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Fugindo do ‘kit Faria Lima’, nova aposta da TAG Investimentos é levar FIDCs ao ecossistema das startups

Jiane Carvalho

Thiago Castro: sócio fundador e CEO da TAG Investimentos

Com uma carreira construída em instituições financeiras, no corporate banking e ajudando a estruturar projetos para empresas clientes, Thiago Castro se define como um “inconformado com a relação entre clientes alta renda e os grandes bancos”. O sócio fundador da TAG Investimentos e CEO da casa, usou este background para imprimir seu DNA na casa que atende investidores institucionais e pessoas físicas de alta renda e – “na busca por melhores oportunidades” – estrutura internamente as operações. Na entrevista ao Além do Capital, Thiago Castro contou um pouco da origem deste inconformismo com o “kit Faria Lima” e com os conflitos de interesses na oferta e distribuição de produtos pelos bancos. “A gente tem uma certa inquietação em não querer comprar só os produtos que a Faria Lima nos entrega. Tá todo mundo comprando a mesma coisa e, eventualmente, sem prêmio.” Na entrevista, o CEO da TAG, casa com R$ 14 bilhões sob gestão, falou também do lançamento da TAG Edge, voltada a levar produtos estruturados, como os FIDCs, ao ecossistema das startups.

Acompanhe:

O TAG Edge é uma inovação, uma iniciativa que eu não vi nenhuma casa independente fazer até hoje. Basicamente é um hub de inovação para atrair o ecossistema das startups. A proposta é, via FIDCs, ser uma financiadora do ecossistema de crédito dessas startups. Vou te dar um exemplo real. Existe um aplicativo que antecipa o dinheiro que o motoboy vai receber do app de alimentação, o iFood. Ele tem mil reais para receber, o app antecipa 950, com uma taxa de 5% que fica na mesa. Este aplicativo deve ter um volume de R$ 150 milhões de financiamento de motoboys. Se essa operação eventualmente fosse levada para o banco, iria para uma área de crédito ou faria uma distribuição de um FIDC a CDI mais 5%, 7%. Quando a gente percebe que o mundo das startups conseguiu romper uma barreira e ter mais fidelidade na ponta do que eventualmente os bancos, a gente acredita que o mercado de capitais e o mercado de crédito que mais se aproximar desse ecossistema vai beber a água mais limpa. Sem que eventualmente os spreads do banco fiquem no meio do caminho.

Toda a minha trajetória antes da TAG foi passada em instituições financeiras, nunca estive ligado ao wealth management ou private banking. Trabalhei no Santander e fui expatriado para a Espanha e depois no Chile. Quando eu voltei, eu era um pouco inconformado com a relação dos clientes que tinham muito dinheiro com os bancos, todos com plataformas fechadas. A TAG foi criada e entrou nessa história de não ter vínculo com ninguém. Hoje, o discurso foi padronizado, mas a metodologia das operações não foi. Uma das coisas que a gente foca muito na casa é sobre ser independente de verdade. Eu sou remunerado pelo cliente e todas as comissões ou receitas indiretas que eu consigo alcançar devolvo para os nossos clientes. Com o tempo, deixamos de ser apenas um family office para originar nossas operações com retornos mais interessantes.

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Há uns três anos atrás, estruturamos a pedido de um cliente uma operação de CRA de R$ 30 milhões. O juro estava perto de 8,5%. No mesmo momento, existia um grande banco saindo com um CRA de R$ 400 milhões da mesma companhia. A nossa operação saiu numa taxa pré de 12,70%. E o CRA do banco a 105% do CDI. Percebemos que boa parte do resultado das operações ficava nos canais das instituições que estavam lançando. Como acontecia na parte de investimentos líquidos, nas operações estruturadas o problema continuava existindo. Fomos um passo além e decidimos começar a originar e, eventualmente, estruturar operações para o cliente na ponta, porque eu percebo que os fees de canais de estruturação, de distribuição e tudo mais são muito grandes. Com este banco, que não posso citar o nome, ficou algo perto de 4%, entre distribuição e estruturação. Se a gente fez uma operação a 12,70% e o mercado saiu a 8,70%, tinha claramente uma arbitragem entre essas operações.

Quando a gente olha os escritórios lá fora, pelo menos 30%  ou 40% deles fazem o asset allocation, as decisões de investimentos para pessoas físicas, muitos deles para os institucionais, fundos de pensão, seguradoras. No Brasil, esse formato até hoje não funciona dessa forma. O know-how que a TAG aplica para tomar as decisões de macro alocação e micro alocação para o cliente de pessoa física, é o mesmo que a gente aplica para os clientes institucionais, guardadas devidas regras de regulação, de risco, de governança. Em 2014, vimos que muitas das fundações, principalmente as multinacionais, em 99% dos casos, tinham uma limitação de equipe de investimentos, uma necessidade de ter uma opinião independente das melhores decisões nas classes de ativos. Por impulso de um cliente nosso, que era conselheiro de uma fundação, a TAG começou a fazer esse trabalho de asset allocation para o institucional, que hoje é mais ou menos uns R$ 5 bilhões do nosso volume. Obviamente o mercado no Brasil é diferente dos Estados Unidos. No Brasil, a gente tem a questão da meta atuarial versus o preço das NTNBs. Hoje, eles não têm muito interesse em diversificar. Do institucional que a TAG atende, 80% são fundos de pensões de multinacionais e 20% seguradoras, também multinacionais. Trabalhamos com clientes acima de R$ 20 milhões, na pessoa física. Recentemente, a gente lançou uma área para atender clientes de R$ 3 milhões a R$ 20 milhões, que é uma consultoria.

A TAG tem áreas de negócios, tem a parte de liquidez, que é esta asset allocation, investimentos puros. Tem uma parte de fundos estruturados e wealth planning, que está junto com o chamamos de fundos feitos para os clientes, pode ser um FII, um FIDC ou FIP. A outra área é de produtos estruturados, dividida em originação de operações, a legal claims, além da novidade que é a TAG Edge.

Esta é mais um caso da história do nosso inconformismo e, eventualmente, comprar o que já está completamente amassado por estruturas padrões, ou de assets, ou de bancos. Quando fomos olhar mais de perto este mercado, em 2018, percebi que é praticamente uma renda fixa que paga muito mais do que uma LFT. Porque no final do dia, os precatórios aqui estão em regime especial, pulverizados, que são ações que o INSS perde por aposentadoria, por equivalência salarial. São ações que entram contra o INSS e a União aceita que perdeu. É um precatório que entra nesse regime especial e é pago em dois anos. Quando a gente propõe a ideia de antecipar esse fluxo de 2 anos para quem ganhou a ação, na maioria dos casos é uma solução financeira muito mais eficiente do que eles tomarem dinheiro em banco, agiota ou financeira. Essa tese funcionou tão bem que isso virou um negócio que hoje se chama Precato. Já investimos na Precato (compra de precatório) perto de R$ 1,4 bilhão ao longo desses 6, 7 anos. E já retornou R$ 1,1 bilhão para os investidores. Ela só compra precatório federal, estadual e municipal. Investimos neste mercado porque achamos que tem muita arbitragem, diferentemente dos multimercados que não conseguem achar mais tendência. Começamos a olhar os legal claims não só de uma forma pulverizada no público, mas também ações de causas privadas. A gente tem um fundo hoje que deve ter mais ou menos uns R$ 150 milhões que são de causas privadas. Eventualmente tem precatórios também. No nosso fundo a gente compra ativos de R$ 5 milhões, R$ 10 milhões ou bem mais.

A gente tem uma certa inquietação em não querer comprar só os produtos que a Faria Lima nos entrega. Tem esse lado, primeiro de achar que é a última bolacha do pacote, e depois de não perceber que está todo mundo comprando a mesma coisa e, eventualmente, sem prêmio. A gente não se conforma muito em comprar o kit Brasil da Faria Lima ou o kit Faria Lima. A gente acha que tem muita oportunidade para investidores ganharem dinheiro. E não necessariamente estão nos fundos multimercados da moda, que agora nem na moda estão mais.