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BEE4, bolsa das PME, olha para renda fixa e cria musculatura do mercado de acesso no país

Érica Polo

Patricia Stille, cofundadora e CEO da BEE4
Patricia Stille, cofundadora e CEO da BEE4

Em operação desde 2022, a BEE4, hoje um ambiente de negociação de ações de empresas com receita anual numa faixa entre R$ 10 milhões e R$ 300 milhões, está na antessala de mudanças significativas. Em breve, deve colocar o pé em renda fixa – num primeiro momento com a negociação de notas comerciais e debêntures. Ademais, à medida que aguarda sua licença definitiva, caminha paralelamente à aprovação do Regime Fácil, proposto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em setembro passado. Isso elevará o escopo de atuação da bolsa – ou seja, balcão organizado de empresas emergentes – para companhias com faturamento até R$ 500 milhões. Em um 2025 desafiador para a renda variável, Patricia Stille, cofundadora e CEO da BEE4, evidencia expectativa otimista. É que o olhar não está no curto prazo.

“A ideia é formar a base para trazer aquelas que podem ser as futuras grandes empresas, tanto no mundo de ações quanto no mundo de dívida. E eu acho que isso tem uma importância muito grande para o crescimento econômico brasileiro. Estamos olhando para as futuras gerações”, resume a cofundadora da BEE4, que idealizou o negócio em parceria com Rodrigo Fiszman, ambos ex-executivos da XP – onde ocuparam cadeiras na década passada. A veia da BEE4 é inovação – também a digital –, com o uso de tecnologia blockchain e ações representadas por tokens.

Acompanhe:

Começamos a operar em 2022 para desenvolver o mercado de acesso brasileiro, buscando inovações regulatórias e de tecnologia também, através do Sandbox (lançado pela CVM em maio de 2020). A gente começou por ações, montou a infraestrutura inteira, mostrou funcionando, e agora a gente migra para a licença definitiva – e traz a renda fixa, que é a vocação brasileira e há muita emissão nesse segmento –, em meio a um avanço regulatório que vai se concretizar mais ou menos ao mesmo tempo. A BEE4 nasce para viabilizar o acesso dessas companhias e para desenvolver um mercado grande nesse segmento. Do ponto de vista de simplificação, precisa considerar dois aspectos diferentes: o balcão e a depositária, que é a infraestrutura, e o processo de registro de emissor e de oferta. Nós montamos um arcabouço novo. Se uma empresa que faz oferta precisa ter a auditoria dos últimos três anos, na nossa modalidade, é a do ano anterior. O custo de setup e de emissão é menor, precisa ter um assessor jurídico e não dois deles. O escopo das informações que você precisa colocar em relação ao formulário de referência da Resolução 80 é muito menor, por exemplo. Agora, tem que ser auditada, tem que reportar resultado, tem uma relação de confiança e transparência com os investidores para ser mantida.

Mercado de acesso é o segmento que a gente chama para as empresas emergentes, até mais M do que P. Essas empresas precisam ter já uma estrutura, um nível de governança para conseguir sentar na mesa do mercado de capitais. Tem mercados de acesso desenvolvidos em outros lugares do mundo, e o Brasil estava um pouco parado nisso até muito por uma questão regulatória. Pelo mundo há diferentes mercados de acesso: Reino Unido, Canadá, Coreia do Sul avançaram muito. Tem ali um segmento que é praticamente formação de base, há um degrau de governança em que essas companhias têm um desconto regulatório, ou seja, menos pré-requisitos para entrar ali, mas já começam a relação com o mercado. Essas companhias têm uma governança menos robusta do que o mercado tradicional exige minimamente, mas é uma governança já muito melhor do que se encontra em startups e empresas que não vão ser listadas. E aí as companhias que vão evoluindo pulam para o mercado principal. E o Brasil estava atrás nisso. Então, em maio de 2020, a CVM lançou um edital para o Sandbox regulatório, que é o primeiro dela no Brasil. A gente enxergou naquele Sandbox uma oportunidade de propor o novo, para formar um mercado de acesso. Então, o que a gente fez? A gente provocou ali um conjunto de regras, pré-requisitos e obrigações, para que essas companhias se tornem registradas nas categorias A e B. E uma vez você se tornando uma companhia registrada, sendo valor mobiliário, o mercado consegue investir nela, dentro de uma série de regras.

Do momento que a gente foi aprovado, no finalzinho de setembro de 2021, construímos o ambiente de negociação, a nossa rede DLT [Distributed Ledger Technology], porque tem uma novidade, usamos DLT (blockchain) na nossa infraestrutura de mercado. E construímos um canal para cadastrar os clientes, seguindo as regras como se fosse uma corretora, para levar os investidores a um ambiente de negociação, e começamos a operar para mostrar essa dinâmica funcionando. Estamos num momento importantíssimo, após o lançamento da consulta do Fácil, da CVM, no ano passado (o Regime Fácil institui regras para facilitar o acesso de PMEs ao mercado de capitais). E o Fácil se inspirou na BEE4. A gente fala isso abertamente porque trocamos muito com o regulador, a CVM, solicitando inúmeras audiências particulares sobre o tema, então temos liberdade para fazer a afirmação. E com essa inovação, o Fácil, a gente vai para um outro patamar em termos de operação. Por exemplo, até então, viemos operando no mundo de ações somente, e considerando o teto para empresas com faturamento até R$ 300 milhões. Pelo texto da consulta pública, o Fácil vai permitir que a nossa operação tenha um novo limite, de R$ 500 milhões. E vamos poder operar com esse novo limite quando o Fácil for uma realidade. Nesse meio tempo, em que o Fácil está vindo, a BEE4 também está fazendo a transição dela para as regras das licenças definitivas.

É importante contar antes que a gente entrou no Sandbox e conseguiu a licença de mercado organizado, de balcão organizado, no caráter experimental. Isso sabendo que, para a gente sair do Sandbox, iria precisar fazer o pedido de licenças definitivas – e assim a gente fez. Sendo que o edital da CVM sobre Sandbox trazia muito da inovação, do uso do DLT, então a gente conseguiu uma dispensa de depositária e faz todo o controle de titularidade, de registro das operações quando o token troca de mãos – cada ação aqui representa um token. À medida que eles trocam de mãos fica registrado na nossa rede, e o escriturador é um nó nela. Em janeiro deste ano, a gente conseguiu a licença da depositária full . Tem um tempo de implementação, até o final de julho. Vamos depositar as ações que estão negociadas no nosso mercado e isso também viabiliza a nossa entrada no mundo da renda fixa, para atuar em nota comercial e debêntures. A gente pediu licença de balcão e depositária, nossa, e a câmara que está sendo autorizada para a liquidação é a Núclea, um stakeholder de onde vem o funding da BEE4. No momento que obtivermos a licença definitiva, passaremos a usar a câmara da Núclea, que era o plano desde o início.

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Estando no Sandbox você recebe uma licença de funcionamento e pode cadastrar clientes, abrir capital de companhia, mas com limites operacionais: empresas até R$ 300 milhões, emissões de até R$ 100 milhões e, com liberdade para fazer até 10 emissões de empresas, é o que está autorizado na CVM 874. Quando eu passo para a licença definitiva, posso operar no âmbito do Fácil. Eu vou poder fazer quantas emissões eu tiver capacidade de colocar, e a distribuição e os parceiros que eu venha ter. Eu vou passar a lidar com empresas com limite de faturamento de R$ 500 milhões. Mas a gente não vai ficar brigando no segmento da B3. E, em emissões, poderão ter tamanho de R$ 300 milhões. Além disso, a gente pode começar operando esses ativos que eu te falei (ações, o que já ocorre, e renda fixa: nota comercial e debêntures), que a gente já pediu na largada. À medida que expandirmos, vamos pedir autorização de novos instrumentos.

A gente se conectou, nesse primeiro momento de BEE4, com as corretoras do Itaú Private e Genial Investimentos. E por que o pregão uma vez por semana? Quando se está começando, e vai ter menos participantes, a liquidez vai se construindo. Então pensamos em atrair a atenção do mercado por um dia, para não ficar aquela coisa boring e espaçada, e conseguirmos formar preço de um jeito adequado. (As empresas listadas são Eletron Energia, Plamev Pet, Mais Mu e Clínica Engravida; há um IPO em andamento, da Roda Conveniência).

Eu não consigo cravar essa meta pelo seguinte: eu dependo de algumas variáveis. Por exemplo, a minha licença de depositária já saiu, e aí eu tenho um prazo de implementação até o final de julho. A minha licença de balcão está para sair. Ambas foram protocoladas juntas, mas o prazo de análise pelo regulador, pela regra, é maior para o mercado organizado, então ele está para sair. Já enviamos todos os documentos há um tempo, e já finalizou o processo de idas e vindas de dúvidas. Virando a chave ali em meados de julho, porque tem o prazo de testes, a gente ainda depende da Resolução Fácil. A gente acorda e dorme pensando no Fácil. Eu tenho uma preocupação muito grande ao falar em projeções agora. Mas, se eu olhar para o universo de companhias com faturamento acima de R$ 10 milhões, nesse range que focamos, falamos de um universo de 350 a 400 mil empresas. E aí, neste segmento, há um subgrupo que vai estar disposto a dar espaço para a governança e que vai ser atrativo o suficiente para o mercado.

Nós protocolamos o projeto na CVM em 2020, numa outra realidade de juros. A gente sempre olhou para o mercado de forma ampla, mas começamos por ações porque, até na parametrização das infraestruturas, tem algumas coisas mais simples do que renda fixa. E era o nosso ciclo de competência, a gente foi expandindo isso com as pessoas que a gente foi trazendo. Vou contar um pouco da história. Eu e o Rodrigo Fiszman, sócio-cofundador, somos ex-XP. Lá eu ajudei a construir a proposta de produtos da plataforma de fundos e, o Rodrigo, que chegou em 2013, a montar o Wealth, em São Paulo. Ao longo da trajetória (mesmo após o período de cada um na XP), identificamos as oportunidades e os gaps do mercado brasileiro. Quando a gente foi montar o nosso negócio, olhamos para essa questão da importância de construir o mercado de acesso no país. A gente veio atraindo sócios, atraímos a Núclea, outros sócios investidores que partilham dessa mesma visão de futuro. A ideia comum é formar a base para trazer aquelas que podem ser as futuras grandes empresas, tanto no mundo de ações quanto no mundo de dívida, e eu acho que isso tem uma importância muito grande para o crescimento econômico brasileiro. Estamos olhando para as futuras gerações.

Pode ser que a gente tenha emissões pontuais [de ações]. Às vezes, até em ações, você consegue fazer algumas estruturas de emissões para atender públicos específicos. No nosso lado eu vejo coisas mais pontuais. Mas o grosso vai estar em renda fixa, eu acho que não há dúvida sobre isso. Até que a gente veja um cenário mais construtivo de Brasil. E aí não dá muito para prever quando pode acontecer. Eu vejo, naturalmente, que nesse ano a agenda está muito tomada já por outros temas. Parece que a eleição presidencial, de 2026, já está começando em algum grau. Eu tenho essa sensação. Mas a cabeça de quem monta um business duradouro, para gerações, não olha só para um momento. A gente está aqui para explorar o que o mercado tradicional não está olhando.

A gente hoje está com uma empresa captando, por exemplo, a Roda, que é interessantíssima. É uma oferta pública que está aberta. Vou falar um pouco da Mais Mu, nossa segunda listada. Quando ela fez auditoria para se listar, acabou ficando pronta para receber investidores institucionais. Isso é importante: quando a gente desenhou o arcabouço regulatório para ver o que era relevante como pré-requisito para uma companhia listar na BEE4, a gente olhou muito para o que os FIPs olham, porque precisa ser auditado, reportar dentro de uma governança mínima. Ela, a Mais Mu, fez isso, por exemplo. E depois de listada, em maio de 2023, ela recebeu um aporte da British American Tobacco, a holding da Souza Cruz, que fazia um movimento de diversificação. O fato de a Mais Mu ter passado por esse processo na BEE4 foi um empurrão para outras coisas, e ela tem crescido aceleradamente, é uma empresa robusta. Há casos de empresas que enxergam valor nesse movimento, que vão querer botar o pé para se mostrar para o mercado. A Roda Conveniência, na minha visão, é de outro empresário que é um super executivo. Os investidores que olham essa oferta no momento são mais estratégicos. E uma coisa muito interessante de a gente entrar em renda fixa, ao fazer uma nota comercial e debênture, é que a estrutura é muito mais simples. Então é ir formando uma base de ecossistema de emissores. Ele (empresário) pode começar por dívida, daqui a pouco ele faz ações. Quando a janela de IPOs chegar, ele já está com metade do caminho pronto. Essa esteira é muito importante.