gestora, para que ele alinhe a sua expectativa e o horizonte dele com o gestor. Porque só assim ele vai ganhar dinheiro.

Vocês têm um ETF na B3, o TRIG11, de 2021. Vocês pensam em ampliar ETFs da casa?
É o único ETF puro-sangue do mercado. Esse ano, o mercado está precificando uma eventual queda de juros. Se vai acontecer, não sei. Mas está precificando por algum motivo. E o TRIG11 está subindo 33% no ano. Porque ele está cheio de papéis cíclicos dentro dele. Consumo, shopping, todas small caps. Empresas alavancadas, que é onde o mercado anda. Magazine Luiza está subindo 50% no ano. Se você perguntar ao investidor se ele prefere um fundo com menos 6%, o de Small Caps, ou um ETF que já subiu 33% o que ele escolhe? Se você acredita que no longo prazo o que precifica uma ação é o valor que ela traz para os seus acionistas, o lucro dela, os dividendos que ela paga, se a resposta for o fundo de investimento hoje negativo está correto. Mas o investidor questiona como o fundo cai 6% quando no mesmo período o índice small caps sobe perto de 26%. Tem alguém muito maluco ou o mercado ainda não enxergou o potencial das empresas selecionadas pelo gestor e elas estão muito mal precificadas. Quem compra o índice, small caps, não olha as empresas que compõem o índice. Elas estão dançando a música de que o juro vai cair. Conforme as empresas vão publicando os resultados e mostrando para o mercado: estou barato porque você não está me vendo, neste momento, começa a entrar fluxo de mais longo prazo. Você tem que ter um mercado que estruturalmente permita isso. O juro nesse patamar não incentiva as pessoas a pararem para olhar esse tipo de conta. Com o juro tão alto, hoje não há estimulo para criar produtos, novos ETFs.

Nem mesmo ETFs de renda fixa, que começam a aparecer na B3?
Agora não, não vejo vantagem, tenho nos fundos de renda fixa estratégias para oferecer. A gente está fazendo muita coisa. A gente tem algumas frentes no forno que no momento certo posso falar. Mas também não dá para a gente ficar perdendo o foco das coisas. Por exemplo, quando a gente resolveu criar a área de crédito fizemos na condição de ter uma equipe dedicada para isso. Quando a gente resolveu fazer o ETF a gente fez também na condição de que não ia tomar o tempo da gestão porque é um fundo passivo. Quando a gente foi criar o Parthenon, que é um fundo large cap, trouxe mais um analista. O importante é você manter a dedicação, a qualidade e a consistência. Infelizmente os fundos estão indo muito mal. Isto é fato. Mas é muito mais uma circunstância de mercado do que qualquer outra coisa.

Qual a relevância do investidor institucional na casa?
A gente tem alguns mandatos importantes. O institucional na Trígono começou mais tarde porque ele espera um pouco mais de track record. Quando a gente começou a participar das primeiras diligências que você tem que responder os questionários, sentar com os times do próprio cliente, isso fez com que a gente fosse melhorando aqui dentro. O institucional olha muito mais o qualitativo. Fomos aprendendo e hoje chegamos lá. Hoje qualquer diligência que vem para cá passa. A própria parceria (com a BB Asset) exigiu uma certa diligência. Isso tudo a partir de 2021, quando os fundos tinham mais de três anos, filtro mínimo dos institucionais. A casa tem um AUM de R$ 2,4 bilhões, com 60 mil investidores. É dividido em um terço institucional, um terço clientes via plataformas, normalmente do BTG, e o restante clientes dos fundos de previdência.

O que ainda falta na casa em termos de produtos ou de estratégia?
Eu acho que falta o investidor estrangeiro algo, a gente está começando a entender qual é o caminho das pedras. Estou falando das endownments americanas, uma fundação ou um fundo soberano. Para que invistam nos fundos que já têm aqui. É difícil porque esse investidor, quando fecha o mandato, não troca de gestor. A gente só vai conseguir entrar quando tiver capital novo para o Brasil. E só vai ter capital novo para o Brasil com juro menor. Não é smart money, como dos hedge funds, num movimento compra vende, entra e sai. A bolsa está subindo esse ano por conta do fluxo de smart money. Agora, aquele investidor que vem para ficar 10 anos, este ainda não veio. De certa forma, o mercado também está se antecipando. Hoje, eu tenho quatro frentes abertas de crescimento, verticais novas aqui. Eu ainda não sei como acessar este investidor estrangeiro, mas é algo que olhamos. Não posso antecipar estas verticais, mas estamos sim trabalhando para avançar.

Qual sua expectativa para o restante do ano, dá para crescer em AUM?
Olha, a gente tem um fundo High Grade que está andando a 111% do CDI no ano e que paga em cinco dias. É um fundo com potencial de crescimento. A gente tem o Dynamic que está indo muito bem, que está crescendo. O Parthenon, que é o fundo Large Cap, está indo muito bem. A gente tem mandatos institucionais que estão em andamento. Não tenho uma meta de crescimento, mas vamos avançar.
